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23/02/2025

Diário 23 de Fevereiro 2025


Já Trump tornou tudo o mais transparente possível. Assumiu os EUA como potência mercenária. Vende ou não protecção militar mediante pagamento a Taiwan e ao resto do mundo, conforme a conveniência. Putin quer tomar a Ucrânia e pôr a pata no resto da Europa de Leste. Vendido! Toma lá um acordo de paz e fica com o território que quiseres por agora, mais tarde voltamos a negociar. 


Nas duas últimas semanas portei-me mal com o Medium; li muito pouco por cá. A ver se retorno ao ritmo dos últimos meses. Trouxe apenas duas histórias para a Reading List acerca do Romantismo na pintura. O autor do primeiro post explica como os artistas do Romantismo se opuseram à supremacia da Razão do Iluminismo, valorizando a imaginação e a emoção. Mencionou o uso da pintura como expressão de sentimentos reflectida na natureza que deixa de ser mero cenário e passa ela mesma a sublime como algo poderoso e aterrador, no inglês William Turner, ou forma de espelhar a condição humana, no alemão Caspar David Friedrich. A segunda história fala-nos do ucraniano Mykola Kocherzhuk, contemporâneo que mantém vivo o espírito do movimento romântico. Podem seguir o trabalho deste artista, aqui: Mykola Kocherzhuk, contemporary Ukrainian painter | KyivGallery



Estamos precisados de voltar a acreditar na Liberdade e na insurreição contra as convenções e arbitrariedades do poder. É necessário dosear a soberba da razão e o autoritarismo. Nos últimos anos tem sido sexy reduzir a Revolução Francesa ao jacobismo, ao extremismo e aos excessos. Esta visão redutora tem sido muito conveniente à mentalidade emergente dominante ultraconservadora, reaccionária e, às vezes, arruaceira, outras, sonsa. [os intelectuais da treta nesta parte ficam a dissecar se os conceitos de ultraconservador e reccionário são rigorosos, ficam a discutir o sexo dos anjos] São muitos os que rotulam de puritanas e politicamente correctos, além de extremistas, todos quantos defendam módicos de civilidade. É o apelo ao direito a ofender seja por mera diversão seja como jogo de acesso ao poder. Claro que este direito é unidireccional. Só assiste a quem tem a faca e o queijo na mão, aos que que se sabem numa situação privilegiada — são estes os partidários da lei da selva. Criaram as condições perfeitas para o surgimento dos reis da selva, esses selvagens que desfazem os corpos de estados soberanos como se partilhassem repastos à hora de almoço ou jantar na televisão e mundo online. Os jornais televisivos e informação das plataformas online transformaram-se em programas sobre o mundo selvagem da National Geographic. Com igual dose de irracionalidade animalesca.


Em português e fora do Medium li que Bill Gates alerta os jovens para quatro grandes perigos da actualidade. Perdoem-me as imprecisões, mas vou apelar à memória sem ler de novo o artigo. Além do tradicional perigo nuclear, o fundador da Microsoft indica como preocupações o bioterrorismo e as pandemias, o uso malicioso e desregulação da Inteligência Artificial e alterações climáticas. Também em português li Durão Barroso discorrer sobre a necessidade de segurança, união e solidariedade a propósito de um programa de vacinação em países de baixos rendimentos. Não pude deixar de notar que a linguagem usada tem um quê empresarial ou comercial. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Logo se verá.


E magico: estamos naquela situação de anestesia face ao globo terrestre que ocorreu no tempo da Covid. Nessa altura assuntos não pandémicos da América o Sul, África e Ásia desapareceram dos radares. Nos últimos meses, saltamos do Médio Oriente para Trump e por decorrência para a Ucrânia e a Rússia, e de novo o apagão do resto do mundo. De quando a quando lá vem uma notícia sobre o terrorismo islâmico em África, a crise política e económica na América do Sul, ou os níveis extremos de poluição na Ásia, ou um pico sobre Taiwan e, pronto, estamos informadíssimos. Mesmo dos países com ligações de sangue a Portugal como Angola e o Brasil, ficamos sempre pela rama. O que sabemos da vida da classe média brasileira? O que sabemos sobre a economia real, sobre as indústrias e empresas? Sobre a habitação, o sistema de saúde e de segurança social brasileiro? O que sabemos sobre os desníveis socio-económicos. E em Angola a mesma coisa. O que sabemos é-nos dado nas viagens de estado com amplas comitivas de gente que vai tratar dos seus interesses empresariais ou de questiúnculas de clã. Sabemos desses países como territórios que potenciam negócios e interesses portugueses, seja na área comercial, tecnológica ou cultural. Nada sabemos dos angolanos e brasileiros e das suas vidas comuns. Reais. A menos que os conheçamos e vamos conversando. Se seguirmos os jornais limitamo-nos às danças étnicas protocolares e ao chamariz sem sumo “cimeiras bilaterais” . Que tal conhecer o teor dos acordos para a ciência, defesa, segurança, energia etc?


Já Trump tornou tudo o mais transparente possível. Assumiu os EUA como potência mercenária. Vende ou não protecção militar mediante pagamento a Taiwan e ao resto do mundo, conforme a conveniência. Putin quer tomar a Ucrânia e pôr a pata no resto da Europa de Leste. Vendido! Toma lá um acordo de paz e fica com o território que quiseres por agora, mais tarde voltamos a negociar. Por agora Trump vai arrancar à nação ucraniana uma porção de terras ricas em minerais raros. Enquanto isso esgana-a financeiramente para que fique entre a espada e a parede e se mantenha ocupada como a Polónia e a França há oitenta anos. Na qualidade de labrego mercenário injuria governantes, estados e nações. É assim o pulha. Sujeita populações inteiras a viver subjugadas ao poder de tiranos. O seu negócio são armas, gás, troca-as também por chips semicondutores e há-de tentar levar as fábricas para os EUA nacionalizando o negócio. É o rei da selva, o suprasumo do bullying. Viva a Liberdade de ofender, agredir, roubar impunemente. Viva a Democracia Pervertida. Viva a violência dos déspotas.


E agora a conversa que parece a muitos coisa de mulher chata, estúpida e desinteressante. Ainda mais do que até agora, imaginem. Básica, dirão as que há pouco aprenderam a dizê-lo. Hoje fomos tomar café ao Froiz enquanto decorria uma visita em casa. O dispensador de senhas não estava a funcionar, a funcionária compôs depois da cliente anterior queixar-se. Tirei a senha e estendi-a à dita perguntando se queria por saber que estava antes de mim, olhou-me e com o ar de maior desprezo disse “não preciso disso”. Sem mais. Assim, à Trump. À labrega. A maneira de estar de muitos e muitas neste mundo, entre eles muitos que defenderam nos anos precedentes o direito a ofender, a injuriar. Todos quantos não têm tempo a perder com salamaleques ou mesmo aqueles que gostam de bullying às claras ou dissimulado. Aos que só sentem a ofensa quando caricaturada ou quando ameaça interesses próprios. Aos agressores da vida real e virtual há anos a fio a divertir-se a destratar e ofender quem não cai no goto ou quem se defende ou contesta agressões.


Não sei porque criticam Trump, especialmente os dissimulados. É o vosso espelho aumentado. A caricatura perfeita de presumidos que confundem educação e elegância com a exclusividade do dinheiro, piroseira e snobismo intelectual. Reflexo dos que mentem, distorcem a realidade e caluniam adversários para fazer eleger amigos. Eis o vosso rei da selva. Viva o direito a ofender.





O dia-a-dia decorre quase sereno, não fossem contratempos que logo se resolverão. Hoje cá esteve o M., mais teimoso ainda do que é habitual. No fim da aula de piano do Nuno, ainda que sabendo as flores não serem de todo a praia do miúdo, levei-o à varanda. Interessou-se pelo tamanho da nespereira nascida de dois caroços que deitei à terra de um vaso pequenino e quase conseguiu fazer festinhas no Ritz. A H. gostou da cor das azáleas e anteviu a exuberância da abertura dos botões das camélias. Ao fim da manhã houve mais uma visita cá a casa, um casal de portuguesa e argentino. Gostaram, mas queriam um +1 maior já que trabalham ambos a partir de casa. Logo darão feedback.





Entretanto falei como o meu afilhado para que me relatasse a viagem ao Japão. Lá me contou dos quatro distritos de Tóquio e do apartamento exíguo no centro, de Hakone e das vistas deslumbrantes do Monte Fuji, de Kioto e da mais ocidentalizada Osaka. Das horas a subir escadas para os belos santuários. Dos cemitérios. Da boa-educação. Dos percalços de numa noite se ver sozinho na rua longe do hotel sem rede no telemóvel e ter de usar a bússola. Enfim, vou ter direito a um íman e fico orgulhosa de não ter um sobrinho presumido. Estamos a salvo dessa praga por mais uma geração.