
Ontem em conversa diziam-me mais ou menos isto: Trump e os seus decretos vão ter um efeito reverso. Por outras palavras diziam que o feitiço viraria contra o feiticeiro.
Respondi que me lembrava de ao escrever a Ana Paula (O Livro dos Três Princípios) ter descrito brevemente uma personagem que havia singrado com o uso do politicamente correcto e cujo discurso e acção entraria em autocombustão para dar lugar a uma tirania de sinal contrário.
Referia-me ao que agora vejo por aí chamar processo autofágico por gente que no fundo está radiante com a existência do Trumpismo – há muito ultraconservador disfarçado de democrata e de liberal que se revê nas políticas agressoras dos direitos, liberdades e garantias de Trump, a quem entregam tacitamente o trabalho sujo, fazendo-se passar por impolutos e bem-intencionados cidadãos democratas.
Em 2015, quando comecei a escrever a Ana Paula fazia-me sentido que os absurdos radicais se consumissem a si próprios e o planeta voltasse à normalidade obedecendo ao princípio da história por ciclos.
Porém a ideia benigna de que o mal sempre acaba é mais uma questão de fé do que uma certeza. Acreditamos, mas não temos garantia sem esperança.
Para dizer a verdade face ao actual estado do mundo, ao que vejo aceitar, ao aproveitamento da onda de extrema direita pelos ultraconservadores encapotados e oportunistas e à forma como de repente se despreza, por vezes sem pudor, o que se tinha por adquirido civilizacional, não estou tão crente que o bom senso prevaleça.
Seguimos de anormalidade em anormalidade, integrando o absurdo e o ultraje humano como inevitáveis. Pavorosa anestesia em andamento.
Responderam-me que demorará, mas a lei do equilíbrio ditará que mundo volte ao normal.
A ver vamos com que custos.