Está difícil meter mãos à obra e escrever o comprido e aborrecido diário habitual de fim-de-semana. São onze e meia da noite Sábado e só agora começo. Parecendo que não, ainda dá trabalho maçar quem nos rodeia. Em Outubro do ano passado quando subescrevi o Medium cheia de boas intenções seleccionei uma vintena de tópicos para orientar as sugestões que a plataforma me viesse a fazer. Entre eles: Pintura, Filosofia e Política. Esta semana trouxe para a Reading List uma história de cada um destes tópicos. Para ser franca dentro dos parâmetros da sugestão a escolha é bastante aleatória: acaba por incidir sobre alguns dos conteúdos que estão realçados no dia e hora em que à semana arranjo tempo para ler. Quando tenho mais disponibilidade uso mais a roldana do rato (reparem no esforço para não escrever que faço scroll) para procurar mais hipóteses de leitura.
Começo pelo tópico mais explorado nestes diários, de certa forma um regresso ao de leve a um interesse antigo. Ler gente a debruçar-se sobre pintura e a interpretar telas é um programa agradável e fonte inesgotável de tema, sem necessariamente servir-me das obras (tal como poderia usar livros) para entrar no espadachim argumentativo acerca da actualidade. É uma tentação e às vezes acabo nesse vício muito em voga, mas na realidade o interesse da pintura está muito para lá da intenção oportuna de ilustrar a retórica individual. Sinto maior inclinação e utilidade em falar do assunto como se contasse a um amigo o que vi ou li, em testemunho simples — é o registo das Comezinhas onde não procuro a complexidade balofa que supostamente confere credibilidade. Tenho gostado de ler os autores com quem vou aprendendo no Medium (para desaprender logo em seguida) sejam credenciados estudiosos de História da Arte ou simples curiosos que se atrevem a revelar o ponto de vista sobre as obras em apreço.
A tela desta semana, o conhecido O Viajante Sobre o Mar de Névoa, de Caspar David Friedrich, é a representação máxima do romantismo alemão. Ilustra um homem solitário no cume de um rochedo envolto num mar de neblina. O autor da história que li fala-nos da ambiguidade da obra face às possíveis interpretações. A optimista que nos daria a glória e elevação de um homem ao atingir o topo da caminhada. A pessimista: a solidão na contemplação da natureza e a incerteza da própria existência. Chama a atenção para pormenores como as técnicas da visão de costas aproximando a paisagem a quem observa e da proporção áurea, um princípio de harmonia estética baseado na matemática, que no caso cria uma sensação de exaltação (ombros e cabeça acima da linha horizontal da secção áurea).
Noutra entrada embrenhei-me numa questão filosófica com implicações práticas: a distinção entre confiança e dependência. O autor dá dois exemplos para estabelecer a diferença. A de um elemento do casal que fica ressentido por o cônjuge não ter ensinado os filhos a arrumar a casa quando haviam acordado nisso e o de alguém que contando com a rotina cumprida escrupulosamente por Kant nos seus passeios diários (interrompida apenas, segundo a lenda recordada pelo autor do post, para comprar um exemplar de Emílio, de Rousseau e procurar notícias sobre a Revolução Francesa — caem sempre bem estas referências) não tomar a medicação, cuja falha é muito sensível, à hora em que era suposto o filósofo passar diante da sua janela. Com a ajuda de Richard Holton o autor do post recorda que a confiança envolve estar emocionalmente preparado para sentir traição ou gratidão (que só sentimos por pessoas e não objectos inanimados). Isto é, exige um compromisso que houve no primeiro exemplo e não no segundo, um caso de mera dependência. O autor fala-nos na postura de participante, ou seja, na atitude de nos colocarmos vulneráveis à traição ou gratidão. Alerta para o cuidado que devemos ter ao decidir confiar e para os naturais problemas de comunicação que podem gerar a sensação de traição em alguém sem que a outra pessoa tenha consciência de um suposto compromisso.
Na terceira história escolhida os protagonistas são Trump e Putin. O autor do texto conta como a comunicação social ultraconservadora russa reagiu com decepção à enxurrada de decretos do Presidente norte-americano. Depois do ânimo com a vitória de alguém com discurso nacionalista e anti-globalização, as primeiras acções em sede de políticas de género e inclusão levaram os media russos a afirmar que Trump tinha roubado a agenda de Putin. Acusam-no de tomar para si os valores tradicionalistas, esquecendo que os E.U.A têm um passado também nessa matéria. Em suma, temos dois líderes manipuladores e populistas. E recorda o autor: se dois autocratas começam pela bajulação mútua, acabam por colidir na competição por influência global apoiando-se no poder militar terminando a história em contenda — o que traz à memória o Pacto Molotov-Ribbentrop, o Pacto de Não Agressão Germano–Soviético, de 1939.
Está feita a parte do diário que exigiu leitura de outros com agrado, passo agora para o comezinho. As notícias do pé torcido da Luisinha Carneiro não são boas. A casa do Covelo foi à viola. Teve proposta e vão fazer contrato promessa esta semana. A nossa só começa a ter visitas nos próximos dias. Para dizer a verdade quase me apeteceu desistir da venda, e é o que acontecerá se não aparecer nada de interessante em tempo oportuno. Havia dito na semana passada que teria desgosto se vendessem aquele jardim e tive ao saber na sexta ao fim da tarde. Mas que fazer? Reajo como sempre faço. Ontem de manhã andamos a percorrer a pé as ruas desejadas. Aqui mesmo perto de casa está uma que é um mimo. Sucede que pedem uma exorbitância. Fora de questão. Para desanuviar ontem até apartamentos vi na página imobiliária Idealista. Sei bem que devia manter tudo isto reservado, mas não tenho juízo em algumas matérias.
Para quem teve um contratempo acordei bastante bem disposta. De manhã no chuveiro o reportório foi variado, e desafinado como sempre. Foi preciso chegar à meia-idade para aprender a desafinar logo pela fresca. Muito muda na vida, como a sensação de pairar sobre as contrariedades e mesmo as alegrias (nessas convinha mergulhar, a ver se não esqueço). Por vezes sinto estar de fora da minha vida. E de certa forma é positivo. Por exemplo em matéria profissional dei por mim a pensar: há anos isto ter-me-ia deixado em ebulição, agora vou passo a passo e logo se vê. Claro que são sensações por fases e nada me diz que não afogue num qualquer aborrecimento mais adiante. Mas creio ser uma tendência positiva, como contei aqui há dias.
O M. esteve cá de manhã, antes de sairmos para o périplo das casas. O Nuno deu uma lição diferente. Introduziu-o aos ritmos e tempos. Pô-lo a tocar notas no tempo certo enquanto decorria o ritmo. O pequenino gostou, estava animado e mais alegre e solto. De tarde a minha mãe passou por cá como habitual e leu ao Nuno. A mim presenteou-me com o vaso com pequenas rosas vermelhas — pus na varanda e vou regalar-me a ir vendo os botões a abrir.

Para fechar explico a reacção negativa a conselhos que tive ontem, Sábado: irritam-me os conselhos sejam religiosos, de alimentação cuidada ou hábitos de leitura etc. Não tenho pachorra para modas por mais bem-intencionadas sejam. Serei bruta ao reagir, mas detesto que me catequizem. E por falar em catequese, na sexta-feira decidi-me a comprar um vestido que parece um paramento de padre. Já o tinha vestido na loja na semana passada, mas não tinha tido coragem de o trazer por achar muito largueirão. É até aos pés, amplo, tamanho único, com cortes a fazer de folho e bolsos, de bombazina fina verde mostarda. Assim de batina já tenho indumentária para pregar com propriedade seguindo o guião em piloto automático como é apanágio dos tempos modernos.
Obrigada por terem lido. Bom Domingo.
Adenda 12 de Fevereiro 2025. Noutro post do Medium lido esta semana outro autor refere-se às duas excepções da história da rotina de Kant, como sendo para comprar um exemplar Do Contrato Social, de Rousseau e não de Emílio, ou Da Educação.