Esta semana destaquei na Reading List apenas uma história. O tema? A Terra da Cocanha, de Bruegel de 1567. Uma pintura em tom de sátira que o autor nos explica ser inspirada na tradição do folclore da Europa do Norte: o paraíso do prazer, abundância e saciedade sem esforço ou trabalho. A ideia é de comida e riqueza acessíveis sem trabalho. No centro da imagem três homens deitados em sono profundo debaixo de uma árvore onde assenta uma mesa inclinada da qual desliza comida. Em redor ovos com a colher enfiada e porcos com facas de trinchar agarradas ao corpo entre muitos outros pormenores que descrevem a fartura. O autor do artigo não aceita as interpretações, que apelida de simplistas, de sátira ao excesso ou à fraqueza holandesa face a dominação espanhola, defendendo que Bruegel divertiu-se com o bizarro e surreal. Isto é, a obra seria uma paródia indulgente e a posição dos três homens como se fossem ponteiros de relógio daria a ideia da inexorável passagem do tempo e do legítimo desejo humano de uma vida sem esforço. Interpretação desmoralizadora muito adequada ao relativismo da mentalidade dominante do século XXI. Se é inegável que Bruegel parodiava, a indulgência fica por conta das interpretações sofisticadas dos tempos modernos.
E daqui passo para o dia-a-dia, e mais daqui a pouco para os pensamentos que aborrecem quase todos, desde gente que vive do prejuízo alheio aos distraídos coniventes com a desonestidade por preguiça e conveniência.

Ontem foi um dia difícil. A parte simpática é que tive cá os meus pais a lanchar. Valeu-me o chá. Uma espécie de compensação pelos maus-tratos que sinto receber da vida e são difíceis de identificar de fora como factos de queixa razoáveis. É como a paródia acima, tudo é relativo e todos entendem que os problemas de cada um são pequenos e iguais aos de todos. Mais uma generalização preguiçosa e conveniente. Ontem o Nuno teve três episódios de perda de consciência, de epilepsia. Há muito não acontecia. O único dia em que havia tido três episódios foi o do meu aniversário — o mais marcante presente de aniversário dos cinquenta. O sentimento que vem à tona é de simplicidade ou ingenuidade total — daqueles que os sofisticados gostam de gozar e menosprezar: com tanto sacana pelo mundo dedicado a prejudicar os outros, raio de sorte calharia ao Nuno que é o homem mais afectuoso com a família e amigos, correcto com a generalidade das pessoas e dedicado e terno comigo. O Universo é de uma crueldade e injustiça a toda a prova.
À mesa de lanche aproveitei para brincar com o meu pai, perguntar se tinha o adesivo da nitroglicerina pronto a defender o coração da minha comunicação e participei que tínhamos o apartamento à venda e casa com pequeno jardim em vista. Mostrei as fotografias da moradia no telemóvel e a reacção foi esta: vejo aí muito verde, parece uma salada. Em suma, não correu mal apesar de depois de me perguntar a zona começado a enumerar os defeitos quando comparados com a centralidade da casa actual. Nada que não tenhamos visto e revisto mentalmente, além de vários outros senãos que a compra implicaria. Tudo depende de conseguirmos vender a tempo de comprar. Desta vez terei desgosto se não for para a frente. Como direi? Estou mais apegada exactamente por já ter aceitado até os muitos defeitos. Não seria uma mudança por deslumbre, mas mais do que pensada. A minha mãe leu ao Nuno, como é habitual e parecia tudo muito feliz se a dureza e as dificuldades não caracterizarem a nossa vida conjunta. Assim como quem não dá por ela, na aparência de tranquilidade e facilidade.
A registar com atraso o fim das minhas entradas na igreja nos dias de semana de manhã à passagem para o trabalho. Desde a véspera de Natal não faço a paragem habitual do último ano. Cansei. Digo que não tenho especiais razões de queixa da instituição e é verdade, mas também não deixa de ser verdade que o cheiro e vício das igrejas acaba sempre por me repelir, ainda que por dois minutos. Além de mais é sabido que quem se envolve com Deus, sai a perder. É bom mantê-lo à distância e tratá-lo com inteligência por Universo. Deixá-lo longe do supremo jogo de poder — o mais viciado de todos e no qual está espelhado o vício da luta de poder dos homens.
Por falar em poder, volto ao tema recorrente que irrita uns e aborrece a maioria complacente com iniquidades. A apropriação de conteúdos originais, do estilo e da linguagem sem reconhecimento e respeito pela autoria e a destruição de forma subtil da fonte de criação. É muito fácil no mundo actual a tentativa de destruição velada do valor de alguém que, sendo independente das matilhas de interesse e por isso não aparentando visibilidade, cria uma tendência de estilo de escrita ou de pensamento, por parte de espaços individuais ou colectivos, ou plataformas online, que se apropriam do estilo ou ideias do criador massificando-as através da publicidade e lucrando sem o devido crédito. Pior, não só não dão crédito como tentam destruir a origem desvalorizando e desqualificando os autores primários.
Este comportamento é típico dos que com a máxima desfaçatez a pretexto de defenderem os princípios democráticos e a liberdade de expressão, trabalham diariamente para destruí-los. Em vez de darem genuína prioridade à liberdade e à ética, submetem-se aos interesses pessoais e às manobras de poder. São fáceis de identificar: bajulam figuras públicas que lhes dão projecção e assim crescem nas audiências convencendo os meios de comunicação e as plataformas online a dar-lhes antena, mostram-se aparentemente muito frontais, mas agem pela calada e em grupelho, são coniventes com embusteiros virtuais que fingem identidades e emoções por puro jogo de interesse, quando não agem eles próprios como embusteiros e manipuladores à socapa pese embora a imagem pública impoluta. Promovem-se a si próprios e amigos sem qualquer pudor ou critério de merecimento e aproveitam para incentivar néscias, destemperadas e plagiadoras e demais nulidades para desprestigiar as mulheres e manter o poder nas mãos e cérebros esclerosados à nascença de homens com mentalidade de antanho. Fazem marcação cerrada a qualquer pessoa digna e justa que apareça do espaço público e político, desacreditando-a por pura desonestidade e vingança.
Não toleram o bom carácter, pelo contrário, invejam e desdenham gente independente e de valor que se negue a participar no jogo sórdido das manobras de poder por interesse pessoal e para satisfação de interesses tribais. As atitudes de hombridade e honestidade são-lhes detestáveis pela inveja e pelo medo que causam. Tentam cativar quem esteja disponível para participar nas manobras de poder a pretexto de qualidades inegáveis de retórica para debates forjados de ideias e, sobretudo, quem esteja disposto a sacanear disfarçadamente quem tem mérito.
É esta gente que compõe parte da nossa elite fajuta. Apesar de tudo alguns dos nossos políticos e políticas no activo são melhores que esta corja que vive na comunicação social, nas redes sociais e nas plataformas online a gerir interesses pessoais sob pretexto de defender a Liberdade e a Democracia. Há anos a destruí-las veladamente todos os dias e pela calada radiantes — apesar das grandes declarações de consternação pelos desvarios do mundo — com o estado deplorável de mediocridade a que chegamos. Quanto pior, melhor. Na lama vingam como grandes senhores. O pior é que os políticos estão parcialmente nas mãos destas redes de interesse e de massificação de tendências de opinião. Um nojo. Este é o mundo real.
Obrigada por terem lido. Boa semana.