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17/11/2022

Registo: país de dissimulados

Registo: cinco anos após o auge do movimento #metoo não há em Portugal informação de um único caso judicial que coloque em causa uma figura pública ou indivíduo com cargos de responsabilidade relevante. Registo: ao longo dos últimos anos abundam na comunicação social, nos blogues e redes sociais comentários masculinos de gozo e desdém por mulheres que se queixam de assédio, aliás, desprezo pelas que apenas estranham não haver denúncias. Como se estivessem em perigo. Sempre prontos a relativizar crimes praticados por figuras do mundo do entretenimento, da cultura e do jornalismo. Sempre acompanhados do pronto e excitado apoio de umas quantas mulheres que gostam de chamar às queixosas mentirosas e ressabiadas. Como é sabido para essas solidárias e muito emancipadas amigas de abusadores toda a mulher que não ache piada a ser abusada ou assediada sofre de misandria ou procura protagonismo. 


O que vale é que vivemos num oásis de homens respeitadores e mulheres emancipadas e solidárias. Todos de sexualidade saudável e recomendável. Um país exemplar. Imaculado, sem essas sujidades que afligem outras democracias desbragadas.


Um país que conseguiu mostrar surpresa pela pedofilia no seio da igreja. Que esconde tudo quanto convém. Um país de dissimulados.


Um país de gozo: a pretexto de impedir os excessos de zelo e aproveitamentos do movimento #metoo abafa qualquer tentativa de justiça.


Porquê escrever este post?, porquê a zanga com o país? Por saber que se tenho ínfima influência, devo usá-la para defender quem deve ser protegido. E não compactuar com jogos sórdidos que tantos conhecem e fazem de conta por ser mais fácil. É sempre mais fácil fechar os olhos até cada um ser atingido.


Claro que a reacção dos inteligentes a este post é apelidá-lo de boato, de alarido infundado, de boca inconsequente, num mundo cheio de problemas a sério (esta gente acha isto peanuts, cisma de maníacas ou deslumbradas em busca de protagonismo). Resta-me a consciência de saber que alguns dos que assim o expressam em voz alta, em pensamento dão-me razão, a tal que escondem por medo. Outros acham mesmo que vale a lei da selva e os abusos e assédios são totalmente normais e legítimos. A avaliar pelo comportamento dos portugueses face à ausência de denúncias de abuso e assédio, começo a acreditar que a maioria cai neste segundo grupo. 


Bom dia. Que a consciência vos seja leve.