Dias amenos de ânimo e de espírito envolvente. Com direito a pequena tempestade para espevitar e libertar o mofo da mesmice. Já não é nova a sensação de receio quando tudo é sereno: o entendimento doméstico leve e cordato e o trabalho encarreirado. Porém é muito provável que tudo se desfaça em dois meses e a vida fique de pernas para o ar. Resta a dúvida se esta será a paz podre ou a acalmia antes da verdadeira tempestade.
Pelo mundo há muito quem tema os dias vindouros, preocupado com os radicais. Os ansiosos são os mesmos que não vêem radicalismo na lei da rolha imposta pela força do pensamento dominante na esfera internacional dos meios de comunicação e informação de massas. Cada vez mais mostram só o lado absurdo e abjecto do adversário e o lado "fofinho" do correligionário vendedor de ilusões. Cada vez mais espartilham qualquer desvio ou laivo de pensamento divergente. Regozijam com as vitórias diárias de uma democracia fictícia, tão má quanto o autoritarismo declarado. Um absolutismo dissimulado e disseminado pelo mundo, de cores atraentes, fácil adesão e tão insensato. Sempre cheio de jornalistas e humoristas com agenda evangelizadora. Tão enganador. Há uma dúzia de anos festejavam vitórias da liberdade em zonas do mundo fustigadas nos anos seguintes com a guerra e a miséria. Não querem saber das consequências senão do apregoar dos valores civilizacionais, ainda que na aparência e à custa da morte e tragédia de populações inteiras - ainda que essas defesas insensatas e irreflectidas causem centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados. Vale a retórica soando a mão a bater no peito pelos direitos fundamentais – ufana de si mesma, ainda que precipite no mundo do horror quem diz defender. Retórica desgraçadamente cega ao juízo e ao real cuidado com a vida humana. É fácil defender o mundo da liberdade sentado no sofá a ler no jornal as vidas irremediavelmente desfeitas e a depenicar frutos secos, apesar de mais caros. Nos sofás do Ocidente é fácil defender os valores civilizacionais e esperar que as populações afectadas dêem provas de heroicidade que entretenham e comovam o público a devorar jornais e telejornais com o mesmo espírito e seriedade com que assiste a séries de ficção. Os heróis do terreno e todo o cenário de guerra e violência passam - animados como bonecos dos vídeo-jogos que absorvem os dias dos jovens do mundo rico -, a personagens e imagens dos jornais consumidos diariamente em horário nobre pelos indignados momentâneos até uma qualquer questão comezinha repôr a ordem natural das prioridades.
Tudo quanto acabei de escrever é falso, diz a dominância intelectual: perigoso e legitimador do inimigo; revela falta de noção da realidade e da necessidade de enfrentar os inimigos da democracia. O pensamento preponderante está agarrado e orgulhoso de ter aprendido a lição histórica do fascismo e comunismo na Europa no século XX. Como se a reacção sensata actual devesse ser stencil do então vivido - como se reduzisse tudo a hipóteses pré-existentes e sempre servisse a receita mágica da demagogia, agora também nas mãos dos paladinos dos valores democráticos, como antes na mão dos defensores dos regimes totalitários. Uma lábia dominante desejosa de voltar a sentir momentos de empolgada heroicidade, mas desta feita não à custa dos seus ossos, carne e neurónios, mas como mera espectadora de realidade virtual.
Nota. Mais uma vez, uma entrada ou parágrafo inicial desfasados do assunto principal do post e que não seja chamariz de excitadinhos é sempre aconselhável. Os que têm verdadeiro interesse no que os outros dizem não se deixam ludibriar por engodos.