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27/11/2022

Pé ante pé

Começou como é costume ao fim-de-semana: sentada na beira da cama frente à janela com a vidraça e cortinas abertas para tomar conta do movimento do gato - gosto de frio na tromba. São os primeiros minutos em que hesitante fica com o corpo quase todo dentro do quarto e a cabeça de fora, só me apercebendo daquelas narinas pequeninas graciosas e bem afinadas a dilatar e retrair para tomar sentido aos cheiros da varanda. Depois os repentes de cabeça e o perseguir de olho - só vê de um - o vôo dos pássaros, e são esses entusiasmos que fazem com que tome conta dele, não vá pular em mergulho no seu encalço. Lá sai e pata ante pata, fareja as plantas dos vasos uma a uma e come sempre as folhas da mesma: a Alegria. Tenho de ir ao horto buscar a erva própria para gatos, cujo nome desconheço. Mas adio sempre. Segue-se a voltinha à japoneira e o ensaio de salto para o peitoril que faz com que rápida lhe dê instruções de regressar ao quarto. Até agora tem-me obedecido, pronto para a primeira refeição. Falta-lhe liberdade, bem sei. Mas é como é. Dou-lhe de comer duas vezes ao dia: de manhã cedo e à hora do jantar.


Pequeno-almoço e outras actividades matinais feitos, e eis que preparando-me para sair, descubro haver perdido o passe dos transportes. Raios partam a vida, penso enquanto vejo na aplicação da STCP os horários dos autocarros. Percebo que o 303, directo para a Baixa, ainda demora muito, pelo que teria que apanhar o 402 e mudar na Boavista. Contas feitas, duas viagens ficam ela por ela com o preço da Uber. Escolho por isso ir de Uber até à Trindade. Em conversa com o motorista fico a saber que os donos do restaurante do qual mais encomendas faço através da UberEats são um casal de professores, vizinhos dele, que também explorou um restaurante e discoteca na mesma rua até a pandemia dar cabo do negócio – o Porto é uma aldeia e eu adoro a sensação. Comida caseirinha e não é cara, diz-me ele, e eu confirmo: sim, senhor. Chegada ao destino, em pouco menos de meia-hora na Loja Andante – 20 minutos de espera, o resto a ser atendida, uma simpática menina de unhas pretas - a moda nos últimos dez anos que nunca deixa de me lembrar A Família Adams, - faz novo passe, e como está associado ao cartão do cidadão recupero as viagens até ao final do mês. Menos mal. Carrego de viagens até 31 de Dezembro. Este ano não precisarei de pensar mais no assunto.


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Sigo em direcção à primeira loja. O pretexto para a ida à Baixa – não concebo passar uma época de Natal sem lá ir – são os presentes masculinos seniores. Aconselhada por uma colega de trabalho vou para a Rua do Bonjardim na zona, disse-me ela cheia de pudores, na zona daquelas mulheres. Referia-se às prostitutas que sempre ali pontuaram. Percebo na montra da loja que tudo quanto vendem é caro. Ao contrário, presumo, das profissionais do sexo que pelas indumentárias denunciam, imagino eu, preços módicos. O aspecto de loja é antigo e caro: só boas marcas. Lá consigo satisfazer a minha vontade de arranjar uma lâmina de barbear com suporte e à moda antiga para o meu sogro. A antiguidade do produto é proporcional à lentidão do dono da loja. Todo o ritmo ali é doutro tempo. Muito, muito vagaroso. Desta vez não me aflige, até por me dar tempo de brincar com o sistema de abertura das cabeças de metal que resguardam a lâmina: lá fico a pegar na haste e a rodar a ponta, abrindo e fechando as abas da cabeça. Desde criança não via lâminas amovíveis – as do meu avô. À saída mais a baixo existia o restaurante Bicho Papão, disso me lembrei ontem, e dos almoços com colegas de trabalho do primeiro banco onde trabalhei, um pouco mais abaixo a chegar à Praça D. João I. Há meia-dúzia de anos, num Natal em Bessa Leite com os meus sogros, encomendei lá a ceia. Voltando ao final do século passado, entre os colegas de trabalho lembro especialmente a H., uma simpática e eficiente caxineira, que vinha para o Porto todos os dias no comboio da Póvoa de Varzim – dois anos mais tarde a linha viria a ser encerrada e convertida logo depois em metro. Cozinhavam bem no Bicho Papão, por isso lá íamos, mas a H. embirrava com a presença das prostitutas da zona nas mesas do restaurante. A mim nunca me fez  confusão tal companhia, mas serei um bicho estranho.


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Depois Sá da Bandeira, duas fotografias sem primor para registar duas casas comerciais muito do agrado dos meus pais e da minha avó materna: a Casa Hortícola e a Casa Chinesa.


 


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É então que entro pela primeira vez depois das obras no Bolhão. Com alegria. É verdade que está transformado num mercado com os tiques iguais a tantos outros pela Europa fora, com fruta e suminhos a serem consumidos no local, mais as moderníssimas provas de azeite e vinho e essas tretas todas, mas está com vida. É o que importa. E ontem, Sábado à hora de almoço, ainda que se vissem muitos estrangeiros, predominavam portugueses, apesar de muitos deles já estarem imbuídos do espírito de turista mesmo dentro de portas. Trouxe seis clementinas com folhagem (os olhos comem) e duas romãs. Da vendedora adoentada nem meus amores nem minhas queridas, também ela se europeizou.


 


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E lá fomos para Santa Catarina. Mais uma fotografia à Livraria Latina. Na loja de marroquinaria Cavalinho - na qual me nego a tirar fotografia já que os dourados e todo o mau gosto da decoração assusta, apesar na belíssima qualidade dos produtos, que por vezes conseguem ser discretos, tal como são bonitos os embrulhos - comprei um cinto para o meu pai. Cliente única na loja apesar da rua estar pejada de gente. Antes de abandonarmos o périplo de compras de Natal, fomos tomar dois cafés com dois pastéis de nata e um copo de água. No Bolhão apanhamos o metro para meu degradado, que odeio andar nele, ainda que o do Porto seja sobretudo à superfície. Descer escadas para me enfiar debaixo de terra é uma coisa que sempre me desagradou. Seguiu à pinha, com um grupo de pequenos escuteiros, que eram bem engraçadinhos e não têm culpa nenhuma das minhas fobias.


 


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Em vez de sair no Carolina Michaelis, saí na Casa da Música para ir ao Boémia Café, na esquina da Avenida de França, em busca do Arroz de Cabidela - um dos pratos da casa aos Sábados. Trouxe uma dose para o almoço tardio – dá para dois à vontade.


De tarde tratei de confirmar os lugares para o festejo do próximo fim-de-semana e estive na treta com os meus pais e o Nuno.


Foi assim. Agora já posso ir nadar.