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19/11/2022

Diário de reflexão

Uma vez que esta semana fiz gazeta às leituras - bem, nem sei bem se li ou o que li, ando a navegar na maionese, é possível que até tenha acrescentado mais alguma às 14 e 5 dioptrias adquiridas por ler tão pouco -, não há matéria para o tal postal sobre História de Portugal. Nem sei se o faça, mas hoje ou amanhã continuarei a debruçar-me sobre o que havia começado a ler há umas semanas. Logo verei se me inspira. Enquanto a dita veia não vem, invento pretextos. Este início de tarde, deparando-me com o desarrumo do +1, o compartimento de quatro metros e meio que acolhe os meus livros - e de maneira nenhuma compete com os vastos metros cúbicos de livros dos iluminados -, papéis, computador e toda uma catrefada de coisas que não era suposto, como a mochila da natação à qual não posso faltar amanhã de manhã por preguiça, decidi que o devo arrumar. Sobretudo os papéis relativos às burocracias, uma vez que há um acumulado de meses por organizar e arquivar. Não é a primeira nem segunda ocasião que refiro nas Comezinhas estas arrumações. Não percam tempo: sensaborias. Nada de palpitante se passa aqui. Nada que dê freniquoques. Sempre o mesmo rame-rame entediante na perspectiva de quem procura emoções fortes e oportunidade para se empolgar ou tomar partido nas séries televisivas, numa controversa sobre futebol ou alguma personalidade ou numa troca de palavras acesa sobre os mil e um temas quentes da actualidade. A vida moderna faz-se à semelhança do Jogo da Amiga Olga do início dos anos 90: o dinheiro, o dinheiro... a chave, a chave, gritava o público comprado para o efeito sonoro grupal. Tal como agora. A berraria corre cada vez mais alucinada: o Bolsonaro, o burro do Bolsonaro... o Lula, o ladrão do Lula; os direitos humanos, os direitos humanos... a selecção, a selecção e o Cristiano Ronaldo;  (gritado do conforto do sofá) a Ucrânia, a Ucrânia e o Zelensky...o Putin, o Putin; a família, a família e a religião... a diversidade, a diversidade sexual e as ganzas; os fascistas, os assassinos fascistas...os comunistas, os pérfidos comunistas; as alterações climáticas, os excitados das alterações climáticas... os capitalistas, os medonhos capitalistas; o Marcelo, o incontinente verbal Marcelo... o Costa, o Costa, o malabarista dos casos.


Por falar em casos, já repararam que desde que a comunicação social e os programas de humor passaram a condicionar em absoluto a forma como se está autorizado a pensar em voz alta e como se vota, a alternância política e consequente alteração de governos ou presidências se faz ou impede através do remoer acumulado de casos e casinhos? Sempre assim foi, dirão. Eh pah (não digo isto, não sei que me deu), não sou assim tão velha e sou do tempo que se liam e discutiam programas de governo, em parte ao menos. E havia alguma troca de ideias, para lá do chinfrim da comunicação social e da zoeira reactiva àquela nas redes sociais. Mas isso é coisa do passado, os iluminados determinaram que gente sem perfil caceteiro maniqueísta não tem pedigree para a excitante vida política actual. Isso já lá vai: tempo em que não havia tantos inteligentes a perorar convencidos da sua imensa intelectualidade muito lida, muito certa, muito democraticamente debatida, muito densamente analisada e escalpelizada, a questionar e esquadrinhar tudo e todos, e quando digo tudo e todos, é rigorosamente tudo e todos, sem respeito pelos diferentes graus de verdade e dignidade de cada pessoa ou cada caso a cada momento, não permitindo que subsista um mínimo intocado a bem da sanidade do mundo, da sobrevivência do planeta. A igualdade politicamente correcta determina que o velhaco e o santo tenham a mesma probabilidade de cair de modo aleatório na rede tenebrosa de enaltecimento ou chacina pela opinião pública global. Referências mil atropelam-se e contradizem-se mutuamente. Sobre personalidades várias, casos, datas, lugares. E há a veleidade de achar que a verdade de tudo é verificável num instante pelos novos juízes dos tempos modernos: jornalistas, comentadores, humoristas, vedetas várias do entretenimento e da cultura e todos os que têm voz nos meios tecnológicos de amplificação da informação e comunicação. Os tribunais perderam peso e dignidade. Pouco importam. Na maioria dos casos não chegam a intervir, em muitos outros estão condicionados pelo julgamento prévio feito pelos juízes que contam. Os que usam imagens e declarações cortadas, editadas para propagar a verdade dominante. Farto-me de rir. É de se lhe tirar o chapéu, tamanho génio. É impossível resistir, então os programas da especialidade - os humorísticos - têm mesmo graça e são inteligentes, sem dúvida. Pena que trabalho tão brilhante e divertido venha a ter como maior efeito a longo prazo pôr todos a chorar. E já repararam como para lá do pensamento autorizado existe um magote de gente cada vez mais zangada, em muitos casos, com razão? Ando a dizer isto há anos, mas é chover no molhado. As elites da televisão, as vedetas do entretenimento e dos jornais e do mundo online privilegiado adoram o programa da Amiga Olga. O pique troglodita dá-lhes imenso ser, audiência e prestígio, na qualidade de educadores do povo. Será que isto é permitido dizer, ou equivale a ser condenada a conveniente distanciamento social, não vá contaminar tão puras e boas intenções dominantes?


E se estas ideias se espalhassem? Como é que os megafones venderiam as suas certezas. É um perigo poderem surgir por aí meia-dúzia de almas a pedir bom senso, a alertar para a alucinada correria para o abismo desta "consciencialização" (haverá palavra mais horrenda?) dos dogmas e mensagens de falsa tolerância. Seria um enorme risco pôr em causa aqueles que ora apontam o dedo aos excessos de violência nas manifestações, ora instigam o ódio através da prosápia. Ora criticam a ditadura da linguagem das bandeiras identitárias, ora tentam impôr a normalização reaccionária, acéfala e insípida da gramática e semântica. Ora bendizem e promovem os políticos da sua facção, ora fazem intriga partidária interna para descobrir ou dissimular os podres das personalidades do partido, através da chantagem. Ora se atiram às perigosas feministas, ora tentam exibir falsa e sofisticada maturidade emocional para disfarçar a cobardia e a incapacidade de sentir de quem jamais se resolveu. Ora pedem clareza nas afirmações e idoneidade dos adversários, ora se atiram a eles com argumentos infantilóides que me lembro de usar aos 14 anos. Juro que me faz confusão ler e ouvir homens e mulheres de 40, 50 e 60 anos a usar o mesmo tipo de argumentação pueril que me lembro de usar na adolescência, quando pouco vira e ouvira. Que raio andaram a fazer durante a vida, para não compreenderem nada do que é importante? Nos jornais televisivos não se consegue ver uma emissão sem deparar com uma sequência de reportagens com julgamentos de carácter em forma de sátira básica e, pontualmente, com música subliminar de fundo a provocar a emoção com se de uma sessão de cinema se tratasse. Na imprensa escrita lê-se uma menina disparar: aquelas cabras (a menina usa outra palavra porque é chic e escreve no jornal de direita, coqueluche do momento), que dizem defender boas causas, são incoerentes, não falam daquela desgraça muito desgraçada, daqueles coitadinhos, muito coitadinhos lá longe, que não me comovem peva e cujo destino me é indiferente, mas faço de conta que me importa muito para efeito de retórica argumentativa. Fecha-se o jornal de direita, abre-se o de esquerda e lê-se outra fedúncia que não escreve nem pensa, doutrina, e mal por sinal. E são estas que vendem. Ao lado destas, outras e outros mais pensados e reflectidos, tragicamente cada vez mais raros e sós, chovem no molhado. Mas os oráculos da estratégia da comunicação continuam a dizer que é uma questão de adaptação aos novos tempos e a apostar nesta gente afirmativa, pronta a usar argumentação sentenciosa, agressiva e estúpida. O que conta é o ar de convicção. E assim vai a nação e o mundo, governado nos bastidores por inteligentes.


Inteligentes cada vez a criar mais lastro na população para clamar pelos burros. Farão de propósito? Será estratégia? Sei lá, como se faz com as crianças, educando-as pela negativa, levando-as a cometer erros para que com eles aprendam? Ou de tão ofuscados pela sua aparente inteligência não compreendem mesmo? A avaliar por alguns espécimes que fui acompanhando com mais atenção, inclino-me para a segunda hipótese.