O que me levou a escrever no passado dia 5 o texto seguinte não chegou a ficar expresso - coisa que acontece muito a quem está habituada a entrelaçar assuntos e se emaranha. Não adianta, está no sangue. De qualquer forma, se vier a conseguir explicar o que pensei inicialmente e a ligação com o que acabei por dizer, continuarei este postal.
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Há 21 anos acompanhei o primeiro Big Brother. Fiquei-me pelo primeiro, mas nem por isso acho que perdi tempo. À época, apesar de ter 26 anos, ainda não tinha lido o 1984 - o tal que alguns sabichões das gerações posteriores desdenham por considerarem um cliché excitado dos mais velhos.
Nos últimos anos quando ofereço pela primeira vez um livro a um pré-adolescente (ainda se usará este termo de que tanto zombei de modo tonto?) escolho A História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar - conto de Sepúlveda, que o Nuno me fanou há 20 anos e se perdeu. Quando se trata de um adolescente mais velho dou o 1984 ou o Admirável Mundo Novo. Mais previsível seria impossível.
São escolhas óbvias. Nada reveladoras de especial talento para a exibição de saber livresco ou fora dos circuitos do comezinho. Tudo quanto desejo é que os presenteados sintam a nobreza de sentimentos, se acautelem face a ímpetos autoritários. E percebam o valor da liberdade, tão desbaratado nas últimas décadas por lugares-comuns e mentiras aceites de ânimo leve.
Como já aqui revelei fui muito marcada na adolescência pela poesia de Fernando Pessoa (como se me encontrasse) e impressionada pela pincelada de Van Gogh. Não se poderiam ter democratizado mais. Tal não produziu em mim o efeito de abandono por excesso de companhia no gosto, como vejo ser comum em certos meios, onde se luta afincadamente pela tentativa de demarcação do rebotalho - uma espécie de ânsia de exclusividade no gosto. Colocar a literatura ou a arte no patamar do serviço premium é um insulto aos autores, aos pintores - à arte.
Nenhum daqueles livros é o livro da minha vida, mas dou-os por serem preciosos.
Esta espécie de vaidade na singularidade das escolhas e apetite pelo suposto exclusivo, conduz ao desencontro com um sentimento cada vez mais desprezado e tido por coisa pouco inteligente: o gosto pela essência, pelo mais simples. O desdém pelas pessoas e objectos desprovidos de artifício ou boa imagem é uma realidade do nosso tempo e engole, em regra, a dita classe média e os privilegiados. Salvo raras excepções a singeleza e espontaneidade são tidas por burrice e, nalguns casos, por falsidade - ser como se é parece uma veleidade (construída) de quem quer tirar partido da credulidade alheia. A coisa é de tal modo medonha que o grosso dos que vivem da imagem e do artifício não só não prezam a verdade na sua vida com a proíbem aos outros, imaginando que todos vivem, como eles próprios, de aparências.
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Abreviando a tal explicação: o que escrevi é pouco mais do que uma resposta aos mui sofisticados que reagiram à vitória do Zé Maria nos anos seguintes com comentários deste tipo: os portugueses são mesmo mesquinhos e falsos, gostam do simplório e da conversa do coitadinho. Um falso é o que é.
Este tipo de avalição rasca, sim: define o pior dos portugueses que singram. Muito mais do que a simplicidade do Zé Maria. Por muito que se ponham em bicos de pés, quanto mais se esticam mais revelam a sua pequenez.
Sei que entretanto houve uma série de outros "Big Brothers". Não tomei conhecimento.