Criar um todo sem consciência do que seja o todo. Começar pela ponta da meada, sem consciência do que seja a ponta. Seguir sempre aos tropeços na eterna dúvida entre dias alegres, leves e conseguidos e momentos de tormento, desânimo, descrença. Levantar, levantar sempre e de cada vez. Arrumar a trouxa das ideias e sentimentos idos e refazê-los à luz do dia presente, à luz da eternidade. Tentar perceber o que se pode aproveitar entre tanta sujeira humana, tentar perceber as razões, as causas das coisas, dos sentimentos e ressentimentos, próprios e alheios, de conhecidos e desconhecidos. Tentar perceber o que faz mover a humanidade, o motor do avião que passa agora, a água da fonte que entretanto secou, da levada que já não é. Tentar compreender a causa e necessidade de desdém por trabalhos ditos menores, com o da construção e do serviço doméstico, tentar compreender se posso desprender o elemento matéria do elemento tempo, tentar compreender se é de temer a ausência de continuidade na matéria, se o fim da matéria coincide com o fim do tempo e onde fica o espaço nisto tudo. Tentar compreender que a extinção do Sol é só o fim de uma parcela ínfima do Universo, como a extinção de 100 postos de trabalho. Tentar entender como se continua a falar em criar postos de trabalho quando se quer dizer criar rendimento, tentar entender porque se subalterniza o trabalho. Levantar, arrumar a trouxa e seguir caminho, fazendo de conta que não se dá por tudo. Fingir não dar pelos homens-perfeitos e mulheres-perfeitas e na alegria com que prescindem da humanidade. Imaculados por não precisarem de dar trabalho não só para viver como para determinar o destino do mundo. Imaculados por não precisarem de se dar ao trabalho. Fingir não reparar nos ideólogos da vacuidade. Estudiosos do nada e do caminho para o nada, agarrados a paixões por tudo quanto não lhes lembre a humanidade, seja árvore, rocha, livro ou pastel de nata, estilismo, ficção científica, mar, futebol, música. Nada contra - pelo contrário, nada mais útil na vida do que ter interesses próprios -, não fosse perderem a noção de que isso não chega e que são responsáveis, tal como todos os homens e mulheres livres, responsáveis, ao menos em parte, pelo que pensam, sentem e agem.