Em novita passava muitas horas a arranjar o mundo mentalmente. Cada um tem os vícios que tem e habituada que fui a compor o mundo à mesa de jantar é natural que me mordesse o bicho dessa coisa da opinião – deve sempre ser de todos, sem excepção.
Cresci com uma ideia romantizada dos árabes, especialmente dos magrebinos, muito por via da minha avó materna que, como enfermeira na Guerra Civil Espanhola, se especializou nos cuidados a marroquinos, a quem ficou com amizade.
A suavidade com que eu olhava os árabes foi abalada quando em 1990 o Iraque invadiu o Kuwait e espoletou a Guerra no Golfo – não que não houvesse antes motivos de desconfiança, como os episódios do ataque em 1972, pelo grupo Setembro Negro ligado à OLP, aos atletas israelitas no Jogos Olímpicos de Munique, ou do assassinato, em 1983 no Algarve, por uma organização extremista palestina, de Issam Sartawi, um representante da OLP moderado e, por isso, favorável à abertura de diálogo com Israel. E, claro, a regressão do Irão.
O mundo árabe é extenso e de uma enorme complexidade, exige à cabeça perceber a diferença entre árabe – cuja definição geral se pode encontrar no povo que partilha cultura e língua comum (mas não se pode compreender sem atender à multiplicidade étnica e tribal), ou mais específica como habitante da península arábica - e muçulmano – aquele que professa a religião islâmica. É preciso muito estudo e leitura para se ter uma pequena noção do que estamos a falar, desde logo, da razão dos ódios e da disputa do poder – original, já que nasce com o próprio Islão, no século VII - entre xiitas e sunitas. O conflito com Israel exige conhecimento da história não só de há 2000 anos, como a dos alicerces da criação do moderno Estado de Israel, culminado em 1948 e das subsequentes guerras com os povos/Estados vizinhos. Mas para fazer um postal sobre esses temas terei que fazer mais leituras. Ficam, portanto, para outras núpcias.
Sucede que em novita como agora, vivendo em Democracia e sendo livre, tenho direito – como todos têm ou deveriam ter – de dizer o que me vai na alma, independentemente da desconsideração a que seja sujeita - como qualquer pessoa que não usa os pergaminhos formais nem os chavões habituais nesta matéria, nem pertence ou quer pertencer ao círculo viciado da opinião timbrada a selo branco por algum clube de amigos geniais. Alguns de facto muito estudiosos, mas quase sempre desfasados da realidade, vaidosos e incapazes de ouvir a voz da razão se esta não estiver embrulhada em convenções fúteis.
Porquê o último parágrafo? Porquê não me limitar ao tema e dar sempre estas alfinetadas, supostamente, escusadas? Por ser preciso sentir para saber. Caso contrário, brotam apenas floreados. E a razão ficará sempre aquém. É o castigo pela pretensão. Tenho perfeita noção que nesta como noutras matérias pareço um disco riscado.
Vai daí, volto ao início e conto que em nova e reportando-me à imagem de aviões que deixam cair panfletos - coisa que nunca percebi se assisti em criança muito pequena (tenho uma vaga ideia de estar pendurada no portão da casa dos meus avós nas Antas entusiasmada com a ideia de apanhar papéis que caíam do céu - talvez meramente publicitários) ou se me contaram (talvez tenha feito uma associação tardia pelo conhecimento do episódio de Henrique Galvão e Palma Inácio, não sei) – idealizava aviões bombardeiros americanos a deixarem cair não bombas mas revistas Playboy sobre os territórios dominados por extremistas islâmicos. Digamos que face à selvajaria achava que seria de educá-los em matérias nas quais visivelmente precisam instrução. Mais tarde elaborei um pouco mais, e imaginei que talvez fosse necessário enviar uns milhares de coelhinhas voluntárias devidamente equipadas. Seria uma missão heróica. Deveriam ser condecoradas com as mais altas honras militares uma vez terminada a operação. Porque essa, sim: seria uma guerra justa.