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13/09/2021

Diário

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Sinto a mudança de estação na luz e na begónia da cozinha – hoje ao fim do dia vou mudá-la para um vaso maior. Na Primavera vai sobrevivendo, no Verão quase murcha de todo, arrebitando no Outono para ficar fulgurante no Inverno. Gosto de begónias. Se bem que tenho que ir corrigir lá atrás, na primeira referência que lhes fiz a propósito das cumplicidades com a avó ao contar os novos botões de flores. Naquele momento, queria referir-me ao cíclame (serão da mesma família?, tenho de estudar). Dizem que a begónia é uma planta com personalidade. Julgo que tem telha, pelo que veio para a casa certa.


 


 


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Ontem nos Jardins do Palácio ouvi (deixei-me ficar a curta distância fazendo de conta que procurava outro livro) uma interessante conversa sobre a História de Angola, de Carlos Mariano Manuel. Fiquei com a ideia de que deveria ler para satisfazer curiosidades. Pena que olhando de relance me tenha parecido calhamaço para várias centenas de páginas. Ponderei e cheguei à conclusão que não ia fazer de conta que o leria. Talvez na reforma (céus, ainda faltam 20 anos - quando penso nisto dou por mim: não sou tão velha quanto isso). Também não trouxe a Volta ao Mundo, de Ferreira de Castro, apesar de a ter encontrado em três volumes. Gostava da edição especial de volume único, mas fico na dúvida por não ter o hábito de me sentar a uma mesa de apoio para as leituras. Ficou conversada sem compromisso (para Dezembro, pensei eu).


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À saída, voltando às estações, reparei pela primeira vez (às tantas já não é a primeira, mas com esta memória de peixe gozo da felicidade de fazer descobertas todos os dias) na estatuária do jardim de entrada, junto ao portão principal, estão representadas as Quatro Estações – as fotografias deste postal. Há dez anos procurei demoradamente no Custo Justo um conjunto das Quatro Estações que não fossem as muito pirosas figurativas e espelhadas - peço desculpa a quem achar bonito ou por alguma razão lhes tenha afeição. Numa investida no site de vendas em segunda mão vi um conjunto de quatro pequenas gravuras representando em bonitas paisagens as estações do ano. Mas perdi-o de vista. Tal como as andorinhas à entrada de casa, as Quatro Estações são típicas das casas portuguesas no século XX. Fui educada e cresci a considerar coisas pirosas ao nível do Menino da Lágrima ou da Última Ceia na sala de jantar. Mas o certo é que se algum dia vier a ter uma casa com pequeno jardim, não vou prescindir das portuguesas andorinhas (só tenho dúvida se penduro três ou sete) nem das Quatro Estações. Uma sábia e solteira tia-bisavó, a quem chamávamos avó (lembro de me perguntarem na escola primária: mas afinal quantas avós tem?, de facto, além desta tia-bisavó e das duas avós verdadeiras, ainda tinha a bisavó do Brasil e a Eca, que valia por várias avós) dizia à sobrinha e amiga: é uma maçada isto de não podermos ser pirosas, gosto tanto de algumas piroseiras.


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Por fim, a referência à idade. Há uns meses dei por mim neste pensamento:  caramba, há catorze anos tinha 33. Era tão nova e sentia-me esgotada, no fim da linha. Só agora tomei consciência de que fui nova até há pouco tempo. Mais, aquela ideia que sempre tive de mim mesma, de ser uma pasmada. De nada acontecer, nada se passar, nada conseguir. Bolas, é tão falsa. Aos 33 anos estava exausta. Quebrei. E recomecei uma segunda etapa. Podia ficar com peso de consciência por não ter feito o que devia enquanto era nova – por ser preguiçosa ou derrotista – mas o facto é que não sinto hoje esse peso que se diz ser próprio da meia idade – bom, às vezes, há uns afloramentos em forma de tristeza. Olhando para trás sinto que vivi muito - não só por mim, como através dos meus -, apesar de não ter construído uma vida padrão.