Durante toda a meninice – do liceu à faculdade – apesar da falta de jeito para o desenho, tentava esboçar dois temas. Recordo agora que eram três os motivos: um pássaro no ninho, composições com triângulos e outras figuras geométricas e flores. Lembro de que qualquer pretexto era bom para riscar triângulos cujas faces e vértices se multiplicavam (ao infinito). Sempre mal amanhados. O pardal no ninho ainda mais imperfeito. E as mais remotas, aprendidas em criança, eram flores – peguei agora num papel para ver se ainda me lembrava – feitas, creio, de sete círculos: o olho central e seis pétalas redondas. Às vezes, variava e fazia as pétalas em forma de chama, mas aí a falta de jeito era de tal modo que tinha que ir rodando o papel. E claro não faltava a haste com um folha verde, riscada ao meio e com veios. E isso remete-me à escola primária a aos cadernos onde desenhava péssimas figuras humanas, com a particularidade de terem costas e rabo no verso na folha - comigo as coisas tinham que se perceber bem, não havia cá partes que não se viam.
Um dia vou pegar em lápis e ver se continuo a não saber desenhar.
Veio isto a propósito dos desenhos das capas dos livros de ontem. A propósito de mosaicos árabes. E da memória de que para os muçulmanos a geometria é uma forma de revelação de Deus, dada a impossibilidade de representá-Lo de modo figurativo – não vou entrar aqui na questão de saber se o Alcorão proíbe ou não. Aliás, a representação humana e animal também não é benquista.
Porquê escrever estas coisas? Por me ocorrerem e acreditar que todos nós temos recordações como estas e vidas mais cheias e ricas do que pensamos.