Acordei com o restolho e adivinhei: o Ritz está outra vez em cima da cómoda. Desde que guardei duas ou três miudezas, entretém-se a atirar o frasco mais pequeno de perfume ao chão para brincar com ele e a tampa. Tem dias assim, há meses: levanto-me, ralho e acordo depois. A sorte é que atira os resistentes de spray, quando começar a atacar os de rolha, estou tramada. Quando me imaginaria assim: permissiva? É um terrorista porque permito, atiço-o para a brincadeira desde pequenino, como fazia aos cães (mais do que com os gatos) em criança. Está habituado a saltar-nos para as pernas e para a colo, ao mimo e a brincar: prendo as patas, faço cócegas. Vira-se ao contrário quando passámos a pedir pândega. Chama-nos com a patinha para pedir o que quer. Dá beijinhos de gato. Doce terrorista. Os perfumes estão lá nem sei bem porquê: foram-me dados ao longo dos anos, sendo que os uso quando o rei faz anos (há quanto tempo não usava esta). Julgo que o meu sentido mais apurado é infelizmente o olfacto. Se pudesse escolher pedia ao destino que me diminuísse a acuidade olfactiva e beneficiasse um pouco a visão. Às vezes – muitas vezes - dá a sensação que tenho uma lupa nas narinas, um microscópio. O cheiro a perfume na maioria das vezes incomoda-me, a menos que seja muito leve. Em regra, parece-me elevado a uma potência exacerbada, devo ter faro de cão. Entra-me no cérebro e baralha os fusíveis. Então, as fragrâncias orientais e adocicadas, matam-me. Mesmo os florais, tolero mal. Inclino-me para os cítricos, mas a preferência é mesmo: nada. Adoro sentir simples cheiro a sabonete ou gel de banho e champô - há muitos anos uso um banalíssimo de limão. Pelo que os frascos de perfume servem pouco mais do que bibelôs. Foi sempre árduo trabalhar muito próximo de várias pessoas juntas: não é maldade e recuso sempre aquelas conversas típicas de má-língua de que colega x ou y cheira mal. O certo é que todos temos o nosso cheiro e dias melhores do que outros. Mas levar com pessoas muito próximas com odor forte seja de que natureza for é horrível. Passar pela experiência de trabalhar entre uma pessoa que não gosta de banho e outra muito cuidada e que gosta de despejar o frasco de perfume em cima será de fugir.
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Mas nem só de tristezas é feito o bom olfacto. Durante anos fui almoçar diariamente a casa da minha mãe e gostávamos de brincar com o facto de assim que abria a porta do apartamento adivinhar o repasto. Ficava admirada com a minha pontaria. Se me desse para cozinhar também teria vantagens, já que sou daquele tipo de pessoa que não precisa de provar para saber se o arroz está insosso ou bom: basta cheirar. Ultimamente cozinho muito pouco. Se é que alguma vez cozinhei muito ou sequer regularmente. Já o cheiro a leite quente, então se for adoçado, ainda hoje me enjoa – desde criança.
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As fragrâncias transportam-me para espaços físicos e imagens passados. Sinto cheiros que me levam a antigos recantos de casas, caminhos, móveis, sofás, roupa, almofadas, secretárias, pessoas, brinquedos, livros, canetas, lápis - há serrim no odor a lápis a ser afiado -, borrachas, escolas, cafés, aviões, praias, mar, areia, quarto, cama, estradas, malas, erva, relva, árvores e arbustos. Todos eles contam a história e razão de ser daquele cheiro - causa das coisas, natureza. O odor faz-nos associar pessoas ou situações a outros momentos ou espaços. A vida olfactiva dava um tratado – quantos não existirão?, mas não quero ler. Prefiro tentar chamar às minhas narinas o cheiro a terra e húmus molhados – dizemos por simplicidade terra molhada, mas quando é rico, é também húmus. Não tem a leveza de um verso a enaltecer a terra molhada - abstraído do que é. Pesa nas narinas. Impressiona, é denso. Cheira a carne e seiva das plantas, a carne e sangue dos animais. Leve e terno é o cheiro da cabeça de um bebé ou criança pequena bem cuidada. Ou, em rigor, não. Leve não é. Terno sim, fragrância da tenra polpa humana, o indecifrável começo da humanidade. Leve é o cheiro à brisa marítima caso estejamos longe do mar. Aberta e vibrante é a fragrância de eucaliptos depois de uma chuvada, a abafar a das resinas dos pinheiros. Amor é sopro forte no peito e tremor de corpo inteiro que fervilha, húmido instante e instinto, cheiro a segredo cúmplice de dois. E continuaria uma vida se não tivesse que voltar a tomar sentido no trabalho - registo a expressão usada pelas gentes de antigamente. Aliás, a esta hora terei sim de almoçar.