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18/09/2021

O país do cavalo à porta do prédio

Em miúda junto à Escola Industrial de Gaia havia – julgo que ainda há – um bairro social ocupado parcialmente por ciganos. Recordo sempre dos cavalos perto das portas de entrada dos prédios.


É muito difícil largar hábitos enraizados, modos de vida com séculos de história, para aderir à moderna vida citadina.


Vem isto a propósito do paradoxo das críticas avulso à incompetência e falta de seriedade das entidades públicas, dos governantes e de todos quantos administram a coisa pública, seguidas de absoluta inconsequência quando se desce ao concreto e se desculpabiliza sistematicamente os erros, ao mesmo tempo que se despreza os que denunciam genérica ou particularmente incompetências ou comportamentos incivis dos concidadãos.


Como condenar a corrupção se parte dos portugueses vive e convive de aparências e da pequena corrupção? A fugir aos impostos, a enganar seguradoras, a pagar luvas, a furar filas etc.


No fundo, grande parte dos portugueses – incluindo aqueles que vivem da trapaça, a reivindicar benesses e na pedinchice – não gostam de ser confrontados com a verdade. Sentem-se melindrados – é deles que se fala.


Se o carro está em cima da linha amarela à porta do supermercado precisamente no local de uma paragem de autocarro, temos de ser compreensivos porque são só cinco minutos, ou porque está a chover ou na viatura segue uma pessoa com deficiência, ainda que trinta metros adiante haja uma entrada para o parque coberto gratuito às moscas, inclusive nos lugares para deficientes.


Muitos portugueses que balem slogans das bandeirinhas identitárias e reproduzem inanidades conflituosas (instigadas pelas televisões) contra a falta de educação dos seus conterrâneos nas conversas familiares, com colegas de trabalho ou amigos, ignoram ostensivamente a existência de pessoas com notória deficiência pacificamente e em silêncio atrás de si, na fila a eles destinada.


Muitos portugueses instruídos seja no ensino público gratuito seja em colégios privados, bem vestidos e de mãos bem cuidadas assentes no volante, não só não resistem como têm o hábito – tal como os seus conterrâneos pouco letrados vestidos de fato-treino, leggins e unhas de gel – de se atirarem para outras faixas de rodagem nas estradas e auto-estradas, sem assinalar, atentar no perigo ou tão simplesmente no prejuízo para os outros que conduzem na via, obrigando-os a travagens ou desvios bruscos para evitar acidentes.


Muitos cidadãos cheios de moralidade e muito pios, que alegadamente dedicam parte da vida na ajuda ao próximo, são exímios em passar à frente em listas de espera, nomeadamente, para a vacinação contra a Covid-19. Tal como muitos cidadãos que costumam falar seja em decência seja em desigualdades, têm extrema predisposição para invocarem a excepcionalidade do seu caso no atendimento prioritário.


E por aí adiante. Às tantas devia deixar-me ficar a ver casas.