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09/09/2021

Dizia ele

Dizia ele que a amava. Entreolhava o horizonte ou seria a parede?, não fazia questão de embelezar as frases por dá cá aquela palha, na esperança de conseguir dar sentido aquelas palavras ocas que lhe eram dirigidas. Faltava raiva que a ajudasse a odiá-lo pelas canalhices. Sentia sobretudo cansaço pelas mentiras, jogos e absurdos. Palavras vãs. Sabia que lá atrás num ano remoto sentira amor e se dera ao ridículo por esse homem ainda mais imperfeito do que ela, nas circunstâncias patetas em que se perderam. Não tentava arranjar explicações para o desculpar, mas encontrar uma lógica para o sucedido. Seria ele esquizofrénico ou tão só um patife que se metera numa alhada e não sabendo como sair dela dignamente, assumindo o erro, enredara-se num interminável novelo de vácuo?


Há pouco tempo julgara ter posto uma pedra sobre o assunto, mas ele impediu-a com uma torrente de novas palavras. Lidas as que sabe serem dele, mas desconhecendo haver mais, deixa-se ficar prostrada. Farta. Como é possível que ele não entenda que nada do que diz tem a ver com amor? Um exercício literário. Um devaneio lírico onde ela não se reconhece nem um pouco. Está inscrita em palavras e circunstâncias que não são as dela. Ele simplesmente não a conhece nem quis alguma vez saber o que a alegrava ou doía. Ah, todos sofremos e não se foge da solidão. Ah, entre o que somos e imagem que fazem de nós vai uma enorme distância. Balelas. Há factos palpáveis. Escondeu-se para enganar e desvalorizou o que para si não tinha dignidade. Não teve pudor nenhum em mentir e desaparecer perpectuando a mentira - deixando-a ficar com um fantasma em mãos -, nem teve a menor preocupação em deixar uma palavra que fosse destinada a demonstrar o mínimo cuidado com quem sabia ter ferido. Vem agora, uma vida depois, falar dos predicados dela e do amor que sente.


Talvez ela lhe devesse contar como é a vida de quem apesar de todas as imperfeições diz a verdade e viveu muito tempo cercada de gente parecida com ele, gente distraída dos sentimentos alheios e useira e vezeira em espezinhar os que se dão sem cálculo. Talvez devesse falar numa vida de sonhos esboroados e lhe devesse agradecer, a ele e aos que com ela se cruzaram, o desprezo a que a votaram, feitos os devidos cálculos e balanços entre os benefícios e prejuízos próprios que norteiam a vida dos contabilistas das relações humanas.


Imagina que reste no espírito dele a ideia peregrina de que ela ficara agarrada a doçuras do passado. A única coisa que sobrou foi dúvida sobre o fantasma que, como é evidente, consumiria qualquer juízo. À distância parece uma coisa ardilosamente construída para destruir a saúde mental de qualquer alma. Ela não faz ideia se fora propositado ou não. Mas de uma coisa está certa: tudo o que de belo pudesse ter existido e de que não tem especial memória, fora aniquilado pela pulhice.


Passada uma vida, em retrospectiva, ela vê que voltou a saber o que era amar. E voltou a saber o que era não amar como antes de o conhecer. E por mais que tenha sido maltratada pela vida, não tem dúvida nenhuma que hoje ama. Antes sentisse com menos intensidade, para se poupar um pouco para a velhice.