Toca a tentar mais umas linhas irreflectidas. De chofre. Afinal ainda há dias, depois de escrever o último texto do género, pensei que devia tentar engrenar e conceber qualquer coisa - hesitei em escrever obra, história e algo, porém obra é pretensioso, na história cansam os enredos e algo é poucochinho. Mas lá terei de arranjar termo correcto para definir o que faço, sem ser redigir linhas ou textos. Diria pensamentos se não fosse pueril, diria crónicas se o catálogo me coubesse. Diário, talvez tudo se resuma a diário. Ou simples notas soltas. Cai-me melhor. Não é importante agora, já dediquei seis linhas à casualidade. Abramos outro caso a apreciação. Hum, qual? Não sei mesmo. Pensei na conversa com o M. de há uns dias, mas ia cair no meu criticismo de sempre, mais uma vez admitido em diálogo. Passo sempre estas fases em que compreendo o quão pouco acrescentam pessoas gananciosas que se têm em grande conta. O M., como de costume, referiu meia-dúzia de nomes de pessoas cuja opinião ouvia e lia e um tédio enorme apoderou-se de mim. Tudo é redondo e fútil. É uma sensação comum a muitos que se cansam dos excitados interesseiros que ocupam o espaço público. Progressivamente fui deixando de lhes prestar atenção. Ainda há um ou outro que me levam tempo precioso, mas também esses irão à vida, mais rápido do que imagino, presumo. Dou crédito inicial por mais reservas sinta, retiro o aproveitável e passo adiante que se faz tarde para perder tempo com malabaristas. Cansada de gente falsa, arrogante e pretensiosa que se toma por esclarecida, capaz de entender o mundo e a todo o momento através da opinião enviesada e viciada se limita a engrenar na disputa do poder pelo poder. Pelo jogo, pela diversão, pela vaidade. Alguns no meio de tudo isso fingem procurar a luz da simplicidade para descanso da consciência. É tão só isso, um refúgio. Jamais renegam ao mundo do interesse, do artifício, da hipocrisia. Dissimuladamente fazem de conta que apreciam a lado honesto da vida, todavia limitam-se a achá-lo fofinho e caricato. Um apontamento bucólico a cortar o tédio da paisagem. Gozam de eterno desdém pelo verdadeiro, que consideram fraqueza e menoridade. Tomam-no por ignorância. Podem ficar onde estão. Longe. Bem longe. A distância que nos separa será sempre abismal. Adiante. Venha mais um caso à apreciação deste colectivo de juízes que é cada um de nós. Ah, e tal e coisa, não devemos julgar os outros. Ah, a verdade é relativa. Ah, todos temos imperfeições. Ah, a pluralidade de opinião é fundamental. Quanto mais o afirmam, mais julgam dissimuladamente, mais tecem e manobram na sombra a teia dos interesses e privilégios próprios ou de poucos, fazendo passar este jogo sórdido por defesa da democracia. Na aparência da tolerância criam uma sociedade desdenhosa. Incentivam sub-repticiamente os ódios latentes na sociedade, as invejas, os ressentimentos. Escarafuncham-nos para provocar mais dor e fazerem-se notar por contraste, para realçar a sua suposta superioridade moral e intelectual. Na aparência da tolerância, acicatam a violência: fazem de conta que combatem o ódio apenas na busca de maiores audiências ou do voto supostamente moderado. É a arte da farsa. A vitória da esperteza e do oportunismo alçados a sofisticação e do argumento a valor supremo de tolerância. A imposição do respeito por espertos demagogos de retórica fácil que aproveitam a apatia e silêncio de muitos para cativar os excitáveis e sempre mais interventivos e barulhentos. A vitória da ruidosa maioria das controvérsias, das questiúnculas, das causas rentáveis, da manipulação e culto da indignação sobre a discrição do bom senso e da busca do melhor para todos. A vitória dos interesses de alguns em prejuízo do todo, nunca abdicando de interesses próprios em benefício do bem maior. Desde a base ao topo de pirâmide da sociedade disseminou-se a farsa da esperteza e do oportunismo. É a derrota da inteligência e da sensibilidade, sempre desdenhada e descartada por não vender nem inflamar.