Bem-me-quer, mal-me-quer, escrevo, não escrevo, o que escrevo? Foram três dias em casa e souberam pela vida. Habituar-me-ia rápido à reforma, ó se habituava, mas ainda faltam 18 anos. Devagarinho tenho relido o livro de Christiane Zschirnt. Já passei as resenhas da Bíblia, da Odisseia, da Divina Comédia, do Dom Quixote de La Mancha, da Peregrinação, e por fim do Fausto. Só me faltam 94 obras. Neste último a mundividência é de tal forma outra, que o cérebro estranhou, de tão avesso ao conjunto de referências e tão pouco habituado às tradições e lendas do centro e norte da Europa. De referir que não confundo ler livros com ler e reler recensões deles, não vão os maliciosos ficar já encantados com a oportunidade de achincalhar. Se não li 80% dos livros mencionados nesta obra, não quer dizer que não o venha a fazer, sendo certo que é muito provável que exclua alguns deles por me despertarem menor interesse e por o mundo estar cheio de páginas interessantes para devorar por vontade própria ou acaso, que são em muitas circunstâncias os melhores móbeis de leitura.
Os testes de personalidade através do impacto de imagens continuam a dizer muito. E só não começaram a dizer tudo e o seu contrário porque não fiz tantos assim, apenas cerca de meia dúzia. Fiquei a saber também que sou introvertida. Quem diria? Quanta surpresa. Mas por outro lado auto-confiante por ter escolhido determinado par de sapatos e de espírito muito curioso por ter visto primeiro o gato do que o guerreiro. Todo este umbigo parece insensato e fútil, mas representa mais os interesses, nesta segunda década do século XXI, do comum utilizador de conteúdos acessíveis pela tecnologia, do que enfadonhos e manipulados estudos históricos, sociológicos e psicológicos feitos por gente sem arcaboiço de consciência e por isso voluntariosa e desabituada a questionar o real valor dos conhecimentos que considera ter adquirido, mas fácil, atraente e com muita saída no mundo rotulado e vendido como rigoroso e respeitável. Daqui a umas dezenas de anos esses estudos estarão todos empilhados nas colunas da palha para alimentar carneirada, e sobrarão alguns milhares de testemunhos fiéis e falíveis como o das Comezinhas, ainda assim nunca maioritários nem audíveis no tempo presente. Graças a Deus. É o que nos dá a paz necessária a prosseguir sem sucumbir aos venenos do tempo. Seguir o rumo do comum mortal, caindo nas tentações reais e banais das redes de manipulação, mas nunca convencidos de sermos possuidores de especial competência e talento que nos eleve à casta dos sacrossantos iluminados – os tais que a cada época vivem na mó de cima e em função da ambição e da ganância, determinando pela retórica o rumo dos acontecimentos e dos factos a favor de interesses atávicos e mesquinhos.
Na sexta-feira fomos a pé à Prelada para desempenar as pernas e confirmar que um apartamento tentador fica num prédio a precisar de obras de recuperação na fachada e junto de uma urbanização económica. Possuir mais tempo dá-me sempre disponibilidade para pensar no que não devo. Pois se as obras de Santa Engrácia estão para breve, porque não deixar-me aqui a gozar viver num edifício valorizado às custas de evidente esforço financeiro dos condóminos? Afinal os defeitos desta casa são apenas a sala demasiado pequena e a falta de garagem. Quanto às obras em si é uma questão de semanas, disseram-me em Setembro, para mais tarde, em Dezembro, o repetirem. Agora é que é, reiteraram na semana passada. Só acredito quanto começar a ver os andaimes. Hoje à tarde fomos desempenar as pernas novamente, mas a casa da minha mãe. Aproveitamos e trouxemos resto de rosbife para o jantar que isto de viver a 35 minutos a pé da mãe tem notáveis vantagens.
Pronto, e agora vou-me dedicar meia hora ao Excel para depois me atirar às resenhas de A Comédia Humana, MobyDick e Ulisses (grande salganhada ler estes resumos de enfiada), encerrando assim as obras que segundo a autora alemã descrevem o mundo (e esta paragem pascal). Em princípio, só no próximo fim-de-semana me lançarei nos braços do (tópico) amor, já que para os dias da semana delineei actividades nocturnas inconfessáveis.