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14/04/2023

Diário

E passaram seis dias sem escrever. Incrível. Libertador. Admito que não deixei de entrar na Sapo para passar os olhos nalguns blogues, até colocando um favorito aqui ou acolá, mas foi sem esforço que não botei palpite em lado nenhum. Noto melhoras significativas trazidas pelo afastamento, desde logo a limpeza da expectativa. E, claro, mais tempo disponível.


Hoje escolhi ouvirmos E o resto é história: O melhor livro para compreender Portugal? É este. No programa Rui Ramos discorre sobre, segundo a sua opinião, o mais importante livro publicado no século XX acerca do nosso país: Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, do geógrafo Orlando Ribeiro. Ao ouvi-lo recuei a 1990 e aos estudos que fiz para me preparar para os exames de admissão às duas faculdades a que concorri, nos quais era patente a dicotomia entre a propensão mediterrânica versus atlântica de Portugal. Lembrei-me também das conversas que vou tendo com os motoristas da Uber. Sabido que os brasileiros são caminheiros por natureza, costumo perguntar o que conhecem do nosso país e vou verificando que a maioria tem o hábito de passear por Portugal continental e ilhas. Acabo sempre por recordar-lhes que apesar de sermos um país pequeno em termos físicos quando comparados com o Brasil, somos muitíssimo diferentes entre nós geográfica, climatérica, histórica e culturalmente. Tenho esta ideia muito presente desde criança, não me sendo nada estranhos quer os contrastes trazidos por exemplo pela islamização a sul e romanização a norte, como as diferenças políticas em determinados momentos históricos, como os dos anos 70, quando Portugal se revelou muito mais à direita a norte e à esquerda a sul. Tudo isto e muitas mais dissemelhanças nos aspectos da vida organizativa e quotidiana explanadas e desenvolvidas por Rui Ramos com referência ao tal livro de Orlando Ribeiro, que não li, mas deveria ler (não sei se vou fazer, mas vou comprar e tentar ler). Deixo apenas a ideia de Rui Ramos: Portugal é um país plural.


No mesmo podcast Rui Ramos volta a referir-se à China. Responde à questão: porque é que em 1945 a China ficou como um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, o órgão mais importante das Nações Unidas? Por três razões: era o país com mais habitantes, à época cerca de 500 milhões (só comparável então ao Império Britânico); dada a sua importância na Segunda Guerra Mundial, que para muitos historiadores começa com a Guerra Sino-Japonesa em 1937, a China dos nacionalistas (não comunista) de Chiang Kai-shek era um aliado dos Estados Unidos entre 1941 e 1945 e um dos fundadores naturais da ONU; com a entrada da China para o Conselho se Segurança os Estados Unidos evitavam que o mundo se continuasse a configurar nos termos do directório europeu que vingara até então.


Desculpem insistir, mas já devem ter percebido que o critério para ler, ver ou ouvir aqui nas Comezinhas não passa pela actualidade (dos últimos dias). Estou a escolher os programas de Rui Ramos por aquilo que me interessa e me parece importar mais agora (sem correspondência com os tempos das agências noticiosas e os vaipes das redes sociais). A fórmula certa para evitar o ruído e também, é certo, maior número de visitantes que correm atrás dos temas quentes. Assim este último programa que referi é de 24 de Novembro de 2022 e o que ouvi na semana passada de 19 de Maio de 2022. Ainda vamos muito a tempo – um dos problemas maiores dos dias de hoje, que corrompe qualquer tentativa de alguma seriedade, é correr atrás do tempo para conseguir vender, para obter mais clientes, mais visualizações, mais audiência.


Ora, que mais posso revelar? Depois de um dia difícil e intenso com direito a discussão, choro e toda a massa muscular extenuada pela explosão emocional, e uma vez já acalmada, ontem comecei a reler um livro especial: Livros – Tudo o Que é Preciso Ler, de Christiane Zschirnt. Sou uma batoteira. Não só leio poucos livros, como releio livros acerca de livros. Deve ser para dar o ar. Conto apenas que não apreciei o prefácio de Eduardo Lourenço, nem do prólogo de Dietrich Schwannitz e acrescento que se trata de um guia de leitura possível mediante escolha de um leque de categorias que vão do amor à política, dos modernos à utopia e cibermundo. Somos assim incitados a ler por temas, e foi em 2007 ou 2008 (sabem que falho sempre por 12 meses) que li a primeira vez esta lista cuidadosa e rigorosamente comentada de grandes obras literárias. Ao longo da vida terei lido cerca de 20% dos 100 livros aqui recomendados e outros tantos não listados dos autores aconselhados. Pode ser que depois desta releitura devore mais uns tantos.  Deixo-vos apenas o índice e a nota introdutória da autora, já que me parecem estímulo suficiente.


Mais? Desde que tenho o telemóvel novo, e dado interessar-me por astrologia e o algoritmo estar sempre em cima do acontecimento, sou brindada a todo o momento com “informação” dos astros sobre cada signo ou grupos de signos. Fiquei assim a saber, para o estranho caso de não me conhecer, que sagitário é daqueles signos que sempre ocupa o tempo livre com inúmeras tarefas, até ao ponto de se extenuar. Não estava escrito, mas deviam dizer também que é daqueles que mais saltita entre interesses, não aprofundando em muitos casos os vários tópicos sobre os quais se debruça. Também na página de abertura do Google do telemóvel deparo-me com frequentes testes de personalidade, daqueles que ela é definida pelo primeiro impacto que uma imagem tem sobre quem a vê. Através destes testes confirmo que valorizo muitíssimo os laços familiares (priorizando os interesses dos meus sobre os próprios), não valorizando tanto a ambição nem buscando o sucesso profissional ou a reputação como prioridade na vida. O que não é surpresa. Mas há outra característica que estranho um pouco. Ou melhor, era uma característica em que me revia em criança e em novinha, mas achei ter perdido por via dos embates dolorosos da vida. Diz a psicologia que sou tendencialmente calma e racional. Ainda sou? A ser verdade, seria uma lança em África, uma reconquista. Uma verdadeira vitória.


Caramba, hoje deixei as bruxarias para o fim. Estou a perder qualidades, não exibindo este gosto logo no primeiro parágrafo para afastar leitores presumidos e obtusos. A corromper-me assim, um dia ainda começo a debitar inanidades de “ciência” lifesyle mais macias para o senso comum da actualidade e por isso cada vez mais disseminadas, entrando na crença e no discurso de gente que se tem por muito conhecedora e até erudita.


Amanhã é Sábado de Aleluia e uma vez mais pedi à minha mãe para antecipar a reunião familiar para Sábado, deixando o Domingo de Páscoa livre para cada um ficar em sua casa no sossego que tanto aprecio. Baralho as tradições, é o que é. E é sabido que elas têm razões de ser. Não sei se faço bem.


Ah, quase me esquecia, hoje à noite vou ver o AI – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, com base num roteiro de Stanley Kubrick, que morreu antes de poder concretizar a passagem a cinema da ideia de robôs com sentimentos. O filme é de 2001, baseado no conto Supertoys Last All Summer Long, do escritor inglês de ficção científica Brian Aldiss, e ainda não o vi, mas creio ir a tempo. Mais de duas horas e vinte de película, um grande teste à minha capacidade de concentração. Andava para o ver há anos por sugestão do Nuno. Creio até que já o anunciara aqui nas Comezinhas. Sim, fui confirmar: a 20 de Janeiro de 2021 mencionei a intenção de ver este filme nos dias seguintes. Não aconteceu. Vai acontecer hoje. Tudo tem o seu momento. Sem pressas.


Adenda 01h18 de 8 de Abril. Acabei de ver o filme e chorei como uma Madalena. Muito apropriado para a época do ano e do calendário religioso. É o grande comentário cinéfilo que me apetece deixar, tão só.


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