Este fim-de-semana começou da melhor forma. Ontem ao encerrar o dia de trabalho senti o telemóvel tocar. Atendi uma chamada do Continente com a finalidade de pedirem desculpa pelo cancelamento de encomenda duas vezes consecutivas na sexta-feira e Sábado passados. Um telefonema de cortesia com pedido de desculpa e a informarem que iriam atribuir um cupão de desconto. Vamos por partes, começo pelo fim: genuinamente o que menos me importou foram os seis euros do cupão. Valeu sim, a questão de princípio.
No passado dia 11 tinha escrito um post furibundo, que não cheguei a publicar (nem vou publicar) por estar a fazê-lo com desfasamento no tempo. O facto de terem cancelado sem explicação deixou-me fula, tendo enviado um email de duas linhas a dizer que era inadmissível e que aguardava contacto. Foi o que fizeram numa atitude correcta. Continuarei a fazer compras online e de modo presencial no Continente e de bem com a vida por lidar com gente decente. É tudo.
Ontem foi dia de pequeníssimas encrencas. O estore da sala avariou. Consegui ligar para os técnicos da reparação e marcar visita para o próprio dia, mas fiquei a saber que precisamos de um novo. Liguei diversas vezes para um hospital para deixar o pedido de marcação de consulta. Liguei também com a farmácia da minha rua, ficando a saber que sou uma lorpa. Consegui aqui o manipulado de sulfato de zinco para a queda de cabelo muito mais barato do que na Vitália, na Baixa.
Continuando nestes detalhes desinteressantes do dia-a-dia e descendo um degrau na falta de pudor: hoje, quase um ano depois, foi dia de voltar à depilação a laser. Valeu doer muito menos. Ainda assim, mulher sofre. Fui ao Norteshopping instalar a placa de alimentação do telemóvel que queimou no mês passado. De referir a simpatia e préstimo dos funcionários da Worten Resolve. Aproveitei para entrar em três lojas de vestuário para ver se encontrava um vestido para o tempo primaveril. Não foi bom dia: os demasiado compridos ficam-me francamente mal, os mais curtos eram de tecidos demasiado finos e aderentes ficando inestéticos. Não gostei. O Nuno experimentou uns jeans e nem achei ficassem mal, mas ele não aceita calças justas. Sem adquirirmos trapos, trouxemos pipocas para a próxima sessão de cinema em casa, que não sei quando acontecerá.
Mas antes das compras começamos por ouvir o E o Resto é História. Escolhi para hoje A Primavera dos Povos e o início do socialismo. Rui Ramos debruça-se sobre a onda de revoluções em 1848 em vários países europeus. E apresenta três razões para esta Primavera dos Povos. Em primeiro lugar, o grande crescimento demográfico nas áreas urbanas ainda sem as vagas de emigração para as “Américas” e sem o crescimento das cidades para os subúrbios, que se vieram a verificar na segunda metade do século XIX; as vagas de desemprego nessas áreas urbanas pejadas da pequena indústria, com populações capazes de se manifestarem com barricadas e de se sublevarem com armas dada a existência das milícias civis. A segunda razão estará na falta de repressão dos motins urbanos pelos governos, que resulta do facto das monarquias de então já terem incorporado uma parte da herança da revolução (francesa) sendo já regimes de transição com constituições, parlamentos eleitos, imprensas (no caso de França, com nova dinastia real) com grandes divisões nas aspirações dos revolucionários sobre o que deveria ser o sistema político. Em terceiro lugar pela densificação da rede de informações na Europa, com as ideias a passarem entre as elites educadas dos vários países (que “consumiam” e citavam os mesmos autores) e forte imitação da vida política francesa; e também por as grandes cidades começarem a estar ligadas por rede de caminhos-de-ferro e as notícias chegarem em poucas horas por telégrafo: a onda de revoluções dá-se pela circulação das ideias e das próprias pessoas.
Rui Ramos aponta ainda as razões para o fracasso destas revoluções, que passaram pelo facto da população rural maioritária e mais conservadora não aderir, pelas divisões entre revolucionários republicanos e socialistas ou em estados multinacionais, como os alemães, pela divisão entre nacionalismos e, por fim, pelo entendimento dos revolucionários com as anteriores elites.
Daqui a nada vou ler mais umas poucas páginas de Christiane Zschirnt um nada encanitada. Não é que não comungue do apreço pelos ingleses e de certa embirração com os franceses, mas a autora alemã tem um deslumbre primário pelos primeiros e um desprezo básico pelos segundos. Não deveria dizer isto antes de terminada a releitura, mas apeteceu.