À sorte. Abrir uma página de word em branco e escrever à sorte. Esquecer aquele post que estava na calha sobre o livro da alemã e as resenhas sobre as grandes obras literárias em matéria de amor e política e partir para o desconhecido, se bem que ele já está contaminado por tudo quanto vou absorvendo nos últimos dias. Mas interessa aquela sensação boa da lata de pôr os dedos nas teclas sem para elas olhar, tal como não olhar à intenção e ao diabo a quatro. Sair tudo sem premeditação, assim no instante, o que vier à cabeça. Hoje o telemóvel esqueceu-se dos testes de personalidade e resolveu ensinar-me as quatro regras na colocação de vírgulas. Bem podia ter aprendido, mas sobra-me aquela dificuldade de desconhecer os epítetos das categorias gramaticais pelo que à primeira leitura fiquei a pensar: mas de que raio estão eles a falar? Claro que à segunda já tinha percebido quase instintivamente as quatro regras e talvez por isso seja por instinto que coloco vírgulas. Quantas vezes já li a gramática? Disse-me a minha mãe há uns meses que ao longo da vida me via ler a gramática de tempos a tempos. Ninguém dirá. Memória. É preciso memória. É engraçado como não há coincidência entre escrever bem e escrever correctamente. A primeira exige dádiva, a segunda memória. Fazer o pleno seria o objectivo de qualquer pessoa de ambição na escrita. Nem duas vidas me chegariam. E agora? Mais uma vez a recordação das Redacções da Guidinha, as camas de Valinhas com as colchas de quadrados de crochet coloridos e unidos. É assim a memória: não dá para fixar em definitivo a gramática por mais vezes a consulte, mas dá para associar a leitura às tardes em cima das colchas. E ao vento do terreiro alto rodeado de tílias a bater nas cortinas brancas que não deixavam ver para dentro de dia, mas permitiam ver para fora e que a luz entrasse. Gosto da ideia de poder ver sem ser vista, gosto de cortinas, mais do que dos estores interiores mais modernos. Tiram luz e não permitem regular a luminosidade nem o equilíbrio da discrição. Da moderação. E aprecio a leveza do tecido fino em contraste com os materiais espessos dos estores. Há crueza neles, há barreira, ofendem o brilho, toldam a luz. As cortinas finas brancas, de fios ralos e por isso um tanto translúcidas tratam bem a claridade, permitem que exista e penetre nos espaços interiores, são delicadas e acolhedoras. Os estores serão regulares engenhocas de domínio sobre a luz. As cortinas leves têm o talento de respeitar a Natureza, ajustando com delicadeza as carências de todos: do Universo que quer clarear, de quem quer ver e da relação mediada entre os dois. E é assim que os dedos escorregam no teclado sem saber por onde andam, senão por breves segundos em que páram, recolhem à cara, ficando um polegar debaixo do queixo e o indicador e o médio flectidos entre o nariz e o beiço, a meditar por breves segundos: mas para que raio te havia de dar? Que estás para aí a dizer? Ah, respondes a ti mesma: sensação boa de me deixar ir. O cão ladra lá fora e jovens falam alto e batem palmas em brincadeira numa qualquer casa onde se juntam. Gosto destas animações pontuais na vizinhança. Trazem alegria. Agora ouvi umas gargalhadas de gente nova. Riem de forma tonta, como se ri a alegria que é inconsciente e por isso alegre. Não pensam antes de soltar o riso, caso contrário conter-se-iam. Falam alto, estão contentes. E emprestam vida aos prédios contíguos das traseiras. É tão fácil encontrar felicidade tendo tempo e estando atenta. Pela cadência talvez se trate de algum jogo, porque há momentos de silêncio seguidos de reacção: fala, riso ou palmas. Por detrás, mais denso, ouve-se um carro ou outro a passar na rua. Não se ouvem buzinas. Felizmente. Não falemos de assuntos difíceis. Calaram-se. Espero um pouco. E volta a vozearia juvenil em tom um pouco mais baixo. Para onde me virar agora? Sons, imagens, cheiros? Como vejo melhor do lado esquerdo do que do direito aquilo que lateralmente me prende mais a atenção é a cor rosa do candeeiro. Do lado direito as catorze dioptrias corrigidas para qualquer coisa que continua a ser ver muito mal, percebem a almofada do Ritz mas apenas por sabê-la lá. Contudo basta-me olhá-la de frente para vê-la integral. Tal como a página branca do word na qual se desenrola esta sequência de letras e linhas que publicarei com a lata de quem não tem grandes vergonhas do que encabularia pessoas muito respeitáveis e enfadonhas. Talvez faça a operação aos olhos depois das férias do Verão. A ver se faço os exames prévios. Ou será que a prescrição já passou outra vez de prazo? Da penúltima meteu-se a pandemia, da última o pudor em apresentar uma terceira baixa médica no espaço de um ano. É dar mais um bocadinho. Aprecio pouco de baixas médicas, mas tenciono que fique resolvido ainda este ano. Diz o oftalmologista que ganharei qualidade de vida. Pudera, se ficar com apenas 4 ou 4.5 dioptrias nos dois olhos, será um incremento. Além de corrigir a vista cansada, que já ando nos últimos anos naquela fase estúpida de um dia conseguir ler os rótulos e no dia seguinte não me chegar o braço para esticar. Ah, o mundo esplendoroso da meia-idade. E ainda tanto por fazer na vida. Agora que ia começar a viver à séria em aspectos essenciais é que surgem estas niquices, estas pequenas contrariedades. Nada em que não se dê um chute para lá. A jovialidade está no espírito, dizem as almas bem-intencionadas, mas não deixa de ser verdade. Hei-de ser uma criançola de 82 anos a engasgar-me ao acender um cigarro, der por onde der. Mas se não der, não deu. Sou uma troca-tintas. Sem ressentimentos, que a vida é importante demais para grandes exigências e inflexibilidades. Sorrio, mas ficou a cheirar mal, a tabaco. Embrulhei-me toda na tosse imaginária do travar desse cigarro lá longínquo, daqui a 33 anos, e senti há instantes o odor da fumarola. Não me agradou muito, tem piada. Pronto, na altura terei de escolher um cigarro fraquinho e se houver, daqueles com bolinha de menta. O que posso fazer em 33 anos? Há qualquer coisa que dói, e que passou. E se esvaiu. Vida. Não que a quisesse especialmente de outro modo, não que haja especiais arrependimentos. O remorso maior é da Natureza: o tempo. Não o que não volta, porque não queria voltar a nenhum tempo passado em especial. Regredir a algum momento feliz? Para quê, se o trago em mim. Foi. Rever quem já cá não está? Para quê? Se os trago comigo sempre. São. Conquistar o que não conquistei? Que mais faço eu no presente senão todos os dias conquistar? Não é o tempo que não volta que me falta, é o que passou e não posso multiplicar, é o que se esvai face ao tamanho dos desejos futuros, sempre crentes e, céus, tantas vezes totalmente desajustados, tontos e impossíveis. Mas são os meus desejos e ninguém mos tira. Ou melhor, só o tempo os restringe, pressiona, comprime. E a jovialidade contraria, desatina e ri do tempo. Faz o braço de ferro com ele, no canto da grande mesa de jantar de Valinhas, como o avô ensinou. O braço de ferro a ver quem é mais forte. Só o tempo fica mais forte à medida que envelhece, invencível na hora fatal. Mas até lá, ganho eu. Irei engasgar-me aos 82 ao acender o cigarro para mais um braço de ferro. E para mais não me chegam os próximos 33, quero 42 que também dá seis reduzido à base e por isso a palavra é felicidade. Pronto, decidi agora que deixarei o tempo torcer-me o braço aos 91, que dá um e por isso a palavra é amor. E agora vou pôr um ponto final nesta tolice e deixo para outro dia contar esta história dos números terem correspondência com letras e palavras: aprendi em criança na escola, não na sala de aulas de onde conservei sempre muito pouco, mas fora dela. Coisas de rapariga.