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19/04/2023

Recapitulando




Um psicanalista em cada esquina


por Isabel Paulos, em 18.11.21




 


Acusa quem te conhece de escarafunchares tudo até à exaustão. Porque será? Não estás a ver bem. Bom, queres com isto começar por advertir que as críticas que fizeres neste postal possivelmente te sirvam também. Verdade seja dita não é coisa que te aflija: dar na tua própria tola foi coisa a que desde cedo te habituaste, além do que te diverte – é o cúmulo do egocentrismo. Estas conversas com os próprios botões tem a óptima vantagem de te manter longe da solidão – há lá coisa melhor do que conversar contigo própria: zombar, desprezar mas também admirar de quando em vez para desanuviar.


O exacerbar da avaliação psicológica é o pão nosso de cada dia. Não há opinião emitida hoje em dia que não seja precedida ou sucedida do respectivo catálogo de traços psicológicos. A maioria das pessoas que lança mão desta bengala não se apercebe que se está a deixar engolir por uma série de preconceitos, não se permitindo acreditar nos gestos ou palavras do interlocutor que passa a mero sujeito objecto de avaliação. Hoje não se conversa com o outro, primeiro tira-se a radiografia da mente (além do físico e do look, mas abstrais disso neste postal) e no tempo que sobra ouve-se ou lê-se o que resta – ora, o preconceito faz com que sobre pouco: um zumbido que parece um urro ou cântico de claque de futebol de tão distante está daquilo que de facto cada um é.


O mal está na ideia de que se sabe tudo, já se viu tudo e tudo encaixa nos padrões do visto. E no circunscrever do outro ao produto de um punhado de circunstâncias que se conhecem, sem querer saber do resto: da essência de cada um. Um exemplo que te ocorre é de alguém que sempre que se fala de relações afectivas e casamentos, diz coisas do género: ah, mas o grande amor dela foi fulano tal. Ficas sempre a pensar: que saberá essa pessoa da vida dessa ela e dos seus amores? Para uma pessoa cujo conceito de amor é um casamento para a vida toda pode ser estranho conceber que existam vários grandes amores ao longo da vida fixando-se, por exemplo, no primeiro ou no mais vistoso. Assim como para uma pessoa para quem o amor é uma eterna busca pode ser difícil entender que se ame alguém do mesmo modo para todo o sempre - salvo no momento em que está a vivê-lo em pleno. Somos todos tão diferentes e tão parecidos: por cá andamos aos tropeções.


Numa perspectiva mais abrangente e voltando à psicologia, admira-te que no preconceito se consigam estabelecer novas relações benignas sejam profissionais, de amizade ou amorosas.


Tudo encaixa num molde pré-definido, num dos modelos disponíveis no mercado: ah, a nova colega é proactiva, o novo colega não tem os skills pretendidos, a nova amiga do meu marido é fleumática, a última namorada era uma pessoa tóxica. Ah, aquele fulano é filho de pai alcoólico, daí a desajuste emocional, a sicrana é filha de mãe católica e muito severa, daí aquela obstinação, e por aí adiante. É tudo tão redutor, tão poucochinho. E para além disso: terão ouvido cada uma dessas pessoas? Ou só aquele zumbido tipo urro, que referiste lá atrás?


Há um mundo em que as pessoas acreditam umas nas outras para lá do preconceito. Há um mundo para lá dos catálogos psicológicos e quem sabe não seja por lá que se dão os grandes encontros, os encontros felizes.