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23/04/2023

Domingo

No final do mês de Março, ao marcar as férias, no momento de dar o clique no enter de enviar o email com o mapa conjunto para aprovação, tive um repente e perguntei às colegas se ninguém queria mudar mais nada dos dias marcados. Disseram que não. Olhei para o calendário e vi que os três dias subsequentes ao feriado do 25 de Abril estavam livres e que como costume tinha marcado as minhas férias sempre para diante naquela velha máxima que tento seguir de primeiro a obrigação depois a devoção (coisas aprendidas em criança). Num repente disse às colegas que iria antecipar parte dos dias de Junho para o final de Abril. Elas riram com a gula de descanso e dei o enter no email, gozando da ideia de ter uns diazitos de relaxe próximos.


O que só reparei na semana passada é que segunda-feira é dia 1 de Maio, pelo que amanhã ao final do dia virei para casa e só terei de retornar à empresa na terça-feira da semana seguinte. Ou seja, sem premeditação consegui um fartote de férias. Não direi que Deus protege os audazes, mas sim que a sorte também beneficia os que não calculam.


Este é o tipo de coisas que me deixa feliz. A mim e a muitos. Pensar nas férias. Pus a hipótese de ir a Maiorca, que não conheço, passar uns dias a nadar, torrar ao sol e visitar a ilha, mas vi que as temperaturas não estarão por aí além, e que há dias em que chuviscará. Investiguei condições para lá passar uma semana em Julho, mas acabei por não marcar. Ficará para um ano mais adiante, se a vida o permitir. Conversei com o Nuno e regressamos à hipótese da Turquia em Julho, tanto mais que há a possibilidade de abreviar a estada dos nove para os cinco dias. Há dois anos, quando tive a possibilidade de voltar a viajar, congeminei três destinos: Amesterdão, Istambul e Moscovo e São Petersburgo. Em Outubro passado estive na primeira, em Julho é provável que venha a conhecer a segunda, só falta arredar o facínora do Putin do poder para conseguir cumprir o terceiro propósito. O ano de 2024 parece-me um bom ano para visitar o Hermitage. Há estrategas que conduzem os destinos do mundo ou das suas vidas, e há quem tenha talento para sonhar alto. Cada vez mais alto. Ou melhor, sempre sonhei muito alto, mas agora com a lata de relatar. Chamam-lhe desfasamento da realidade e megalomania.


E é assim que o destino do mundo se confunde com um momento insignificante em que alguém sem a menor importância marca as férias anuais. Sem lições, teorias ou intelectualizações, pois o mundo está farto de catequese ideológica e tom professoral e muito falho de respeito pela realidade comezinha que marca os dias, as aspirações e alegrias sem pretensões dos comuns mortais.


Por falar em sonhos, é estranho mas nos últimos meses quase não me tenho lembrado deles. Acordo sem aquela memória que era habitual. Ainda não me dediquei a explicar a situação, mas estou morta por voltar a recordar de manhã os sonhos tidos a dormir. Sem eles sinto-me manca. Falta uma parte de mim. O que me vale é que também devaneio acordada, senão que seria feito do alento para a vida? Ah e tal, devemos focar-nos nos objectivos reais, trabalhar e concretizar. Gosto tanto dos iluminados ensinamentos dos que não conseguem sentir a realidade e verdade dos sonhos e se mostram muito orgulhosos de, ao contrário dos calaceiros, serem muito trabalhadores e heróis vitoriosos na luta contra as adversidades. Revelam-se tão falhos de entendimento e respeito pelo outro e tanto desconforto na própria pele. Já repararam como desconsideram o esforço, trabalho e mérito de todos os que podem extorquir, bajulando os que trazem vantagem venal e reputacional? É patente necessidade de subjugar ou enaltecer em função da necessidade de afirmação e oportunismo. Valem muito pouco por si próprios.


Somos todos tão diferentes e tão iguais no direito a sentir a nossa vida e as nossas ideias como as certas, as normais. Enfim (que é uma palavra bonita), hoje é Domingo. Um belo dia de chuva e ronha.