
Sabes que horas são? O Vicente encostado na ombreira da porta. Sei, devem ser horas de almoçar. Não espera, de jantar, digo. Mas não tenho vontade de parar, hesitou a Margarida, sentindo o apetitoso cheiro a francesinhas à moda antiga. Estavam a tostar na prensa metálica de levar ao fogão. Diferentes das sanduiches encharcadas em molho picante, bem conhecidas, estas primavam por ser finas, torradas e temperadas com mostarda, que abria o sabor da carne fria e do queijo. Levantou-se da cadeira, indo espremer as laranjas, que acompanhariam as tostas antes do remate do café, deixando o lugar vago de modo ao Vicente ler no monitor os últimos desenvolvimentos. Chegaram à conclusão não ser conveniente adiantar muito sobre a protagonista e deixar na prateleira as outras personagens. Até agora só trouxera à luz do dia o Tomás, feito breve referência ao Luís e dado uns toques sobre as amigas da Ana Paula. O que faria sentido agora? Talvez apresentar a amiga de sempre, companheira desde a escola primária, na qual começaram a construir a ideia da nação, de frente para o previsível quadro de ardósia, sob o qual se elevava a imagem de Cristo na cruz, amparado do lado esquerdo pela fotografia do, então, presidente da república, o Almirante Américo Tomaz e do lado direito por dois grandes mapas, um dos distritos e províncias de Portugal continental e insular, outro das províncias ultramarinas, integrantes do Império.
A amiga Helena, agora madura, baixinha de feições harmoniosas, é uma leve alourada de olhos castanhos e anda de modo delicado, quase não se ouvindo. A timidez revela-se, ainda hoje, entre outros modos, na notória dificuldade em saber onde pôr as mãos em situações de constrangimento. Veste roupas discretas, normalmente, saia ou calças e blusa, coberta de casaquinho. Filha de uma mulher conservadora e intransigente, cedo aprendeu a reprimir manifestações de sentimentos e pensamentos. Os primeiros laços estreitos foram de temor, ou pelo menos de amor tumultuoso. A mãe, Maria da Conceição, dona de casa, era casada com um professor do Liceu, cujo contributo afirmativo para a formação da Helena e do irmão mais velho, quase se resumia ao momento discreto da entrega, no início de cada mês, de metade do salário para a gestão dos gastos. As poucas ocasiões de partilha com os filhos eram as do jantar, onde o silêncio frio era interrompido pela televisão e não raras vezes por observações hostis do pai destinados aos filhos e à mulher. Em tom de comparação a gente que nada lhes dizia, classificava-os de incapazes e fisicamente destituídos de beleza e elegância. Não havia o hábito conversar com a mulher ou os filhos em molde de pertença, sequer de igual para igual. Só intervinha nas tomadas de decisão familiar consideradas de relevante importância, e as poucas decisões tomadas estavam normalmente presas a ideias feitas e ao que é dado. Aos olhos dos filhos, o desconhecido a jantar e dormir lá em casa, que aos Domingos se dignava a tomar duas refeições na companhia da família e acompanhá-la à missa no Citroën. Naturalmente, tinha o chamado arranjinho, mas não se julgue que a indisponibilidade para mulher e filhos resultava da existência desta segunda vida. Em casa da outra mulher a distância era a mesma, salvo no estritamente necessário a preservar o ego. Depois da excitação inicial, mantinha a relação por precisar de afirmar a virilidade e compensar a incapacidade de fortalecer relacionamentos próximos. Buscava a veneração, motivo comum da multiplicação de relações afectivas. De forma fácil e sedutora, a segunda companheira, mulher de baixa auto-estima, concebeu enredo de complacência, encontrando explicação para todos os dissabores familiares e sociais do Jorge. E, com desculpas confeccionadas em linguagem científico-barata, hoje facilmente identificáveis em sound bites das secções de lifestyle, antes coleccionados nas revistas femininas, nas quais tudo passa por culpar o universo das expectativas goradas de narcisistas, o par justificava o resultado da falta de noção dos limites, da falta de freio encetada logo em criança. Fora educado no mimo e na subserviência de pais orgulhosos das gracinhas e modos do menino, nunca tendo aprendido a respeitar os outros. E assim foi vida fora porque a complacência perante o ditadorzito português parece não ter fim, havendo sempre uma cavalgadura, seja primo, irmão, tia, amigo ou quejando, a justificá-lo com a enormidade: só vai procurar fora, o que não tem dentro de casa; ou outra tonteria do mesmo calibre. Nunca ocorrendo a inaptidão de muitos para lidar com as mulheres e a incapacidade de escolher. Nem a regra de gente vertical: escolhido o caminho, outros são abdicados, e se não correu bem, encete-se novo caminho, assumindo as consequências, em vez de deixar outros enredados à índole mal resolvida. Mas foram precisos anos, até crescer o número de mulheres capazes de mostrarem não precisar de enconados para viver de forma plena.
O conservadorismo intransigente de Maria da Conceição, nunca transposto por falta de relação afectiva afortunada ou por falta de real vontade de solidão, capaz da desejada plenitude, deixou o marido fazer dela sombra do que sonhava e achava merecer. E porque a vida e, sobretudo, as relações não decorrem de merecimentos, cedo deixou de irradiar alegria. Resignada a solidão forçada, voltou a atenção para os filhos, a quem mostrou precocemente as amarguras da vida e espartilhou, por serem o último reduto de influência.
Assim se percebe a Helena ter crescido sem confiança em si mesma, parecendo destinada a ser dirigida pelos outros. Ao permitir, desde cedo, invasões no espaço de autonomia, convertia-se em badalo de sino nas mãos dos outros, soando conforme a intensidade do puxão que o faz chocar no bronze. Sonhadora, refugiava-se de forma consciente no mundo irreal, justo e suave. Mas não chegava e, por vezes, acreditava conseguir transpô-lo para a realidade. Lograva consegui-lo, porque aos olhos dos outros transparecia tranquilidade inabalável e, se não impunha respeito, provocava o curioso efeito de causar inveja nas inteligências menos trabalhadas. Dona, por natureza, de curiosidade imensa, vontade de quebrar amaras, corria riscos. Bravura apreciada pela Margarida, de quem se fez amiga. A reserva conservada por ambas era de tal ordem, que apesar de confidentes, nunca souberam dos detalhes dos enredos e enamoramentos da outra, até ao momento de estabilizarem na relação para a vida. E se a narradora agora conta o sucedido à Helena, é porque enviou email em Agosto de 2016 a pedir contributo para o livro que escrevia, contando um episódio de vida. E ela contou.
O pot-pourri de educação e natureza convertera a Helena em presa fácil de si mesma e de gente menos recomendável, e em matéria de amores teria rumo perigoso. Já esquecidos os namoricos da adolescência, por altura do segundo ano de faculdade, conheceu o Vasco e a forma de se envolver, deixou a nu a sua fragilidade emocional. Desacostumada ao respeito dos outros por si, e apesar de reticente quanto ao carácter do Vasco, envolveu-se sem reservas. Romântica, estava apaixonada pelo rapaz, poucos anos mais velho. Jovem intelectual blasé, e duas ambições na vida, mostrar ser um homem superior e ascender ao poder. Entre as provas do brilhantismo, cabia dispor das mulheres e treinar os dotes de sedução. Tratava-se de praticar. E calhou fazê-lo com mulheres. Tivesse nascido vinte anos depois e usaria homens nos exercícios. Aos olhos do embusteiro a mulher coabitava o planeta para persuadir o homem a transgredir as regras da proibição e, por isso, estava sujeita a todas as desconfianças e julgamentos. Do ardil com que encarava essa coisa do amor só colhia um verdadeiro ganho, o deixar impresso nos quadros pintados aparente ciência do amor. Parecia saber tudo, ensinava tudo; a troco de falsa ideia de ternura, procurava quem pudesse convencer e converter. Anos mais tarde, a Helena pode rir a bom rir, quando viu o próprio definir-se como opositor ao moralismo vigente. O moralista mor, se o ridículo matasse, pensava. Nunca conhecera, e vivia num mundo cheio deles, impostor tão moralista. Vá, pensava, nem tudo foi mau. Aprendera a ternura mascarada. Se algum dia se voltassem a cruzar, pediria que pintasse o quadro da ternura sem corpo nem carácter e saísse da frente desse espelho para ver o resultado.
Um sexto de século depois, tropeçou na exposição da obra desse homem. Já madura, pôde ver como a ambição exigira a criação de cuidada e imaculada imagem de homem civilizado, bon vivant e erudito. Os quadros, os pinceis, as telas, as conversas, os candeeiros, as janelas, os cinzeiros, ela, a Cristina, a Sofia, a Mónica, a Ana, a Luísa, os guardanapos, as cadeiras, e todo o rol, serviram melhor ou pior o propósito. Destinava as posições e dispunha de cada qual, quieto, obediente, pronto a estimular o génio criador do grande artista. E tudo quanto servisse para animar as cumplicidades dos múltiplos amigos que partilhavam os seus feitos. Tudo compunha a obra, conduzida a partir do seu móbil íntimo, o ressentimento de não ser quem achava merecer ser e a, consequente, necessidade de vingança de todos quantos nasceram como desejava ter nascido. Só ali percebeu ter sido o cálculo de custos e benefícios a determinar o início e o fim do Outono de engodo. Nesse mercado de valores a Helena representava zero. Vá, zero não, mas pouco além disso. Tinha o interesse de conhecer casa grande de gente faladora; achega para compor a paisagem da tela Matracas, uma das obras do Vasco. Surripiada essa paisagem, e outras que servissem de inspiração, o interesse era praticamente nulo. Se réstia houvesse, justificara apenas a tela ressabiada alusiva ao Natal nos subúrbios e tentativas posteriores de aproximação. Dissimuladas, como tudo nele. À distância de um sexto de século, a Helena imaginava apenas as flores do ramo recusado sem saber de onde provinha. Seriam as das amendoeiras do Algarve, do louro-da-montanha da Pensilvânia ou a orquídea do Rio de Janeiro?
Há época sofreu; era inevitável. Sob o pretexto da acusação de traição, o Vasco mandou-a bugiar. Mexera-se, a atrevida. Acusava ele. Em rigor, ela nem sequer sabia do que ele estava a falar. Os intelectuais têm a particularidade de ver a realidade por canudo muito estreito. Desses dias, lembrava-se da solidão do Natal. E, sobretudo, da incompreensão do Vasco pelo significado do momento. Percebeu mais tarde a razão por trás do pretexto. E era bem mais prosaica. O grande artista estava aterrorizado pela fealdade de Espinho e pela possibilidade daquela rapariga vulgar beliscar o mundo resplandecente de erudição, beleza e arte. Território reservado à genialidade de alguns amigos eleitos. E ao cabo de tantos anos, passava os olhos pelas telas com ironia: o amor e a morte, as grandes questões da humanidade retratadas, convertiam-se em remendos de medo e de cobardia. Teria sido mais fácil para ambos se o Vasco tivesse sido franco. E se a Helena não fosse tonta e tivesse percebido mais cedo. Estariam avisados de que o Natal não se compadece de mentiras. Depois veio o novo ano e, para júbilo do Vasco, a quem nada dá mais gosto do que ter razão, ela seguiu a vida, vagueando junto do homem vaticinado. Sem nunca ter tirado a trave dos próprios olhos, as campainhas dos altos padrões de moralidade do artista soaram. Dois meses depois consumava-se o vaticínio, a Helena assumia-se como errante, os sinos desafinariam. O cisco entraria olhos dentro de quem não devia e o resto é composição do tempo.
De tudo isto tomou consciência já madura. Naquele momento, longe da lucidez trazida pela idade, encontrou-se simplesmente em completo desânimo, sem sentido nem dignidade. Ganhou apenas em perceber cedo não ser aconselhável viver em função dos caprichos de um homem, nem dos julgamentos dos outros. E confirmou outra regra de carácter. Valemos pela solidão do que somos e não pelo conseguido à sombra ou à custa dos outros. Foi numa dessas manhãs de nevoeiro, de frio polvilhado pela morrinha, que comentários inocentes e desastrados de quem desconhecia a relação, a fizeram dar-se conta da sua credulidade. Fizera figura de urso. Queria fugir, desaparecer, mas aguentou firme, sem lágrimas, desabafos ou queixas. Sabia conseguir aguentar a mágoa sem quebrar, mas e o orgulho? Estilhaçado. Haveria de juntar as peças todas e seguir em frente, em silêncio. Como seguiu. Os primeiros dias do embate custaram a passar. Passou-os a desenhar. No fim-de-semana, veio a Espinho na esperança de desanuviar junto da conversa fiada das amigas de liceu. Combinou cafezito com a Marta e a Lara, e apareceu a Ana Paula. Enquanto esta contava episódios de cabine dos voos Porto-Lisboa, e as outras acompanhavam curiosas, Helena ia rabiscando. No fim, já as outras se tinham despedido e saído, esticou a folha e mostrou à amiga os garatujas que chamou significado da vida, redemoinho de setas dirigidas em diversas direcções, e tendência ascendente. A Ana Paula lançou olhar enfadado e criticou: não gosto muito da ligação do verde com o azul. E voltou a atenção e comentário para o que realmente a movia: já viste a saia daquela maljeitosa? Não é essa. Aquela lá fora. Parece um balão, olha. Se tivesse vergonha na cara, não mostrava aquela celulite. Ela nem é gorda, mas é mesmo malfeita, não é? Helena, estás a ouvir? Não, não estava, havia abalado, estava ao balcão a pagar o café e a perguntar-se porque ainda aturava aquilo. Quando atravessou a porta d’ O Nosso Café, para seguir em direcção da casa dos pais, pensava: grande cabra. Pelo caminho, como sempre, foi condescendendo e quando chegou a casa, já levava a certeza estar tudo no devido lugar.