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23/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Aconteceu - 26 (continua)

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        E de onde vinha a conversa da Sofia? De uma ligação ao hospital de Santo António, no qual a Margarida trabalhava. Da ligação da mana Soares a um pacóvio oftalmologista. A antipatia à narradora nasceu do jantar organizado por colegas em 1995. Tudo parecia correr amenamente até ao final do repasto bem regado, quando o dito médico, de nome António Gonçalves, se aproximou, oferecendo o café que trazia na mão. Ela agradeceu ciente que a tal gesto de cavalheirismo e generosidade do clínico se seguiria o interrogatório, próprio dos apreciadores de catálogos e inventários pessoais. Então? Apanhada a sair do Morrer em Las Vegas, no Charlot. Não sei não, ainda se fosse do Seven, com actores a sério como o Morgan Freeman, seria aceitável, senhora enfermeira, arremessou ele. Já o vi também. Procuro não ver apenas o recomendado pelas estrelas de críticos de discurso obtuso, contestou ela maçada. Que mau feitio! Com esse temperamento não há homem que a queira. Estava só a meter-me consigo. Mas posso estar diante de uma cinéfila, e vou aproveitar e pedir recomendações. Que me aconselha a ver? A reposição do filme do Cameron, O Abismo, sugeriu a narradora já enjoada. Bem, mas também vê ficção científica. Estou a ver que tenho que dar uma palavrinha ao Dr. Rui Sá. Na oftalmologia não recrutam enfermeiras com essa bagagem. Ela sentia o asco provocado pelas abordagens viscosas. Mas António Gonçalves continuou. Deve ser o seu namorado que a arrasta para a ficção científica, as mulheres odeiam o género. Sabe que está provado que o cérebro feminino é menos propenso ao cálculo e abstracção? Margarida ficou em silêncio enquanto o inquisidor continuava. Digo namorado, não sei se estou enganado, mas como a vi bem acompanhada à saída do Charlot. Ela manteve-se impassível. E o António prosseguiu ainda com mais gosto, acusando bastante os três ou quatro copos de vinho, para os quais não contava com estrutura física e mental. Fazia questão de mostrar à atrevida arrogante que facilmente a dominava. Já percebi que é tímida, sabe que aqui no hospital é vista como uma encalhada, mas eu sempre soube que levava a sua vida. Após um silêncio, esticou a corda: aliás, ouvi dizer fora daqui que é amiga da vivaça da Filomena e ela não se dá com ingénuas. Tem de ter cuidado. Olhe a fama. A sua amiga é conhecida na noite do Porto por alegrar a vida a muitos homens. A enfermeira firmou o olhar: quanto à Filomena, se não tem estaleca e lhe faz confusão o género, não se meta com ela, quanto a mim, prefere catalogar-me de encalhada ou pê? É ao gosto do freguês. Tanto faz. Só peço que quando divulgar que sou pê, faça o favor de ser rigoroso, e em vez de dizer que alegro a vida a muitos homens, diga que deixo muitos homens alegrarem-me a vida. A ter a fama, quero tirar o máximo partido. Ouça lá, Margarida, você é um tanto dramática. Só estava a dizer para ter cuidado. Tinha-a por uma menina atinada e essas companhias da noite podem estragá-la, dissimulou ele. Estragada fico eu quanto se metem na minha vida, suspirou ela. Mas, por isso mesmo, você nunca fala da sua vida. Está aqui há cinco anos e não se lhe conhece nem família, nem namorado, nem cão. Não acha natural as pessoas conversarem? Entre pessoas que convivem diariamente, continuou ele. Não, não acho. Acho que querem encaixar os outros em lugares-comuns, sem genuíno interesse pela pessoa. Gosto de reserva, tentou rematar ela. Mas é o que todos fazemos, é normal, insistiu ele. Pois, será. O certo é que tenho direito ao respeito pela minha reserva, terminou ela. Por mim tudo bem, acho tudo isto um tanto bizarro, como queira, desistiu ele. E, ao afastar-se, ziguezagueante, atirou a medo: então e O Abismo, onde está? No Pedro Cem, respondeu a Margarida, impassível, contente por ter feito perceber que, com ela, devia reduzir-se a conversas inócuas.