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09/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Quem Somos - 9 (continua)

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       O desalinho da Lara contribuía para ter amigos do mais variado género e acabava por ser ela o elo entre muitos no Liceu, como da Ana Paula e das irmãs Soares, e também dos colegas Alexandre e o Sérgio. Dupla inseparável de cábulas gozões. O que mais o definia a parelha era a piada rápida e permanente com antecedentes previsíveis. O pai do Alexandre era empregado de mesa n’ O Nosso Café e a mãe fazia trabalhos e arranjos de costura em casa. Da infância o rapaz retinha sobretudo a boa disposição do pai e as graçolas típicas do modo de vida, que passavam invariavelmente por retorquir ao pedido: queria um café, se faz favor; com o inefável: queria? Então, já não quer? De porte largo e farto bigode, tirava proveito de todas as oportunidades para escarnecer das bizarrias e maneirismos da clientela. Tanto revelava desdém pela frugalidade e contenção de gastos de alguns habitués, desde as senhoras, que à conta do chá sem torrada, passavam a tarde no crochet, à sofreguidão e excessos dos destemperados, que gostavam de exibir as suas posses e histórias forjadas. Os alvos preferidos eram, contudo, os das pestanas queimadas, de tanta explicação e estudo. Só escapavam os amigalhaços, que incentivavam e elogiavam a graça. 


       Crescera também a ouvir o característico som do pedal da máquina de costura, primeiro mecânico, a trazer à memória a lenda alentejana da costureirinha, mais tarde eléctrico, onde a mãe passava o dia em volta de panos, linhas, agulhas e moldes das revistas Burda. Quando criança pequena gostava de estar no quarto dos pais, onde, além da cama de casal, na qual assentava a boneca de porcelana de olhos atentos, só havia espaço para o guarda-fatos arrebicado, com grande espelho de prova das clientes, e a cadeira em frente ao móvel da moderna Singer, onde se sentava a dar ao pedal. Brincadeira atalhada sempre pelo sonoro: pára com isso, que me desenfias a canela. Atirado da cozinha pela Clotilde. E fora do carreto passou toda a infância e adolescência. Seguindo e aperfeiçoando as pisadas do pai, pregava ou tentava pregar partidas a todos quanto se punham a jeito. A arte ocupava horas de treino em frente ao espelho das donas dos vestidos, porque a perfeição das piadas não era coisa de amadores. O grande amigo, Sérgio, gostava de morder pela calada e, sendo mais esperto, usava o Alexandre a bel-prazer para todas as maldades e vingançazitas. Bastava uma pequena sugestão do Sérgio quanto a suposta falha ou tique de alguém, para o Alexandre levantar voo, e com grande lábia, encorajada pelo veloz sussurrar de bojardas do amigo, desfazer em mil pedaços o respeito granjeado até então pelo visado. E foram muitos os caídos nas redes das graçolas da dupla tida por mais divertida do liceu, onde só havia mais alguém de assinalável sentido de humor, o Luís. Servia-se de um tipo de graça bem mais sóbrio. O problema da competição e rivalidade nunca não se punha. O Luís sabia que o seu espaço de aceitação era reduzido, face ao universo pleno de glória da dupla das anedotas escatológicas ou picantes. Os reis do peido e das mamalhudas, como se referia à dupla, quando falava com o irmão Manuel sobre as peripécias do liceu. O irmão replicava sempre que tal reinado não lhe desagradava inteiramente, rindo ambos, até passarem a outros assuntos, cientes que a brejeirice tem o condão de alegrar quando usada restritamente e enojar quando exibida à exaustão.


       E se não fosse a brejeirice da dupla citadina de Espinho, era certo e sabido que as piadolas versariam sobre a sonsice das beatas e seminaristas, os sotaques e a burrice do matarruano minhoto ou do choninha visiense, o folclore, os afazeres agrícolas e termos da terra ou sobre a burrice dos negros ou das gentes do Alentejo, onde nenhum dos dois estivera, mas imaginavam ser espécie de campo grande, repleto de montes ou medas de palha, ponteado de chaparros, cujo nome tinham aprendido na televisão, mas associavam a um híbrido de pinheiro e eucalipto, as únicas árvores com as quais estavam familiarizados, tal foi a propagação destas espécies no norte e centro do país, em detrimento das espécies nativas. Estavam certos não haver pinhais nessa terra onde tudo andava devagar. Pinhais, como chamavam a todas as matas.