
Ele voltava; em princípio, voltava. Aprendeu a não ter certezas. E sabia que esta dúvida, sobre se um dia o Vicente não regressaria, era prova do amor que sentia por ele. Não o tinha como adquirido, como não tinha por certa a alegria. Saboreava bem ambos. E queria aproveitar o ânimo para adiantar o livro e terminá-lo. Já passara tempo de mais a empatar. Sentou-se na cadeira em frente à secretária, na qual estava pousado o portátil, e abriu a entrevista do dia 10 de Outubro. Os entrevistadores recuaram ao final do ano de 1986 e discutiu-se o contexto em que surgiu o primeiro emprego, como hospedeira de bordo. Pela discussão final, depois de entrevista inicial, do testemunho da Lara e da recusa do Carlos Alberto em colaborar na produção do episódio, percebeu-se que nas últimas semanas de Dezembro de 1986 a miscelânea de assuntos relevantes era o Alberto e a TAP. N’ O Nosso Café, juntou-se à Helena e à Lara para voltar à carga: Espinho é uma terra pequena e tacanha, preciso alargar horizontes e esquecer o sonso do Carlos Alberto. Ele alinhara no veneno das primas sobre aquele episódio rocambolesco do carnaval de Ovar. Quase um ano depois, tinha-se desavindo da prima no namorado, que em revanche, resolvera contar ao rapaz o que vira e o que não vira no desfile. A Ana Paula repetia insistentemente que não curtira com o Victor, nem tal lhe passava pela cabeça. Quando a prima do ex-namorado se aproximou, estava apenas tonta de tanto ter dançado e a consolar o amigo de infância pelo recente desgosto. Nem perdera tempo a explicar as razões ao Alberto, como sempre lhe chamava, ao contrário dos amigos e família. A falta de confiança demonstrada na cena de ciúmes era motivo suficiente para acabar o namoro de mais de três anos. E estava decidida a mudar o rumo da vida. No fim-de-semana vira, no jornal Expresso, que começara a comprar para leitura exclusiva das páginas de emprego, o anúncio de recrutamento de hospedeiros de bordo da TAP. Iria responder, e acompanhada de inabalável certeza, iria conseguir o lugar.
Dito e feito. Fez a entrevista, os testes psicotécnicos e médicos e entrou para o curso, estreando-se a trabalhar primeiro nas rotas domésticas, alargando o mundo tacanho de Espinho, ao exótico mundo dos aeroportos de Pedras Rubras e Portela e redondezas. Mais tarde ao de Faro e das ilhas, e no último meio ano de trabalho até aos exuberantes aeroportos de Orly e De Gaulle, em vôos apinhados de conterrâneos emigrados. Ao todo, foram três anos em que a experiência na aviação da TAP, essa sim, interessante pelas competências técnicas de excelência, trouxe algo de novo ao mundo da Ana Paula. Além dessa vantagem, a mais significativa foi a de incrementar ainda mais a autoestima da protagonista e conferir-lhe a pinta necessária para despertar interesse do tão desejado Pedro.
Mas afinal como o havia conhecido a Ana Paula? Escreveu a Margarida, sorrindo e pensando que o espírito alinhado do Vicente gostaria de estar neste momento a lê-la. Ou não. No Verão de 1988, em Julho, a Ana Paula fora na companhia da Helena e a Lara passar a tarde à piscina da Granja. Programa comum de muitos jovens de Espinho e Gaia. Nas espreguiçadeiras do terraço junto à piscina estavam deitados o Tomás, os primos Pedro e Gonçalo, além do amigo Manuel. Tinham despido as calças de sarja e pólos, ficando em calções curtos lisos ou de xadrez miúdo. Formavam elegante grupo de rapazes magros e ágeis, sobressaindo o Pedro por ter rosto simétrico e corpo desenhado a proporções generosas e elegantes. Comentavam o mau gosto das bermudas compridas e floridas do rapaz que ensaiava mergulhos sucessivos para a piscina junto do irmão mais novo e, quando o Tomás dizia que pior só mesmo a tanga, viram surgir a Lara numa longa t-shirt negra e riscada de branco e cinza. Atrás surgiram as outras, e as três abeiram-se de um dos últimos conjuntos de espreguiçadeiras ainda livres. Despachada a Lara fez sair pela cabeça a longa t-shirt, descobrindo o biquíni a imitar tecido de jeans. A Helena despiu a blusa pérola de alças largas e calções caqui, deixando-se à vontade no fato de banho verde água. A Ana Paula vinha coberta com páreo em tons quentes, de vermelhos, laranjas e amarelos, numa paisagem a renascer paragens longínquas de palmeiras e sol quente, e ao destapar-se fez surgir o biquíni alaranjado a condizer, atado por laçadas de cordões.
A chegada das três amigas não deixou de despertar o interesse no grupo de rapazes, tendo o Gonçalo e o Manuel desatado de imediato a comentar os atributos físicos das donzelas. O Pedro manteve-se calado, muito calado, mas absolutamente embevecido por tudo quanto envolvia o sol quente das palmeiras. Para espanto de todos, o Tomás riu triunfante e disse: se as querem conhecer basta seguirem-me. E assim foi. Levantou-se, foi cumprimentar as colegas de Liceu e apresentou-as ao Gonçalo e ao Manuel. Já o Pedro se deixou estar de papo para o ar, olhos fechados como se nada fosse. Sabia que poucas coisas são menos encantadoras do que o maralhal de apresentações. Deixou-se estar, sabia que o seu momento chegaria. Na outra banda, o grupo agora alargado, falava e ria. A Lara questionou o colega sobre o amigo que ficou deitado na cadeira e rapidamente engrenaram todos a cantarolar animados, mas baixinho a música Pós-modernos dos G.N.R., que se ouvia no rádio do grupo das espreguiçadeiras do lado. Indiferente ao que diziam, até porque nem sequer os ouvia, o Pedro levantou-se e mergulhou em ângulo perfeito, tendo feito duas piscinas em crawl ainda mais perfeito. Foi à cadeira buscar a toalha, limpou a cara e cabelo, enrolou a toalha à volta da cintura, realçando o porte atlético, e dirigiu-se ao grupo. Então, vêm para aqui para a cavaqueira e nada de nadar? Eu sou o Pedro e as meninas, quem são? Perguntou directamente, não buscando ajuda do primo, nem dos amigos. A Lara apressou-se a dizer: eu sou a Lara. E olhando o Tomás, comentou: afinal o teu primo não é tímido. Seguiu-se a Ana Paula. Disse apenas o nome, encolhendo as pernas para permitir que ele se sentasse. Por fim a Helena, comentou a proeza do rapaz ter feito duas piscinas em menos de minuto e meio. Obteve apenas um sorriso desligado do Pedro, enquanto se sentava nos pés da espreguiçadeira de Ana Paula, e comentava o navio Reijin na praia da Madalena. Falaram sobre as circunstâncias em que encalhou e o Pedro descreveu o tamanho gigante ali mesmo, com mais de cinco mil carros novos a bordo, a escassos metros na praia, despertando o interesse dos que ainda não o haviam visto. De tal forma que combinaram hora para no dia seguinte o irem ver, antes que o cargueiro japonês fosse desmantelado.