
Os dois rapazes conheceram-se ainda em criança nos escuteiros de Espinho e, apesar de terem estudado em turmas diferentes até ao nono ano, a escolha de ciências fê-los reaproximar. Prosseguiu a Margarida, exausta de coser texto, e agora sem o Vicente, que fora a Madrid para uma série de reuniões de trabalho. Pena não estivesse ali a ouvir a escolha do nome desta personagem. Consultou o relógio, faltava uma hora para chegar, vindo de metro do aeroporto. Facilidade a pesar na preferência pela Póvoa de Varzim para viver. Havia convénio nestas ocasiões. Uma vez chegado iriam à praia desempenar as pernas. Mas ainda faltava uma hora e tencionava tirar proveito do tempo. O Oliveira, nome de árvore milenar, era figura que conquistara a sua simpatia, escrevia Margarida, mas não querida pela Ana Paula, pelos ciúmes provocados nas muitas horas de animada cavaqueira com o Carlos Alberto.
Filho de lavradores da Bessada, zona rural de Espinho, e não Vessada, segundo a boa ortografia, frisou a narradora face à imediata sensação de reparo do Vicente. Gente educada e trabalhadora, com outros dois filhos, o rapaz mais velho e a rapariga mais nova, com quem bulharia de forma sã a vida inteira. Cresceram a respeitar a natureza e os outros. Os avós do Oliveira eram proprietários de campos contíguos e a largueza dos oito mil metros quadrados unidos pelo casamento dos pais, fê-los sentir crescer em segurança. A união das duas regadas, a de lá, dos Oliveiras, e a de cá, dos Fernandes, deu lugar ao campo de mais de cinco mil metros quadrados, o que se mais a norte do país, é considerado um belo campo, em Espinho ainda orgulha os pequenos lavradores. Juntando a hortinha, o pequeno pomar e a leira das batatas, quase um hectare de terra e engenho. Na infância do Oliveira, o campo grande da regada, orgulho da família, era inteiramente utilizado entre Abril e Setembro para o cultivo do milho, mas chegados os incentivos e subsídios da C.E.E., na década de oitenta, passou a ser ocupado também pelo tomate e logo se seguiram, até aos primeiros anos da década de noventa, os quivis. Já na União Europeia, parte de campo foi aproveitada para mirtilos e framboesas. Variavam o que plantavam, mas não as rotinas. E porque a segurança nunca nasce do acaso, especialmente, quando se vive da terra, o Joaquim Oliveira e a Emília Fernandes todos os dias se levantavam ao nascer do dia, e antes mesmo do pequeno-almoço, principiavam por dar de comer à dúzia de galinhas e garnisés e à restante bicharada, seguindo-se dia inteiro de trabalho a amanhar a terra e demais lides do campo. A semana era quebrada à segunda-feira na ida feira, onde compravam ora um ancinho ora uma sachola e, para onde escoavam os hortícolas e muito do cultivado. Os filhos davam mão aqui outra acolá, mas nunca sofreram grande pressão para ajudar na lavoura, e diga-se em abono da verdade, também não sofreram grande pressão para estudar. Tudo decorria com naturalidade. Chegados à adolescência, o mais velho revelou grande paixão pela condução de motas e entre este devaneio e o das raparigas, logo no nono ano, após a saída das seis negativas em pauta do primeiro trimestre, demonstrou vontade de desistir do liceu. Um professor mais atento insistiu que o André acabasse o nono ano, e acabou por acontecer, arranjando depois emprego na Cooperativa Agrícola, na qual passou rapidamente de faz-tudo a funcionário de grande préstimo para os associados. A irmã Graça, mais nova, foi sempre dedicada na escola, mantendo os cadernos e a atenção impecáveis. Miúda alegre, a avidez de vida e conhecimento reflectiam no brilho dos olhos. A cada dia na escola, dentro ou fora da sala de aula, fazia descobertas e em casa desfrutava relatando tudo quando aprendia, para grande gozo dos pais e irmãos, que fingiam não achar graça à pirralha. Nos altos e baixos próprios da idade, revelar-se-ia aluna razoável no liceu, boa aluna na faculdade de direito e excelente advogada.
Cresceram confortáveis num mundo simples e descomplexado entre os serões de policiais de Nova Iorque e as tardes dos westerns de Domingo. Mundo de bons e maus distintos entre si, hoje ridiculizado por todos os iluminados e convencidos de ter atingido o patamar sofisticado do relativismo. O certo é que a simplicidade e acerto dos acordes de piano de intróito ao mundo da esquadra nova-iorquina e aos diálogos na banheira que albergava o recto capitão Furillo e a contundente advogada, Joyce Davenport, e toda a envolvência de camaradagem e boa índole terão sido decisivos na escolha do curso pela Graça, tal como para muitos de miúdos dos anos oitenta. A Balada de Hill Street fez mais pela promoção dos cursos de direito entre os jovens estudantes do que anos de prestígio associado à profissão. Imersos na espuma da água da banheira, entre a dentada no morango e o gole de champanhe havia sempre oportunidade de confrontar as contingências do exercício de autoridade e os seus excessos. Cocktail atractivo para jovens e menos jovens idealistas, nunca esquecidos do be careful out there, do sargento Phil Esterhau.
Hoje, o nosso Oliveira, chamado José, é homem alto, teso, de cabelo crispado, olhar penetrante e traços rijos, só suavizados pelo sorriso que o desmancha, devolvendo o arzito de coca-bichinhos de miúdo. Foi construindo vida cheia de insignificância em insignificância. Logo aos sete anos, desafiado por coleguinha mais velho da quarta-classe, com quem trocava cromos da caderneta de futebol da Panini, entrou no agrupamento de escuteiros de Espinho, começando as caminhadas, raides e aventuras. Aos dez anos já os tiques, as regras e a obrigatoriedade das boas acções o maçavam. Ainda assim aproveitou para ganhar interesse pelo que mais tarde desenvolveria, como a música e o radioamadorismo. E reforçou o respeito pela preservação do ambiente, de natureza diferente do respeito pela terra já incutido pelos pais.
Sentiu calor nas costas, voltou-se e o Vicente sorrindo de soslaio gabou: de repente melhorou bastante. Não sei porquê, mas gosto desse Oliveira, declarou, compondo a parka azul-escura presa no braço. Cansado da viagem e de esperar que a Margarida largasse o computador e os múltiplos arranjos, acabou por voltar a vesti-la e dar sinal de ir indo. Ela preocupada: estás bem? Há novidades chatas? Não, está tudo na mesma, disse ele. Mas conversamos na praia, despacha-te, eu vou indo, rematou. Ela na corda bamba hesitava, via-o desaparecer e depois voltava-se para o monitor e nova revisão. Os hífens tramam-me. E os com, comos, ques, uns e umas. Apre. Já desço, vou só pentear-me e buscar a carteira, murmurou, pensando ao mesmo tempo no vento forte e como era indiferente a tentativa de alinho. Dentro de minutos estariam na praia, descalços a enfrentar o vento frio enquanto andavam na areia. O mar a lamber pés e tornozelos, a grande alegria da maturidade conquistada pela Margarida, apesar da resistência usual do Vicente. Ao contrário de agora, contente por estar ali, de pés relaxados e frescos enquanto desabafava sobre o tédio sentido nas deslocações corriqueiras para reuniões de trabalho.
Voltados a casa, ela arrumou o saco das compras feitas no caminho de regresso, e estirou-se no sofá, apoiando o portátil para continuar a contar a vida do estimado Oliveira. No ciclo preparatório tivera a sorte de ter educação musical com acesso aos instrumentos e professora com real formação na área. Coisa que, à época, não era dado adquirido, tamanhas as confusões e iniquidades nas colocações dos professores. Na sala 5, do pavilhão central, junto à cantina, tocou pela primeira vez num órgão, no caso, um pequenino honer, e ajudado pela professora, aprendeu os primeiros acordes da inefável Loja do Mestre André. A mesma professora emprestou o primeiro disco de Mozart, que o Oliveira ouviu vezes sem conta antes de devolver em impecável estado de conservação no final do ano. No ano seguinte, no alto dos doze anos, já devaneava ao som do concerto nº 1 para piano de Tchaikovsky. Daí ao fagote e a integrar a banda filarmónica de Espinho, nos primórdios a Banda do Soqueiro, foi ápice só explicável pela alegria posta pelo Oliveira nos interesses. Sem se empenhar em dar na vista, cativava naturalmente os demais pelo talento. Gostava e tirava partido de tudo em que se envolvia, e tanto gozava nos dias festivos de actuação da filarmónica, quanto nos trabalhosos ensaios no salão do Bombeiros, nos quais era sistematicamente chamado à atenção por se adiantar no ritmo. A par da filarmónica, juntou-se a si e ao teclado farfisa em segunda-mão, ao guitarrista e ao baterista-vocalista, formando a banda rock que animava os saraus do Liceu e festas particulares de amigos e conhecidos em Espinho. Faziam covers dos temas mais badalados dos anos oitenta e tentavam mesmo originais, feitos de letras rudimentares do guitarrista e acordes do próprio José, chegando a mandar uma cassete para o Júlio Isidro, principal promotor de jovens talentos e nos programas de quem todos os aspirantes a músicos eram corridos aos costumeiros tens muito talento, não deixes de acreditar em ti e persegue os teus sonhos. À época, os concorrentes eram valorizados pelo chamado carisma e pelo empenho em causas. Muito longe da moda do início do século XXI de enxovalhar os pouco ou nada talentosos e enaltecer os que pelo look, telegenia e desinibição escapam ao crivo da censura humorística. O Oliveira, apesar de não ter sequer resposta do mundo profissional da música, manteve o ânimo de sempre.
Poucos anos antes, por altura do Natal, sugeriu discretamente aos padrinhos o presente mais desejado, ainda reminiscência dos escuteiros, uns walkie-talkies. E consegui-os para gáudio dos três irmãos, que passaram dias e dias seguidos a falarem à distância, transpondo situações dos filmes e da vida corrente para as brincadeiras. Algum tempo volvido, já o André e a Graça se tinham esquecido dos ditos rádios, ainda andava o José à volta de revistas de electrónica, a tentar perceber melhor como poderia dominar as conversas do além das quais se foi dando conta pelo uso do brinquedo. E daí até arranjar as peças que permitissem criar um rádio comunicador, foi um pulo. O mais difícil de arranjar, por custar dinheiro, foi próprio aparelho emissor-receptor de rádio, conseguido em segunda mão na loja de electrodomésticos. Depois a fonte de alimentação aproveitada do carregador de baterias das motas do irmão e ainda a antena feita de fio de cobre, estendida entre o limoeiro, encostado à parede do quarto, e o poste de telefone. Por fim, restos de cabo de televisão para ligarem o aparelho à antena. Feita a engenhoca, toca a comunicar com mundo, assim ampliado exponencialmente, ao ponto de o Oliveira ter levado para o quarto uma corticite de planisfério colado, na qual pregava os pioneses coloridos nos lugares onde chegava.
Certo dia, a mãe entrou no quarto e deu com ele a perguntar a outro radioamador como estavam as condições de propagação, seguindo a resposta que a espantou o resto da vida. O filho ia conseguir falar para a terra dos cangurus, do outro lado do mundo. Hoje chegas à Austrália, ouviu roufenho do outro lado dos aparelhos que o filho ainda não dominava. Mesmo o atirado José estranhou a resposta e retorquiu: recebido, mas o meu rádio não tem potência, como chego tão longe? Com a voz quebrada, o velho e experiente amigo foi respondendo: roger, escuto, então, é a mesma coisa que descobriste nas tuas conversas do além nos walkie-talkies, da mesma forma a luz entra em tua casa, e propaga, reflectindo-se nas paredes e objectos do interior, assim são as ondas de rádio, vão-se reflectindo nas camadas superiores da atmosfera. Chegas aos ziguezagues à Austrália. Recebido, aos saltinhos, tipo canguru, concluiu o Oliveira a rir, enquanto via a mãe sair do quarto a abanar a cabeça e a dizer em voz alta: o que eles inventam. O rapaz não sonhava ainda o quão fácil seria no futuro ligar-se ao mundo em rede. Nem a compra do primeiro computador, o zxspectrum, com dinheiro dos biscates, nas reparações dos electrodomésticos das redondezas, teve essa noção. Não concebia inteiramente o impacto da introdução dos satélites artificiais para propagação nas comunicações. Aprendera no radioamadorismo a vantagem de pôr as antenas em locais altos, mas não tinha noção da revolução iniciada antes mesmo de ter nascido, com a colocação em órbita dos primeiros satélites russos e americanos. Desta forma, começou a ser possível estabelecer ligações entre pessoas e a partilha de informação. Na mesma altura, percebeu também as virtudes da conversão do sinal analógico em sinal digital e vice-versa. No pequeno computador percebeu a existência da convenção dos 8 bits, que permitem a contagem entre 0 e 255, a premissa da evolução da informática. Como explicava à irmã, que via todas estas engenhocas com estranheza, imagina-te a dizer esta frase: bom dia. Se for pela via de som, vais ter uma onda de som, ou seja, uma variação da pressão do ar que te rodeia durante dois segundos, e permite sejas ouvida pelo outro; se for via telefone, vais converter essa variação do ar numa variação da intensidade eléctrica, com a duração do som, i. é, os mesmos dois segundos, mas transmitido a longa distância o ruído da linha durante o percurso torna difícil perceberem-te. Ora, agora, se a conversa for digital, essa onda de som ou variação é cortada em pequenas fatias representadas por um número entre 0 e 255, e ao enviares um desses números, consegues obter no destino, a descodificação, sinal muito fiel ao sinal original. Ou seja, rapariga, o teu bom dia chega muito perfeito. Sim, respondia a irmã, tentando vislumbrar como se cortava o som às fatias. Outra coisa, lembras-te dos stencils da tua professora de português? Pois, ao fim de vinte cópias aquilo está uma porcaria, mas imagina, agora, isso em texto de computador e imagina um aparelho onde se põe papel e repete tantas vezes quantas as quiseres o texto gravado. A Graça arregalou os olhos, ela estava habituada a fazer trabalhos escolares na velha máquina de escrever da madrinha e, distraída, farta de desbaratar papel por causa dos erros. Por esta altura, nos oitenta, o José e a irmã começaram a entender a rápida mudança do mundo. O computador não era para os Oliveiras mero entretém de joguinhos. Nele o José deu os primeiros passos na programação, auxiliar sempre presente ao longo do percurso profissional e a Graça estreou-se a apresentar trabalhos impressos em estreito papel térmico, saídos da pequena impressora zxprinter; coisa nunca vista no Liceu de Espinho até então.