
Já a Ana Paula sempre tivera a posse da corda que imprime força no badalo da vida, sem nunca prescindir da coragem para a segurar. O primeiro amor, Carlos Alberto, era filho da terra. Os pais nascidos em Espinho, viviam de pequena mercearia, cujas prateleiras albergavam pouco mais de farinha e fermento, arroz, feijão e grão, açúcar, enlatados, e biscoitos de limão. As preocupações centravam-se na mercearia e nos dois filhos, a quem pretendiam ver singrar na vida, e desde logo, na escola. O irmão mais velho, Rui Jorge, cedo começou a ajudar os pais no negócio e a querer modernizá-lo. Não mostrou muita vontade em continuar a estudar, aumentando a pressão sobre o mais novo que haveria, à força da vontade dos pais, ser engenheiro. Habituou-se a estudar e preparar-se bem para testes e exames. Sabia haver um abalo em casa a cada nota baixa, por isso, de forma que veio a moldar o carácter, acostumou-se por temor ao conflito, a cumprir e a ser disciplinado. Seria de questionar a razão do irmão mais velho não ter percorrido o mesmo caminho, mas a resposta está, como parece estar sempre, na natureza de cada um e nas circunstâncias que a moldam. Resumia-se ao feitio mais confiante do Rui Jorge e à natural complacência perante a forma leve e descomplicada de ser. Por ser extrovertido os pais achavam seria bem-sucedido e, por isso, gozava de maior liberdade. Ao contrário, o Carlos Alberto era pouco expansivo, gostava de passar pelos pingos da chuva, salvo numa circunstância, a jogar o que fosse, mas sobretudo, a jogar futebol, desporto no qual era francamente bom na posição de extremo-esquerdo. As rápidas arrancadas e domínio de bola eram reconhecidos por todo o liceu, e o seu maior motivo de orgulho. Mais do que as boas notas; essas nunca foram razão de popularidade. Os feitos no futebol tinham o condão de o transformar no menino querido das raparigas, a quem, como não podia deixar de ser, sempre recorriam em vésperas de testes.
O corpo bem esculpido do Carlos Alberto, o ar precocemente másculo dado pelo peito, braços e pernas suavemente musculados, as camisas bem engomadas e o olhar dengoso atraíram a Ana Paula, que a pretexto de muito estudo em conjunto, se foi aproximando e conquistando. Entraram no início do segundo trimestre, no ano de 1982, casal de namorados, e ao fim de poucos meses, tudo neles se assemelhava a um casamento. Um casamento miniatura. Ela parecia ter nascido para o papel de companheira dedicada e zelosa. Palpitava sobre o vestuário do namorado, indicando sempre peças do último grito da moda. Cuidava das suas gripes com esmero. No intervalo iam ao bar comer o bolo e beber o sumo e olhavam enojados os colegas a saborear pão com fiambre ou queijo, cujo paladar odiavam. Sobretudo estranhavam o sabor de queijo e reclamavam do cheiro, apesar de se tratar da mais vulgar barra de flamengo. E o almoço na cantina era momento ímpar de revelação da sintonia de modos do casal. Desdenhavam de quase todas as refeições, pondo em causa a quantidade de alimentos e qualidade da confecção, apesar do esmero e arte da belíssima cozinheira da escola secundária. Pouco habituados à variedade de pratos e temperos e de paladar desconfiado, eram dos que mais criticavam a comida na escola. Entendiam-se bem, e nem os reparos dela quanto aos modos à mesa do Carlos Alberto o demoviam do assombro sentido por ela; aos olhos dele, a verdadeira princesa que o ensinaria a comportar-se como um senhor, apesar de ela não ter noção do modo de estar à mesa entre gente civilizada, a que se referiam como gente da alta. Faziam questão de deixar sempre resto de comida no prato; achavam de bom-tom.
A cumplicidade fazia-se também da admiração mútua. O Carlos Alberto babava só de observar a exuberante namorada. E ela gabava a sua beleza e destreza no campo de futebol diante de todos, inchando-o discretamente. A namorada possuía sobretudo a arte muito própria de algumas mulheres, a da duplicidade. Conhecia bem o carácter reservado dele e a aversão aos excessos de intimidade diante dos outros, fossem colegas, amigos ou familiares. A sede de protagonismo, predispunha-a a conversas intermináveis com amigas, nas quais narrava à exaustão pormenores da vida íntima e privada do casal. Na presença dele mantinha-se imperturbável, como se houvesse cumplicidade de reserva de intimidade, tão cara ao Carlos Alberto e à maioria dos homens e mulheres providos de dois dedos de testa. Mas isso eram pormenores que passavam ao lado da Ana Paula. Achava a dissimulação vital à relação e assim se manteve durante os três anos do namoro. E assim se manteve ao longo dos dois casamentos. Sempre esteve sintonizada à apregoada emancipação feminina das revistas cor-de-rosa, que ainda aos dias de hoje, continuam a aconselhar as mulheres a partilharem segredos com as amigas e a dissimularem face aos companheiros. Muito estranho, pensava a Margarida. Se a humanidade resulta do encontro entre homem e mulher, é desejável que, esse sim, seja aberto, livre e franco. Aí estaria a emancipação, presumia a narradora, sempre espantada com a busca da abertura de espírito fora da relação. A ignorância do Carlos Alberto quanto às animadas conversas da namorada permitia que corresse tudo bem no casal. Também ele sofria de peculiaridade que escapava à namorada. Face a comentários ordinários ou acções de mau gosto comuns entre alguns rapazes, em especial dos engraçadinhos do liceu, o Alexandre e o Sérgio, nunca foi capaz de se demarcar afirmativamente. Não as tinha, mas presenciando tais atitudes nos amigos, nunca as reprovava, limitando-se a dar risadinhas por medo de rejeição pelo grupo e sobretudo por medo de ser apontado de totó, a ofensa comum aos adolescentes tímidos. À volta da mesa de bilhar, onde mais uma vez demonstrava ser exímio jogador, muitas vezes pediu a Deus abrisse buraco no chão para não ter de ser confrontado com insinuações de paneleirice, tal era a falta de jeito para referir-se às raparigas de uma forma menos delicada. Mais tarde, percebeu que tanta fanfa de alguns amigos, não passava disso mesmo. Nas palavras do Oliveira, de quem se tornou grande amigo, muita parra e pouca uva.