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10/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Quem Somos - 11 (continua)

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       E agora? Pensou a Margarida, recostada na cama e computador sobre o tabuleiro almofadado apoiado na barriga e nas coxas, depois de dezenas de páginas de apresentação dos personagens, conforme o cânone dos romances, deveria seguir-se a descrição do decurso normal do tempo e espaço, antes do rompante, da entrada da circunstância que vai definir a enredo da história. O Vicente dormia ao seu lado, hoje longe dos pensamentos da narradora, que aproveitou este momento de solidão para terminar a primeira parte do livro, e reintroduzir-se na história.


       Filha do João e da Constança, casal peculiar. Agora reformados, ele trabalhara a vida inteira numa gráfica em Vila Nova de Gaia, ela como administrativa numa empresa de vinhos. Quando nasceu, em 1966, já os pais tinham tomado a mais lúcida decisão das suas vidas. Viver da forma mais despojada possível. De forma peculiar, antecipando o movimento hippie, resolveram não viver como os pais, irmãos, primos e amigos. Daí resultou no afastamento das origens e numa vida nova criada à medida dessa vontade de liberdade. Independência que não se fez à custa dos lugares comuns das calças à boca-de-sino ou das saias cumpridas, ou em punhos erguidos, da coreografia de slogans ideológicos, sequer de verborreias vertidas na imprensa em busca de lugar de destaque na democracia que se avizinhava. A escolha, apesar de militante, não representava a adesão a qualquer ideologia. Decorria tão só do tempo vivido e da forma crédula e sã de encarar os problemas da sociedade e do país. Nascidos no Porto e Lisboa, na década de quarenta, oriundos de famílias chiques em decadência económica, chocava-os a forma desligada da realidade como muitos dos familiares e amigos viviam. Desfasados da realidade. Ouviam vezes sem conta loas à sua condição. Não se tratava de apregoar valores de forma vã, como muitas vezes se critica de maneira fácil e errada, mas tão só de fazer a defesa da linhagem e da forma de estar. O João crescera rodeado de fanfarronice. O carácter, o comportamento ou as habilidades da sua gente eram motivo de gabarolice, e o elogio fácil surgia entre pares sem qualquer critério de verdade. Ouvia-os dizer barbaridades, estupefacto. O primo era o melhor tenista português, o tio fora o melhor piloto de automóveis a correr nos anos dourados, a irmã a melhor dançarina nos bailes do clube, o amigo o melhor aluno de sempre da faculdade de economia, e o tio-avô o mais brilhante professor de medicina de Coimbra. Ainda que o primo nunca tivesse defrontado os tenistas realmente premiados, o tio estivesse habituado a ficar desclassificado ou, na melhor das hipóteses, nos últimos lugares na corrida da Boavista, a irmã dançasse benzinho, mas incomparavelmente pior do que as irmãs mil-flores, graciosas e elegantes, o amigo tivesse sido tão bom aluno quanto as outras centenas de alunos que ao longo dos anos acabaram o curso com média de catorze, e o tio-avô tivesse sido daquele tipo de homem impreparado e entediante, que faz justiça à graça antiga de haver homens tão imprestáveis que só podem dar em lentes. Rapaz de sensibilidade, o João reparou, desde cedo, que o sentido de pertença e orgulho entre os seus decorria não raras vezes da mais pura das mentiras ou de tiques e maneirismos próprios de qualquer tribo, no caso, da tribo de pessoas civilizadas. 


       A Constança veio viver para o Porto, poucos meses antes de conhecer o João. Fugira da tragédia da vida em Lisboa. A mãe, Benedita, apesar de ter sido poupada, no tempo de meninice, àquele tipo de tontearias, por ter nascido numa família mais sóbria, partilhava com o marido da filha a redoma onde crescera, o escudo defensor de ínfima parte dos portugueses. Representavam pequena parte da população portuguesa. Classe altamente privilegiada, constituída não apenas por gente riquíssima, como também por famílias bem instaladas há várias gerações, e mesmo por quem já perdera os haveres, mas não o pedigree. A avó da Margarida nada e crescida no Porto, era rapariga resolvida e bem-disposta, a mais nova de uma prole de seis irmãos e a até aos dezassete anos a sua vida fez-se entre um bom colégio do Porto e as variadas casas de gente elegante ou bem instalada da cidade e do país. Entre festas e outros encontros a avó fora criada num mundo de muitas dezenas de familiares e amigos. Vida riquíssima em relações. Havia gente, havia gente com histórias e alguns com História. Nessas reuniões usava-se conversar. Por isso, sabia da vida de centenas de pessoas. Conhecia as alegrias e tristezas, as glórias e as calamidades. As verdades e as mentiras. Prodígio da sua época, a Benedita era uma extraordinária aluna, e aos dezoito anos, num tempo em que poucas senhoras concluíam o liceu, e raras ingressavam na universidade, foi para lisboa fazer a licenciatura. Ficou instalada em casa de primos e em 1940 completou o curso de Filologia Clássica. Lá conheceu Estevão Almeida, o futuro marido. Um daqueles homens bonitos, sedutores e muito faladores, que ao primeiro contacto deixam óptima impressão, à segunda a dúvida se serão de facto atraentes e à terceira a constatação de se tratar de pavões sem bondade nem interesse. Ainda assim conseguiu enfeitiçar a curiosa Benedita que, nos primeiros anos, escrevia poemas a descrever a beleza e alegria do marido. Ainda levava da meninice a candura e a determinação, mas se até então fora poupada à bazófia, depressa se desiludiu. O marido, escrevente no Ministério dos Negócio Estrangeiros, afirmava-se lisboeta de gema, sendo a gema um mesclado de genes minhotos, beirões e algarvios, que o próprio se esfalfava a dissimular. Não fosse saber-se da avó de saia redonda e arcadas minhotas, vinda para Lisboa trabalhar como criada de dentro na casa dos comerciantes de fazendas de lã, tecidas na Covilhã, na fábrica de lanifícios na qual o avô era intermediário e transportador. E feitor das descargas da mercadoria para venda do ano seguinte. Numa delas, o avô encantou-se pela bela Alzira, sempre pronta a dar achegas na loja e, esperta como um alho, aproveitar para saber novidades. E, uma vez casados, fixaram residência em Lisboa, fazendo pequena fortuna que transformou os dois rapazes em apetecíveis partidos de meninas bem-educadas e de nomes sonantes, fugidas à pobreza do Algarve. Um deles o avô da Constança, que não herdara dos pais o jeito para o negócio, e por isso mesmo, desfez a fortuna ainda o filho Estevão era um jovenzito perdido ou encontrado à noite, a deambular pelas ruas de Lisboa na companhia do irmão um pouco mais velho, em busca de tascas onde se pudesse beber e ouvir fado, ou ocasionalmente nas bancadas das touradas. E, não raras vezes, a envolver-se em rixas, fazendo valer a bravura, que dizia ter herdado do general, cujo nome ninguém ouvira falar, mas a mãe dissera ser o mais nobre avô algarvio. Anos mais tarde, a Benedita, quando o marido invocava tão nobre senhor, delirando da nobreza e ilustração dos antepassados, perguntava onde podia ir depositar a coroa de flores ao general desconhecido. Enfurecia-o, como era de esperar e lá seguia ele para mais uma noitada de farra e boémia, muito fado e revista. Sem falsos pudores, a Benedita dizia que fosse ter com as coristas e fadistas e que por lá ficasse. Vai lá para as tuas piegas brejeiras, dizia de forma seca e sem admitir réplica. O que mais queria, é que a deixasse em paz. A falta de erudição e mundo do marido foi o maior desgosto da sua vida e viria a determinar o triste fim. Ao fim de dez anos de casamento a avó da Margarida já se limitava a passar os dias sentada na senhorinha a ler e sonhar em regressar ao Porto, volvidos quinze anos, já pouco lia e só suportava o marido à terceira vodka, e passados vinte e quatro anos deu o tiro na cabeça pegando na arma que ele guardava na papeleira do tetravô Afonso, o pai do general desconhecido.


       O episódio aconteceu aos dezanove anos na Constança; dois meses depois decidiu sair de Lisboa e vir viver para o Porto, cidade de toda a família da mãe. Cortou relações com o pai e irmãos, dois rapazes que insistiam em tratar a Benedita como louca. Nem pai, nem irmãos quiseram alguma vez saber os motivos dos destemperos da mãe, a razão de ter começado a beber já depois dos trinta, de ter principiado a desligar-se do quotidiano. Cortou relações, não ficando a assistir à vulgaridade e falsa civilidade do pai e irmãos, que continuaram a adorar a vida nocturna lisboeta, a que começaram a chamar vida cultural. Casas de fado a perder a má fama e revistas com pretensões a teatro. Mas ao contrário do tempo da juventude do Estevão, agora passavam por dificuldades, o que não os impedia de continuar a levar vida de aparente fausto e de se apresentarem trajando fatos de corte primoroso nos vários eventos festivos. Circunstância a que não era alheio o facto da nova senhora da casa, segunda mulher do Estevão, ser uma das responsáveis pelo guarda-roupa do Parque Mayer.


       A casa que a Constança deixou para trás, no fatídico ano de 1965, restava pouco da adorada mãe. Restavam os livros da salinha, em rigor, a única coisa daquela casa que trazia saudade. E a dor diluiu-a com a Margarida, nas muitas conversas entre mãe e filha, que aprendeu a gostar dessa avó que não conheceu, mas de quem parceria ter herdado alguns traços de carácter.


       Pouco mais de um ano após a chegada ao Porto, a mãe da Margarida começou a trabalhar numa cave de vinho do Porto, tendo de enfrentar no trabalho aquilo que conseguira evitar na sua nova casa, unindo-se a um homem inteligente. Outra vez, a presunção de gente de grande preguiça mental. No escritório dava andamento administrativo às encomendas do mundo inteiro. Nada que não lhe agradasse não fossem as agressões permanentes e presunção da pispirreta e do pequeno sócio da empresa, seu marido. Casal absolutamente anedótico; ela aprendera a usar discurso articulado em conversas de circunstância, cujo teor se resumia ao arrazoado de baboseiras a rondar invariavelmente empregadas, compras, vestidos e dinheiro. Instalada desde criança no dinheiro, que começou a jorrar quando o pai teve sucesso na fábrica de solas que ergueu, fez-se sujeita sem educação e sempre interessada no mundo chique, que mimetizava à exaustão. O marido primava por exibir ar de superioridade que achava decorrer da árvore genealógica, não percebendo que ser civilizado mais do que adquirido de nascimento é exercício para a vida. Ter nascido no seio de família há várias gerações bem instalada, ao invés de criar este pedantismo, deveria originar obrigação moral de respeito pelos outros. Nunca o percebeu. Assim se entende que a Margarida não tivesse grande simpatia pelo filho desde casal, da mesma idade e colega de Liceu, Tomás. Percebe-se a irritação permanente com a presunção de superioridade. A incapacidade de ver a sabedoria no próximo quando se olha do cimo de suposto degrau social; a dificuldade em reconhecer conhecimento, talento ou simplesmente bondade em quem não faz parte dos pedestais enviesados pela ideia de superioridade económica, social ou intelectual. Chateavam-na as estátuas encrustadas de vaidade.


       Ainda estava a aprender a ganhar a serenidade dos progenitores. Senhores de ideias e sentimentos bem arrumados, entendiam-se de forma tão ordenada como as estações. A Constança desanuviava, degustando a ironia na cumplicidade do marido. Escrevia na vontade de provocar o traço firme e gentil do João, que apreciava os concisos registos da mulher, reunindo-os no pequeno e bem iluminado escritório do anexo, onde produzia as ilustrações e punha a leitura em dia. No fundo do jardim vivo e alegre, que mantinham tão bem tratado quanto as Comezinhas, havia ânimo. Cuidavam do seu jardim.