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04/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Quem Somos - 4 (continua)

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       Quando o Vicente acordou, chamou-o para dar parte do incremento na história, e em resposta, entre bocejos, teve a seguinte observação: okay, tens um primeiro retrato verossímil mas, tal como contas histórias ao jantar, esqueces-te do enredo e atiras de chofre a personagem; tens de as deixar crescer por si próprias e parar de as descrever. Além disso, despachaste quatro tios da personagem em meia-dúzia de linhas, continuo sem saber como a Ana Paula conheceu o Pedro, e mais, mantenho que sem enredo não constróis um romance. A narradora ripostou que estava destinado que ela iria conhecer um primo do Tomás, chamado Pedro, e se encantaria pelos olhos claros e cabelo loiro. Interrompida pelo franzir de sobrolho do Vicente, logo desperto para a criação atabalhoada do elo. Conhecia a Margarida e sabia da dificuldade em encurtar razões e deixar a nu enredo rectilíneo. Todas as histórias tinham atalhos e entalhos e era difícil pegar na ponta e encontrar o fio condutor. Mas ela insistia: vai ser o primeiro casamento e vai durar apenas um ano, porque a Ana Paula não é menina para se sujeitar ao jugo de um homem que não a entende, nem respeita. Pela primeira vez via a namorada a referir-se àquela divisa da modernidade de forma tão afirmativa, senão mesmo elogiosa. Prometia. Sabia levantar voo a cada passo e, a páginas tantas, já não percebia quem mandava. Isso sim, dava verdadeiro gozo ao namorado, que delirava ver a Margarida fora de si. Percebendo que ele topara o deslize na tarefa de desconstruir a Ana Paula, trouxe à baila o retrato físico, que sempre entusiasmava os homens, e o Vicente em particular, apesar de saber que ele contestaria o erro grave de servir retrato físico de supetão.


       A personagem principal é agora, ao tempo das entrevistas televisivas, mulher de meia-idade da nova era, de estatura média e corpo bem feito, de andar decidido, mas pouco gracioso, por ser brusco e ruidoso. E de rosto insosso, apesar de sempre retocado com maquilhagem e ladeado por cabelo bem alinhado, de cor variável da L’Oréal. Tais cuidados não a conseguem converter numa mulher bonita, mas dão ar vistoso e apelativo. Muito coquete, varia bastante de fatiotas caras e dentro dos padrões de moda provando a felicidade e o amor-próprio, regados desde criança pela adoração e dedicação dos pais.


       Casal humilde e pouco instruído de operários na centenária fábrica de conservas Brandão Gomes, noutros tempos fornecedora da casa real. Grande empresa alargada a outras cidades com porto de pesca. A Ana Paula crescera a ouvir histórias, que achava entediantes, do período em que as conserveiras não se limitavam à sardinha e ao atum, mas a muito outro peixe, marisco, caça ou legumes. Como dizia a mãe vezes sem conta: a nossa terra deu nome ao molho. Falava da mistura de azeite, vinagre, mostarda e pickles, a que a fábrica chamou Molho de Espinho. O casal levava quotidiano modesto e certinho e tinha grande objectivo, dar vida melhor à filha. A mãe, Armanda, não saiu de Espinho até aos anos oitenta, senão nas duas ou três excursões a Viana do Castelo e a Fátima. O pai, Casimiro, conheceu apenas Moçambique por lá ter cumprido o serviço militar entre 1964 e 1965. Apanhado logo o início do conflito armado com os independentistas, no norte de Moçambique, encarou o regresso vivo, uma bênção de Deus, não arriscando nunca voltar a por pé que fosse fora Portugal continental. Não gostava de falar desse tempo, não falava de camaradas, de tragédias, de violências, nem de aventuras. O rosto fechava-se sempre que se falava em Moçambique e quem estava junto dele, acabava por perceber. Devia mudar de assunto. Homem de bom trato, apesar de básico, a conversa em casa circunscrevia-se a pequeno leque de temas, o trabalho na fábrica de conservas, as tais referências aos velhos episódios galgados de geração em geração de funcionários, o prosaico desdém pelo espertalhaço do chefe de secção, o carro e os bens do patrão e da sua família, a comida, o futebol, os vizinhos, os conhecidos, a vida transparecida e os atritos com os familiares.


      O centro das atenções, naturalmente, a menina. Mimadíssima desde sempre, além de filha querida era o cavalo de corrida que os progenitores queriam ver vencer. A aposta da sua vida. Nada poderia faltar. Passaram os primeiros anos em cima da criança. O mais ouvido à Armanda eram os cuidados com a menina. Ai, Casimiro, agora não posso dar-te atenção, a menina está a chorar; ai, não vês que a menina tem fome; ai, Aninhas tem cuidado, podes cair; ai, gente malvada que a menina pode ficar triste.


      Sonhavam para a Aninhas a vida das meninas do senhor doutor, a Carminho e a Leonor. Duas raparigas sempre primorosamente vestidas, podiam confirmar, mas a quem estranhavam ver crostas nos joelhos das várias quedas das bicicletas ou das árvores. Ouvia-se, aliás, dizer à empregada da casa que, quando iam à quinta, era usual chorarem tempos infindos sem que os pais, os tios e os avós ligassem peva, tal o tamanho da casa onde passavam os verões, e a frieza daquela gente. Dizia a Olívia à dona Ermelinda, dona da mercearia, que as meninas estavam horas a chorar no terreiro da casa, ou numa das muitas salas, sem que a família desse por tamanha tristeza. Os desgostos infantis passavam pela injusta divisão do tempo na volta da bicicleta entre primos, pelo excesso de mimo dado à mais nova das irmãs, ou pior, a cruel vitória na corrida do primo das pernas compridas ou finalmente, o abandono em casa, pela mana e a prima, idas à loja do Belmiro comprar biscoitos. Maldades insuperáveis, que criaturas de oito ou dez anos não deviam ter de suportar. Família malvada, dizia a dona Ermelinda à boa Armanda, que sentia ainda mais compaixão pelas pobres crianças ricas.


       Aos olhos da Ana Paula e da evidência, apesar de tudo estas raparigas gozavam vida melhor do que a dela, mas sem ter aprendido magoar-se, a perder e a lidar com a frustração, achou vir a ser igual ou melhor, fosse isso o que fosse. E, por força da ambição, saberia vir a vestir como as meninas do senhor doutor, aprenderia a falar fino, empregando todas a palavras das pessoas abastadas e, também ela, viria a ser doutora. Da quinta prescindia; era uma menina da cidade, e essa coisa da terra coisa de gente antiga e tosca.


       Sem estímulos à imaginação e à criatividade a nossa Aninhas, assim lhe chamavam em pequena, foi criança crescida e doía ver como não a entretinha a beleza de desenho animado de paragens longínquas no qual prevalecesse a excentricidade e a camaradagem, por não reconhecer nem o cenário nem a linguagem da lealdade. Não se divertia no espectáculo de circo de saltimbancos, trapezistas, malabaristas, palhaços e leões, que pareciam todos ladrões sujos a viver em barracas. Mal empregue dinheiro dos bilhetes gastado pelos pais. E, vivendo junto à praia, também não gostava de rebolar na areia porque se sujava. Nem gostava de subir às árvores porque podia rasgar os vestidos.


       Mas alinhava nos joguinhos triviais e aí mandava. Armada em senhorita, o sumo das brincadeiras da pequena Aninhas, a jogar o que fosse, passava sempre pela maledicência. Na macaca, achava invariavelmente que a adversária pisava o risco e duravam dias os cochichos e acusações de batotice, e os comentários sobre a burrice ou fealdade ou outras imperfeições ocorridas à nossa miúda caprichosa. Na apanhada a coleguinha do grupo que ela ordenava ficasse na contagem contra a parede era sempre aquela a quem só ela via a professora ajudar mais, e afiançava, filha de casal de ladrões. E, no lencinho, toda a equipa devia blindar a rapariga veloz, uma sebenta fedorenta. Sabia-o porque viviam em casas contíguas e assegurava nunca ter visto roupa interior no estendal de casa. Estas pérolas de mexeriqueira de bairro valiam algum ascendente sobre as coleguinhas, que não faziam contraponto, por medo de contra elas se virar a calúnia e a má-língua fulgurante. E assim foi formando o carácter vazio, os interesses e o seu futuro.


       Na adolescência passou aos jogos de cartas, e por razões incompreensíveis, nunca foi boa jogadora, por não conseguir contar as jogadas. Longe de ser desprovida de esperteza, seria de esperar que percebesse que caso fizesse a contagem das cartas jogadas nas rodadas, saberia a melhor saída para ganhar. Mas nunca o conseguia. Talvez por distracção, talvez por maior atenção aos pormenores irrelevantes da mesa de jogo, talvez por desinteresse. Não se sabe. Na realidade, passava boas horas na conversa, a pretexto do jogo. Curiosidade deste entretém era a bulha da Marta Soares, habitué destes jogos. Logo na primeira vez em que se sentaram para jogar no canto do polivalente do liceu, perguntou, após terem escolhido o jogo: como é que vocês jogam? Com dama valete ou valete dama? E maninha ou sete? Os outros perderam-se em comentários do tipo tanto faz, e a Marta sobrepôs a voz, dizendo: as regras têm de ficar definidas logo no início do jogo para antecipar mal-entendidos. Se cada um de nós jogar com regras diferentes vai dar problema no fim, esclarecia. A Lara chamou-lhe sargenta, desconfiou da seriedade da picuinha. Achava que a chata devia querer disfarçar alguma batota. A Lara vivia no mundo das teorias da conspiração. Mais tarde viria a disfarçar tomando-se por criativa. Nunca lhe ocorreu que até as brincadeiras e os jogos têm regras. Na realidade, estava enredada em desconfianças e manias da perseguição, calculando sempre que os outros agiam com segundas e terceiras intenções.


       Usualmente jogavam à bisca e sueca. Mas quando o colega Luís alinhava no jogo, além destes, tentavam outros como o king e a canasta, passando o sete, por mais bonito seja o número, à normal posição de entremeio entre o seis e o oito, em vez da manilha. E o valete à condição de subalterno da rainha, de onde nunca deveria ter saído. Da mera acumulação de vazas, com ou sem trunfo e truques, da bisca e da sueca, passavam nestes jogos mais sofisticados, como o king, à diversidade de jogadas que incluíam festas de cada jogador, que podia decidir ir para negativos. Ou, na canasta, aberta depois de um dos jogadores baralhar e o outro partir e tirar a marota, e destinava à acumulação de cartas iguais dos dois baralhos, para formar as ditas canastas, às quais se juntavam flores. Quando eram muitos, jogavam ao eleven, no simples intuito de criar sequências ou trincas, e variações entre sete jogadas. Todos estes jogos, os habituais e os introduzidos no liceu pelo Luís, tinham o condão de ajudar os jogadores ganharem traquejo na contagem. O Tomás poucas vezes foi à mesa do jogo, logo tentou introduzir o bridge. Sem sucesso, fosse pela falta de jeito a explicar regras e objectivo do jogo, fosse pela incapacidade de alinhar nos jogos mais vulgares, que insistia em apelidar de parolices. E, claro, pela má vontade demonstrada pelos coleguinhas em aprender o que fosse vindo do presunçoso.


       Se nos jogos de cartas não saía vencedora, como estudante o caso mudava de figura. A Ana Paula era boa aluna, habituara-se a estar concentrada nas aulas e apreendia facilmente vocábulos estranhos ao seu mundo. Rapidamente os integrava no discurso, ainda que nem sempre com sentido de oportunidade. Gostava particularmente das disciplinas na área das línguas e dedicava horas a fio aos compêndios escolares. Na memória, reteve as longas discussões nas aulas de francês e inglês sobre o conflito de gerações; aulas enriquecidas com recurso a rudimentares meios audiovisuais. Por iniciativa da professora, ouvira e animadamente cantara em coro a música Father and son, de Cat Stevens, numa famosa lição de inglês, na qual se discutia a dificuldade de comunicação entre pais e filhos, educadores e estudantes, tendo ela própria testemunhado diante da turma, o quão difícil era viver com pais pouco instruídos e antiquados, fazendo-a sentir-se só e incompreendida. Tema na sequência da qual o grupo de estudo achou por bem apresentar o trabalho final de ano ao som de Another brick in the Wall, dos Pink Floyd.


       Advinha-se serem as aulas de história o calcanhar de Aquiles da Ana Paula. O passado, tudo quando estava carcomido pelo tempo, parecia distante e denso. Faltava a expectativa, as borbulhinhas da novidade e o desenlace da intriga. Tudo era nebuloso e enredado em momentos remotos, sem aparência de ter princípio nem fim. Nunca percebeu o interesse de saber como se vivia nos séculos anteriores, sequer nas décadas anteriores. Nem sabia como se vivia no tempo dos avós. Apesar de os conhecer bem, nunca lhes ouvira contar grandes coisas do passado. Reteve dois factos. Não havia electricidade em casa dos avós, quando mais novos, e os pais compraram a primeira televisão quando ela tinha cinco anos. Conservava vaga ideia desse dia. E quando confrontada com o desconhecimento em matéria de história de Portugal ou universal, atirava a banal gracinha: como havia de saber se não era nascida. Não era graça de estranhar; fartou-se de ouvir dos professores argumentos do mesmo calibre em contextos diferentes. Cresceu no tempo em que cultivar a ignorância parecia corresponder ao programa do ensino e da vida em geral. Estava habituada a ouvir dos professores de matemática não lhes ser exigível soubessem escrever, ou aos de letras não terem obrigação de fazer cálculo ou reduções, ou encontrar áreas. O argumento era o de essas coisas, de escrever ou contar, não serem da sua área de formação. Apesar da agilidade mental, das óptimas notas a matemática e boa prestação na parte lógica dos testes psicotécnicos, que valeu o conselho para escolher ciências, no décimo ano ingressou no curso de humanísticas.