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13/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Aconteceu - 15 (continua)

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         A 2 de Novembro de 2014, a Entrevista retrocedeu aos anos de 1984 e 1985 e o grande tema esmiuçado foi a saúde frágil da protagonista e os meses difíceis por que passou. Em Dezembro de 1984 adoecera. A entrevistada teve oportunidade de contar pela milésima vez, agora perante audiência de milhares, o quão difícil foi sofrer de uma doença estigmatizante, e como havia, à época, preconceito contra os portadores do vírus da hepatite. Recordava a vergonha de outros doentes e do modo como escondiam a sua condição, com medo de serem alcunhados de promíscuos. Já ela desafiara os tabus contando a todos padecer de hepatite A, recordava a admiração das amigas ao conhecer seu drama e de como deu a volta por cima, fazendo da sua história de vida exemplo inspirador para outras pessoas.


       No restaurante, a Margarida e a Helena trocavam olhares divertidos enquanto os rapazes desfrutavam do pratinho. O Carlos Alberto faltara ao jantar semanal, alegando ficar uma fortuna percorrer Lisboa-Porto todas as semanas. Os quatro estavam mais livres do que nunca. O Luís comentava não haver vivalma no Liceu, nos idos anos oitenta, não soubesse do estado clínico da Ana Paula. O Oliveira, pragmático, dizia: verdade seja dita, não era só o clínico, não havia quem no Liceu não soubesse os estados de alma da Ana Paula, e se houvesse ela tratava de pôr cobro a isso. As raparigas traziam à memória a Enciclopédia de Saúde da Reader’s Digest, na qual, a maioria dos adolescentes curiosos com acesso a livros se tinham ilustrado quanto a todas as nuances das hepatites e outras enfermidades. Fora, por isso, com ironia e sem perplexidade, habituadas ao pioneirismo da Ana Paula, que a ouviram falar da admiração e confusão provocada, na altura, nas amigas.


       Foram as Soares, antes mesmo dos médicos, a elucidar a Ana Paula quanto ao prognóstico e, sobretudo, foram elas a desmitificar causas, pondo-a à vontade. Contaram que a doença havia sido diagnosticada quatro anos antes à filha de uns conhecidos dos pais, que viviam em Santarém. A rapariga tinha quinze anos e possivelmente teria contraído o vírus, através da ingestão de alimentos contaminados. A Margarida recordava que a notícia não impressionara nem a Lara, ficando apenas preocupada com a saúde da Ana Paula, como de resto estavam todos os amigos. Por isso, achava graça à alusão na entrevista, por parte de uma das convidadas do dia, a mesma Lara, notoriamente em conivência com a visada, à injúria de promíscua, que alegadamente alguns colegas dirigiram à agora entrevistada. Na verdade, tais julgamentos não passavam pela cabeça de ninguém no liceu, preocupados com as próprias vidas e cientes da Ana Paula nada esconder. Mas ela e a Lara gostavam do tema. Nada que estranhassem a Margarida e a Helena. Bem se lembravam das histórias mirabolantes e como o tema sexo e, sobretudo, sexo forçado era fulcral no repertório das outras duas. Os cenários variavam entre ruas estreitas e perigosas onde asseguravam já tinham sido violadas raparigas da sua idade, e por onde a Margarida e a Helena passavam quase diariamente, só vendo escombros, lixo, débeis mentais e toxicodependentes, por assaltos, nestas mesmas ruas, de seringas contaminadas com o vírus da sida ou, simplesmente, por casas assaltadas em noites arrepiantes, que acabavam sempre com mulheres molestadas. A narradora trouxe à memória a pergunta que fizera à Helena, nesse ano de 1984, e cuja resposta a tranquilizou para a vida, afinal havia raparigas normais. Quando pensas na possibilidade de um assalto em tua casa, que mais te vem à cabeça e assusta? Que me batam. Que magoem o meu irmão ou os meus pais. De resto que levem as porcarias que quiserem, respondeu a amiga. Porquê? Acrescentou. Porque há gente que não percebe que os assaltantes querem é dinheiro e valores. A Helena percebeu e sorriu, rematando apenas: deixa, elas gostam de fantasiar.


       Mas as sensaborias de sensatez não rendiam audiência, pelo que os entrevistadores exploraram à saciedade os pormenores das dores de alma da Ana Paula nos seus difíceis dezoito anos. Ela contou ter perdido o ano, passando mais de cinco meses enfiada em casa, enquanto se tratava com descansos e a pouca medicação que podia tomar, aguentando estoicamente as febres, as náuseas e as dores musculares, aguardando a regeneração do fígado. O médico na altura disse-me que estive muito perto do fim. E deixando correr duas lágrimas pela cara, acrescentou: estive à beira da morte. Quando estamos frágeis vemos a força que temos. Nada nos derruba, se acreditarmos em nós mesmos, terminou.


       O tema deu novo fôlego às audiências da Entrevista, aumentando-as de modo significativo, em sequências de comentários nas redes socias, nas quais a dissecação das miudezas provoca variáveis de sentimentos bem reveladoras da natureza humana. Impressionados com tamanha bravura face à desgraça, uns revelavam-se seus admiradores. Outros, desdenhosos, destilavam fel. E a figura, agora sim, começava a ganhar força. Calculista o suficiente para não se deixar aquecer ou arrefecer com o que sobre si diziam, juntava os elogios e as ofensas, como peças pretas e brancas do mastermind. A solução estava ao alcance em poucas jogadas. Sabia-o. Astuta, achava que a combinação de cores daria sempre o mesmo resultado: inveja. A Ana Paula não considerava bem-sucedido sinónimo de estar bem consigo mesmo ou ser admirado ou amado, mas sim ser invejado. Cada vulto atrás do comentário nas televisões e redes sociais, do piar do Twitter, ou do post no blogue, do artigo no jornal, representava uma peça branca ou preta, a manipular, com a mesma dose de ardil. A combinação de amor-ódio era vital na escalada.