Pesquisar neste blogue

12/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Aconteceu - 13 (continua)

21599644_42ga1


       Para a entrevista de 5 de Outubro foi sorteado o tema escola primária. Perguntada sobre a memória do ano de 1974, a Ana Paula revelou precisar de se esforçar para recordar a sua vida aos sete anos. Andava na segunda-classe e a professora chamava-se Maria Amália e, às vezes, dava palmadas nas meninas que se portavam mal; nela nunca deu, porque não fazia asneiras. Lembrava-se que na sala só havia meninas e ouvia dizer à Helena que a professora do irmão era mais dura nos castigos; batia com a régua sempre pousada junto ao giz na estreita prateleira do fundo do quadro preto de ardósia. Eles estavam noutra ala da escola. Nos recreios também não se juntavam, adiantou a protagonista, contando da estranheza que foi quando na quarta-classe a turma passou a ser mista.


       No primeiro quarto de hora que durou a entrevista descreveu a sala de aula, os colegas e as brincadeiras. Seguia-se uma espécie de acareação em diferido e à distância. A equipa do programa gravara o testemunho da professora. Segundo o desenho do reality show que animou as noites do Outono de 2014 a professora podia trazer alguma luz sobre o que foi a vida da Ana Paula. Em cada dia, o programa era dividido em três partes de quinze minutos cada. Abria pela entrevista, seguiam-se os testemunhos do dia, e terminava com a discussão entre a concorrente e os entrevistadores. Sendo um fixo, o outro convidado.


       A professora Maria Amália, agora quase aos oitenta anos, acedeu a gravar o testemunho bastante relutante por motivo fácil de perceber, mas que foi escondido pela equipa de produção; ela mal se recordava daquela turma e da Ana Paula. Fora há quarenta anos. Mais de um milhar de crianças passara pelas suas mãos ao longo das quatro décadas em que deu aulas. Começou em meados dos cinquenta e assim se manteve até 1997, quando se reformou. Se a deixassem falar do que queria, falaria da paixão pelo ensino, pelo gosto em pegar em meninos e meninas de seis anos, ainda muito bebés, e fazer deles uns sábios, ensinando-os a desenhar as letras e a juntá-las sílaba a sílaba, até a palavra correr veloz, a contar pelos dedos e mais tarde contar de testa franzida pelo esforço da abstracção, a ajudá-los a ter regra e disciplina. Guardava na memória saudade a alguns alunos, sobretudo os muito curiosos e os que faziam perguntas difíceis. Um deles era o Leonardo. Lembrou-se a custo daquele primeiro ano de junção de rapazes e raparigas na mesma turma. A meio do primeiro trimestre, resolveu trocar os lugares e pôr na primeira carteira o Leonardo e a Helena. A junção natural e justa. Ambos mereciam ser deixados em paz pelos anteriores parceiros; dois bons alunos e sobretudo, educados e respeitadores. Mereciam. Quem não gostou nada da mudança foi a Ana Paula, que passou para a segunda fila. Era colega do lado da Helena desde a primeira classe e quando a professora comunicou a alteração fez perrice, deixando de falar à amiga durante dias por esta não se ter oposto. Disso se lembrava a professora; mais nada. Insistindo a produção em obter mais informações, a professora acabou por dizer que tinha ideia que a concorrente era boa aluna, cumpria o pedido.


       Com testemunho tão curto, a produção descobriu o Nelson, aluno da mesma turma. Perguntado sobre a Ana Paula, respondeu de imediato que se recordava que em 1976, na quarta-classe, foi a primeira vez que esteve na escola junto das raparigas. E lembrava-se de ter descoberto que as meninas estudavam as mesmas coisas. Até então, até porque era filho único e não tinha primas da sua idade, achava que as meninas não aprendiam a ler, escrever e fazer contas. Pensava que aprendiam costura nas aulas de lavores como a vizinha de porta, cinco anos mais velha. Pelo menos ouvira a mãe dizer que a menina era muito jeitosa nas lides de casa, pois pudera, andava no curso de formação feminina. Pelo que foi grande descoberta, saber que rapazes e raparigas aprendiam o mesmo na sala de aula. Da concorrente, dizia: a menina mais linda da sala, mas muito mazinha para as amigas. Lembrava-se do episódio da troca de lugares e de como ficou zangada por ser preterida. Um tanto encabulado, disse na entrevista: isto é chato para outra colega se estiver a ver o programa, mas o que mais chateou a Aninhas, é que ficou ao lado da Fernanda, que ela dizia que vestia roupa remendada. Nós não víamos essas coisas, porque todos usávamos bata, mas a Aninhas apontava essas coisas todas. Ela tinha manias de rica; não era, mas tinha as manias.


       Afinal acabaste por dar continuidade à entrevista, concluiu o Vicente após ler os dois últimos capítulos. A Margarida anuiu, abanando a cabeça e, vendo o olhar meio vazio do namorado, confessou: não me ocorreu nada melhor. Afinal de conta era a minha ideia inicial; até comecei o romance ou novela, ou o que isto é, pelo primeiro episódio do programa. Pois, mas depois mudaste de ideia e fizeste aquela entrada triunfal da Ana Paula no jardim da Espinho. Pensei que ias por aí, estranhou o Vicente. Sim, mas tu mesmo me disseste que expunha demais o que pensava sobre a evolução do país, desculpou-se ela. Sim, e? Insistiu ele. Desististe? Não me digas. Era a primeira vez que me davas ouvidos. Ela ripostou: farto-me de te dar ouvidos e tu não dás por ela. Mas quanto ao triunfo no jardim de Espinho, não desisti, vai passar a epílogo. Ele não conseguiu deixar de rir alto e acrescentar, contigo isso de escrever é um puzzle, martelas é um bocado as peças, sempre quero ver a paisagem final; aposto que vai haver nuvens na relva, e toupeiras no céu. Ora, aí está, comigo as coisas são menos convencionais, defendeu-se ela. Para o céu vou eu por te aturar estes anos todos. Sabes, na semana passada vi que ainda tenho muitas peças soltas e que isto não ata nem desata, por isso resolvi-me e ontem estive a escrever sobre o percurso das várias personagens. Hoje preciso de cosê-las à Ana Paula. Olhou à retaguarda e viu que já estava a falar sozinha, o Vicente zarpara. Ouviu-o já na porta de entrada do apartamento a dizer: devias ter-te aplicado mais nos lavores, afinal passas a vida de agulha e linha. Vou buscar pêssegos, devo voltar um dia.