
Ao princípio da noite de Domingo, dia vinte e oito de Setembro de 2014, a Mónica Carina, vencedora da última edição do reality show de serviço, depois do decisivo contributo de perante as câmaras ter revelado raramente usar cuecas e, a conselho da ginecologista, só a lavar com água, saía da estação segurando o cheque-prémio, enquanto a Ana Paula esperava à porta da sala de maquilhagem, a entrada na entrevista da sua vida. Candidatou-se e foi seleccionada para o desafio do novo formato. Durante três meses estará frente às câmaras, diariamente e durante quarenta e cinco minutos, a ser entrevistada e confrontada. Terá de apelar à memória e relatar os factos da sua vida. Os que sejam relevantes para os entrevistadores e os que forem sujeitos a escrutínio dos familiares, amigos, conhecidos e público em geral. A direcção prevê grandes audiências e orgulha-se de ter encontrado solução para a cada vez maior contestação por franja da sociedade quanto ao carácter degradante deste tipo de programas. Para fazer face às constantes censuras, o canal anunciou o enquadramento crítico e pedagógico das próximas séries. As regras do jogo são simples, o entrevistado terá de prestar provas diárias, contando o passado, previamente pesquisado pela equipa de canal. Será comunicado ao entrevistado com vinte e quatro horas de antecedência o ano ou o tema da entrevista do dia seguinte. O prémio final é de cem mil euros, sem recurso a votação do público, mas em função directa das audiências acumuladas dia após dia. Acabando de escrever isto, percebeu ter-se metido em alhada trabalhosa e foi-se deitar.
Resoluta e consistente, quando acordou na manhã seguinte, foi directa à mesa do computador, pensou uns minutos e apagou do ficheiro word o nome Entrevista, abrindo outro chamado Ana Paula, onde começou a escrevinhar a explicação que não pudera dar ao Vicente sobre a forma como protagonista havia conhecido o Pedro. Ainda não pensara nisso; lançou-se sobre o período do liceu, quando a conheceu, e também do Tomás, primo do Pedro. Alunas do Liceu em Espinho, do décimo ano, a Margarida de ciências, a Ana Paula de humanísticas, conheceram-se nesse ano de oitenta e dois, e apesar de pouca coisa as unir, a antipatia inicial ao Tomás era comum. Faziam parte da viagem de autocarro juntas. A narradora, vinda de zona mais afastada do Liceu, já costumava ir sentada. Tinha a oportunidade de ver a entrada da colega no autocarro, o modo obsequioso do motorista ao picar o bilhete e o ar decidido como se abeirava de um dos lugares da frente, que sempre arranjava e onde se sentava impante durante o curto percurso de duas paragens. Quando chegava a hora de sair, na paragem do Liceu, passava à frente fosse de quem fosse para ser a primeira. Tudo isto via a Margarida que, propositadamente, se deixava recostada no banco lá atrás, até se aproximarem os últimos. Só com a sua saída, o automático ruidoso das portas fechava.
À mesma hora, estacionava o carro escuro e lustroso, a que a Margarida não distinguia a marca e chamava genericamente carrão. Numa dessas manhãs, a Ana Paula, vendo a colega a sorrir irónica da chegada do Tomás no carro do papá, aproximou-se dela e disse: grandes vidas, não é? A narradora concordou, reforçando o sorriso. Foi o suficiente para a outra descolar em considerações sobre a gente como o menino, com a sorte de se sentar em rovers 600 ou volvos g40. Sim, a Ana Paula sabia as marcas dos carros do pai do colega e de quase todos os automóveis que se distinguiam, sobretudo, as marcas e os modelos mais caros, sonhando ter a sorte de vir a conduzir bólide de igual calibre.
O afortunado colega, rapaz oriundo de gente bem e quase abastada, seria sempre desdenhado, mas muito pretendido pela Ana Paula e algumas companheiras. Era comum encontrá-la junto das irmãs Soares, suas amigas, a perguntar de modo grosseiro onde parava o moço do sangue azul. Ora o rapaz não parava, estava, e sobretudo não costumava estar no mesmo sítio destas companheiras, que só o eram pela coincidência de estudarem no mesmo liceu. Os comentários e estranheza pelos modos do menino, deixavam antever misto de desdém e cobiça. O próprio ajudava ao fazer gala na diferença, ao desprezar todos quantos revelavam educação diferente. A escumalha, como catalogava mais de noventa por cento dos colegas. A Lara, amiga próxima da Ana Paula, surpreendeu-o numa dessas declarações na fila do bar do liceu quando, distraído do que o rodeava, repetia em surdina à companheira: essa gentinha põe-me doente. Na fila do bar, no intervalo grande dessa manhã de Dezembro, sussurrando à amiga que tentou catrapiscar durante dois anos sem sucesso, dizia que o liceu era povoado pela escumalha, essa gentinha que masca pastilha elástica de boca aberta, dá dois beijos e usa camisola interior. Assim mesmo. Sem rodeios. Sofria de todos os tiques de menino bem pouco inteligente. Filho do Gonçalo Levada-Seca, nascido numa família conservadora e tradicional de cinco irmãos, com dois anos de Coimbra a tentar concluir as cinco cadeiras do primeiro, até ser chamado ao serviço militar em Moçambique em 1962, de onde regressou em 1965, para poucos meses depois abandonar o curso de direito e casar com a Maria Amélia, já à espera do bebé Tomás. E sobrinho da tia Teresa, licenciada em românicas, e professora no liceu, do tio João, economista, a quem cedo calhou lugar de chefia na Salvador Caetano, conseguindo furtar-se ao serviço militar, por artes nunca explicadas, mas que passariam pelas boas relações dos pais no ministério da guerra. E dos tios mais novos Rodrigo e Bernardo, chamados à Guiné a Timor, quando deambulavam nas escolas comercial e industrial, ingressando, no retorno, no Banco Totta & Açores e no Porto de Leixões.
O sobrinho desta geração estava convencido ter o mundo aos seus pés e o mundo rendia-se bastante contrariado. Dono de pouco caco, não conseguia ganhar o respeito dos professores. Era considerado, desde cedo, salvo pelos muito distraídos ou pouco capazes, mau aluno. Mas a vida tem curiosidades que escapam à lógica e se o estudo afincado resultava em testes e participação nas aulas a roçar o medíocre, o previsível e permanente artifício das investidas dos pais junto dos professores, transformava a mediocridade em satisfaz mais, e não em bom, porque os professores não eram tão permeáveis como os pais desejariam. Pela Maria Amélia, a nota merecida seria sempre bom ou acima disso. Não conseguia acompanhar o filho nos trabalhos de casa, mas insistia que estudasse. Já o pai ajudava ocasionalmente a preparar lições sobre temas especiais, sempre apinhado de floreados, muitas certezas ancoradas na voz corrente dos meios académicos que conhecia pela breve passagem na faculdade e pelo convívio com família e amigos. Viviam de expressões decalcadas, que os estranhos não descortinavam, mas os mais atentos percebiam ser meras larachas de circunstância, sem outro interesse que não fosse o de manter conversa em sociedade e demarcar território de gente com pergaminhos. Gente que se toma por inteligente e culta. Para alguns meninos-bem valia o dito pelo tio bem instalado, ou primo professor universitário, juiz desembargador, médico, secretário de estado, advogado, arquitecto. Ou o alvitrado pelo amigo que ganha rios de dinheiro. Ou pelo sobrinho que está muito bem, em vias de chegar a cargo directivo na banca. A superficialidade, daí resultante, gerava situações embaraçosas a quem não escrutinava o ouvido. Tal como o pai, o Tomás era estimulado a contestar o que escutava em função de inclinações ou aversões entranhadas na voz corrente da sua tribo; mas não habituado a confirmar informação propagada por gente rotulada de inteligente. Engrenavam em discussões aparentes, nas quais prevalece o jogo de retórica e não o confronto de ideias. O que confere algum traquejo na arte do discurso, mas pouca valia em termos de conhecimento, perpetuando indistintamente factos e falsidades.
No caso especial do Tomás, Bizâncio será sempre pedra no sapato. No início do décimo-primeiro ano, a professora de português referiu-se à antiguidade de Portugal, nação de mais de oitocentos anos. O colega chamado Luís, que vivia no mundo bastante mais antigo e amplo, onde as várias civilizações do planeta eram pedaços de um todo de biliões de anos e o próprio planeta, pedaço de matéria a anos-luz de distância de outros planetas, estrelas e constelações, comentou: foi um instante. Sempre ufano, o Tomás chamou-lhe calhau analfabeto e exibiu-se. Naturalmente, estampou-se. Só o Império Romano durou mais, afirmou. Perante o olhar espantado da professora continuou, muito seguro: sim, Cristo viveu na época do Império Romano e o cisma só se deu no século XI. A professora paciente e, por sorte, de calibre diferente da maioria, pensou vinte segundos sobre o ouvido e percebeu a confusão do aluno entre o fim do império romano e o cisma do oriente, a separação das igrejas católicas apostólicas entre romana e ortodoxa. Disso deu nota à turma, e aproveitou para sugerir ao menino alargasse o seu mundo a Leste. O que nem a professora sabia, é que esta ou outras confusões, comuns a quem é mais difícil desculpar a ignorância, por ter disponível os recursos para a suprir, disseminar-se-iam, como pragas de sobranceria, por toda a sociedade, impondo-se sobre o silêncio de quem ainda tem a felicidade de ter dúvidas. O episódio não teria deixado grandes marcas, caso o Luís não se tivesse saído, no fim da aula: nunca me enganaste, és um bizantino. A Ana Paula e a Lara riram a bandeiras despregadas, sem nunca terem chegado a perceber o que era um bizantino, não voltaram a referir-se de outra forma ao colega Tomás. A Lara adiantou a hipótese de ter qualquer ligação aos bísaros de Trás-os-Montes, e tamanha a ignorância, assim ficou o reco bizantino, e passou a alcunha no liceu, naturalmente, odiada pelo próprio.