
Incluindo a grande mata contígua à nacional 1, feita não só de pinheiros resinentos de agulhas verdes e de pinhas mais decorativas do que frutíferas, e eucaliptos esguios e prateados, de perfume fresco a vida aberta, misturado em dias de chuva no cheiro abafado e original da terra húmida, não só de pinheiros e de eucaliptos da praxe, sentia a Margarida enquanto escrevia, mas também de carvalhos de folha caduca pequena e alongada e bolotas convertidas, noutros tempos e paragens, em farinha do pão, antes de serem alimento dos porcos, de plátanos de folha verde clara, de castanheiros de folha em feição de lança dentada e ouriços em mãos atrevidas e picadas, do salgueiro que só podia ser chorão, tal era a beleza requebrada das saias, e de todo o restante arvoredo, disfarce da casa e das tílias de folha dupla face, verde escuro do direito, verde prata no verso e, no Verão, o cheiro suave e adocicado do miúdo molho de flores amarelas, de rododendros que coloriam de rosa forte a primavera, combinadas com as primas em forma de arbusto, as azáleas; era feita também da falta de magnólias, cuja beleza frágil enchia outros invernos de delicadezas, já ali os meses frios eram agrestes e vingavam as japoneiras de folha perene luzidia, troncos gravados de amores impossíveis, camélias de diversos recortes e cores; feita também da nespereira perdida, e no Verão, da nêspera, o acre do nico de polpa consentida pelos caroços, colhida esticando o braço curto de criança, de ameixoeiras de pequenas delícias vermelhas por fora amarelas por dentro, mais amargas do que as dos pomares, as amarelas e as verdes caranguejeiras, causadoras de setembrites, e voltando a subir ao terreiro, do diospireiro coroa-de-rei frente à porta de sala de jantar, a advertir ali estar a tentação para os de fora, porque os de dentro se limitam a saber apreciar a beleza; tal como se fazia do despontar de malmequeres, de junquilhos amarelos, e de uma flor do tamanho destes, mas roxa e, ao contrário deles, de pétala aberta, cujo nome a Margarida não sabia, mas haveria de aprender antes de escrever o segundo livro; até lá teria tempo de descobrir o nome dos pequenos insectos laranja salpicados de preto, oblongos, que parecendo viver em permanente cópula, povoavam o terreiro, dando ar de praga aos passantes e, também, das pequenas flores de pétalas cor-de-rosa e olho amarelo, despontadas nos dias frios, em arbustos nus a ladear as rampas de acesso à casa; e descendo de novo aos pomares, a nogueira com nozes cobertas da membrana preta e viscosa que enegrecia os dedos, os figos pingo-de-mel da figueira solitária, e o leite deles saído ainda verdes, o cura cravos, e as macieiras das deliciosas bravo Esmolfe, acastanhadas à primeira trinca, e vá de passá-las pela corrente da de água da mina, das apetecíveis róseas porta da loja, apodrecidas na viagem ao hemisfério sul, das pé-de-boi, das mais vulgares amarelas sarapintadas de preto, dos sumarentos pipo de Basto, das ásperas reinetas, e outras já esquecidas, mesmo pelo Luís, a quem vinha a imagem do chão pejado delas, as que acabariam assadas no forno a lenha ou no doce de maçãs podres; e, no primeiro patamar, as pereiras, cujos frutos finavam cozidos, apaziguando barrigas envelhecidas, em contraste com as joviais laranjeiras e tangerineira, o essencial limoeiro e a limeira, razão da perícia e do método do garfo e faca para afastar as membranas brancas e, assim, desfrutar da mescla doce e ácida da lima; feita destas de outras árvores e de muitas videiras velhas, baixas estendidas em vinhas ou encarrapitadas em ramadas, com uvas para o lagar ou de mesa; e este todo, um todo imenso, transformava a quinta num idílio, onde cresceu o Luís, também aluno do curso de humanidades do liceu de Espinho.
Filho de casal insólito. A mãe de espírito livre e rebelde, a quem o cinto apertado da religião em vez de estreitar, transformou numa alegre contradição. Esclarecida, revelava laço desempoeirado à fé, podendo debater com teólogos matérias de espírito, dogmas e escrituras, enquanto punha a Santíssima Trindade a interceder por si e pelos seus. Faceta confundida, por muitos, como trapaça ou batota. Injustamente, porque é patente ser preciso acreditar para saber brincar com Deus. Achar haver humanos perfeitos e eleitos é contranatura e, por isso, contra a própria ideia de Deus. Maria passou parte importante da meninice a estudar fora de Portugal, em Espanha e na Suíça, e sendo viajada quando poucos viajavam, via no Paraíso, pequena quinta herdada, o porto de abrigo. Mais tarde, transformado no albergue da prole de cinco pedrinhas, como chamava aos filhos, e do pedra mor, o marido Miguel Pedra, era o ponto de encontro da imensa turba de parentes, afins e amigos. Lugar repleto de histórias de vida de uma família grande, entrecruzadas de forma peculiar, criando um mundo à parte daquele em que todos vivemos. Visto de fora, aparentava bastar-se a si mesmo, de tão rico, mas por dentro, reconhecia-se estar a sabedoria no tino em saltar fora e conhecer o que diferente e melhor tem o mundo de todos nós. E, assim, progressivamente, ampliar aquele micro-universo. O pai do Luís, na juventude, marialva da idade moderna, numa época que já não se montava a cavalo, vivia entre as paixões dos carros e das mulheres bonitas. Na verdade, esmerava-se mais nos carros do que nas mulheres, até conhecer a Maria, que o fez perceber melhor hierarquias e prioridades na vida. Os carros continuaram presentes e os ímpetos da juventude transmutaram-se no gosto pelo cinema e pela música. Épicos, de preferência. Antes de casarem, o Miguel Pedra, combateu em condições particularmente difíceis, numa batalha muito desigual em Goa, em 1961. Amargo de boca para o resto da vida de um patriota, que se viu entregue à morte, ao lado dos camaradas, para regressar ao país sem honra nem glória. Voltar ao país decadente, metrópole do império em vias de colapsar.
Aos olhos do Luís o pai era um inventor, daqueles sobre quem os próprios e os entes queridos acham que virá o dia de se tornarem célebres pelas suas criações. Cresceu a ver o pai desenhar geringonças perfeitas. Em dias, meses e às vezes anos de cálculos de sobrolho franzido. Na verdade, o ganha-pão do pai resultava de ser técnico de hidráulica e topografia, mas os múltiplos talentos para as tecnologias levavam-no a passar tempos infindos sobre os próprios projectos, com os quais encontrava soluções práticas para problemas surgidos quotidianamente. Os de maior envergadura nunca chegariam a ver a luz do dia, mas tiveram o condão de enriquecer a educação tecnológica dos filhos, área estúpida e sucessivamente subvalorizada, no país onde facilmente vingam logros intelectuais das letras. Ao salário do pai, juntava-se o amealhado pela Maria nas explicações de francês e traduções de castelhano. Assim, sustentavam a família e a casa. E também a quinta, porque apesar dos vinte hectares, era francamente mal gerida, tendo rendimento escasso para pagar aos jornaleiros, que a trabalhavam.
Em criança, o Luís deu os primeiros passos num interesse, mantido pela vida fora. Muitos anos depois, já adulto e na posse dos telescópios de alta-resolução, que compraria ao juntar os primeiros salários como professor de geografia, ainda se recordava do ar tépido das noites de Setembro, no terreiro do Paraíso, sentado nas escadas de pedra da casa, junto dos irmãos e primos, a maravilhar-se com o céu estrelado, a mãe a mostrar a estrela polar, a ursa maior, a cassiopeia. E o caminho de Santiago ou via láctea. O lado visível do nosso bairro, como dizia o Vicente. O Luís caía sempre na tentação de baixar o telescópio até à superfície, sorrir e perguntar entre dentes: onde está o meu cavalinho? Lembrando-se da silhueta dos pinheiros da mata da quinta, em forma de cavalo.