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11/11/2019

O Livro dos Três Princípios - Aconteceu - 12 (continua)

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       No início de Outubro de 2014, a Margarida juntara-se aos antigos companheiros de liceu, no encontro que marcaram a cinco, vindo a Helena, o Luís, o Carlos Alberto e o Oliveira. E se o pretexto eram os habituais jantares anuais, por ocasião do início do ano lectivo e que, dos cerca de vinte convivas iniciais e ao fim de quase vinte anos, se foi reduzindo a este quinteto, a verdadeira razão era comentar o desempenho da Ana Paula na Entrevista da TVI, que sabiam ser rampa de lançamento para a candidatura às legislativas de 2015, como cabeça de lista do PS, pelo distrito de Aveiro. A primeira entrevista foi feita no dia 28 de Setembro de 2014, e versou sobre a infância e o primeiro casamento, tendo a entretanto licenciada em psicologia falado nas agruras dos tempos antigos, como Espinho tinha sido terra de injustiças, e se recordava bem da impossibilidade de falar abertamente por receio da polícia, que na verdade ocultada das câmaras, só associava ao velho militar da Guarda Nacional Republicana, que vira mandar levantar a barraca explorada pelos tios, sem licença, na grande e ruidosa Feira de Espinho.


       E também conversou sobre a ingenuidade com que casou a primeira vez, na Igreja, jovem e sem perceber que estava a cair na armadilha do casamento tradicional por imposição da família. Rebobinou até 1989 e recordou a discussão com a mãe, Armanda, na qual esgrimiu razões, agora referidas como anti casamento católico, mas à época apenas contra o curso de preparação para o matrimónio imposto pelo pároco. Tivera breve contacto com as lides espirituais, nunca faltando à catequese de preparação das comunhões, mas cedo se habituou ao tema religião como alvo de chacota e desdém. Fazendo uso de todos os argumentos que aprendera e desenvolvera nas conversas jocosas entre colegas de liceu e de trabalho, tomou posição. Não se sujeitaria às imposições ridículas impostas pela Igreja. Não, não queria fazer o curso de preparação. Tudo isso lhe soava a antiquado, enfadonho e, acima de tudo, causava vergonha.


       Cresceu na época em que atacar a Igreja era sinónimo de inteligência e libertação. Depois de tantos anos de cinzentismo e contenção, e apesar do país ter passado pela perseguição religiosa há não muito tempo, no início do século XX, pelas mãos da primeira elite republicana, a nova geração sentia necessidade de voltar a demarcar-se da vetusta instituição e de se mostrar mais arejada e ilustrada. Isso significava denunciar e ridiculizar a desonestidade, a falsidade ou tão só a credulidade de devotos, praticantes, padres e de todos quantos tivessem alguma ligação à esconjurada Igreja. Não queria ser confundida com essa gente, que diriam as amigas se soubessem que teria de voltar ao tempo de catequese, quando criança, nos idos anos setenta. Além de mais, ninguém poderia intrometer-se no grande dia da sua vida. Na Igreja, que serviria apenas de cenário, tudo seria simples. De longo vestido caicai, imaculadamente branco, apareceria na porta pelo braço do pai e sairia coberta de pétalas e arroz, ao lado do marido. Preferências obviamente omitidas do discurso actual, no qual a referência pela própria ao vestido e costumes passou por mera alusão sobre piroseiras da juventude.


       E contou que, à época, a mãe insistira que a bênção era importante e não custava nada fazer a vontade ao padre. O facto é que nem por momentos, no espírito das duas almas argumentativas, ocorria recordar o significado primeiro da celebração. Nenhuma se acostumara a questionar a fé. A filha por seguir as tendências do momento. A mãe por crescer convicta e crente na benévola Senhora da Ajuda e na adoração do Cristo sofredor, que aprendeu a venerar olhando a imagem esculpida por Teixeira Lopes, no altar lateral da Igreja Matriz. Além disso, era orgulhosa da grandeza da nova Igreja e estava segura de que não seria engolida pelo mar, como a original e pequena capela da nossa Senhora da Ajuda. Sempre idealizou a filha a entregar o ramo de flores na sua imagem, como ela fizera vinte e poucos anos antes. Sabia que os tempos eram outros, mas com a fé deveria haver esmero. De resto, tudo quanto a filha decidira quanto ao copo-de-água parecia bom e moderno. Dariam o almoço abonado no restaurante A Cabana, marisqueira de Espinho, no qual alguns dos familiares e amigos do noivo costumavam realizar jantaradas. Mas desconheciam elas, jamais festejos, muito menos casamentos.


      Na entrevista, abordaram a propósito do mesmo ano, o tema relativo às primeiras férias no Algarve, uma despedida de solteira em grande da protagonista, para quem na verdade o ano de 1989 foi de grande felicidade e de concretização de objectivos. Queria casar, queria casar com o Pedro, menino fino de cabelo loiro e olhos azuis, queria de facto casar pela Igreja para ter a festa associada, e queria marcar a diferença em despedida de solteira dos tempos modernos. Ora, tendo marcado o casamento no primeiro Sábado de Setembro, por sugestão do noivo, que já engolira a marisqueira a muito custo e a contragosto de toda a sua família, não faltando mais do que casar num Domingo de Agosto, combinou para a terceira semana desse mês as férias, em Albufeira, na companhia das amigas, Helena, Lara, Marta e Sofia.


       Se o ano foi bom, o dia 12 de Agosto ficou marcado por discussão monumental, registada na memória da noiva, sem nunca o admitir, como um momento periclitante da sua vida. Tinha a viagem marcada e o apartamento reservado para si e amigas, que adiantaram a quota-parte do valor do arrendamento. Ancorada em infundada certeza, afiançou a todas que não precisariam de viajar na posse de dinheiro vivo, que aliás seria perigoso, porque assim que chegassem a Albufeira levantaria todo o valor na máquina multibanco. Já utilizava o cartão há quase quatro anos, desde que a rede permitia colher notas das paredes fora instalada em Portugal. Era uma mulher da sua era. Tudo seria simples, fácil e sem espinhas, como gostava de dizer. Entre as convivas de férias, mais nenhuma usava multibanco, algumas nem sequer conta bancária, e por isso, dias antes, entregaram a sua parte, receosas. Dir-se-ia mesmo que contra vontade. Chegadas ao largo Eng. Duarte Pacheco, a Ana Paula dirigiu-se ao multibanco cravado na parede da casa que alojava a agência do Banco Português do Atlântico e deu a ordem de levantamento, dos primeiros, achava ela, vinte contos. E sentenciosa, explicada às amigas que bastaria repetir a ordem mais duas vezes, para reunir o valor e distribuir por todas para os gastos dos primeiros dias, e ir à Padaria do lado, ter com a D. Guadalupe, a algarvia que arrendava o apartamento, levantar a chave a pagar os cinquenta contos do alojamento. Tudo seria perfeito. Passariam os dias a bronzear-se na praia e as noites nos bares de Albufeira e da Oura, e não perderiam a oportunidade de conhecer a discoteca Kiss. Aliás, no ano seguinte, concretizaria outra grande ambição, já casada rodaria nos braços do homem dos seus sonhos, na pista de dança da recém-inaugurada Kadoc, tornada famosa pelos raios laser. Regressando à primeira estada no Algarve, tudo seria perfeito, se não houvesse o limite de levantamento associado à conta, que ainda não era do seu conhecimento, mas que, logo, logo passaria a certeza de sempre no mundo da nossa esquitécia. Obviamente instalou-se mau estar entre o grupo, trocaram-se acusações e demorou a chegar a solução, após a cara de poucos amigos da imperturbável D. Guadalupe, que sem pestanejar dizia: sem dinheiro não há chave, nem apartamento. Era Sábado, os bancos estavam fechados e as mais incautas das amigas, cuja primeira vinda ao Algarve era encarada como uma aventura, viam a vida malparada. As irmãs Soares, habituadas a valorizar e contar os tostões, repetiam à exaustão que estavam fartas dos modos de princesa, ideias parvas e ordens da amiga e que já estavam arrependidas de não ter tratado das férias à sua maneira, isto é, voltarem a fazer campismo, como sempre. Que fosse no Algarve, tudo bem, mas o que interessava é que fosse no ambiente divertido dos parques de campismo, os jogos de cartas, os fogareiros e a galhofa. A Lara sentiu um aperto de coração por ter corrido mal a chegada às férias dos seus sonhos. Via nas revistas e na televisão imagens das praias e ruas no Algarve pejadas de gentes de outras cidades do país e, sobretudo, pejadas de estrangeiros, o que a atraia bastante. Valeu-lhes a Helena, sempre vista como a retardada do grupo. Quando os ânimos estavam acessos, pediu que a ouvissem várias vezes, sem sucesso, como usual. Até que ergueu a voz e disse: eu trago o dinheiro que falta. Posso pagar a vossa parte e na segunda vamos ao banco levantar o dinheiro para acertar contas. Fez-se um primeiro silêncio, até as outras desatarem a gracejar sobre o improvável que foi ser a Helena a resolver o problema. Ela, conformada ao tom de gozo que sempre lhe dirigiam, não reagiu, sentindo-se satisfeita com a ideia de se estender na cama, junto à janela virada para as figueiras e o mar. Desejava aquele regresso. Queria sentir o bálsamo algarvio, depois da viagem cansativa e da torrente de palavras que as amigas jorravam sem tento desde as primeiras horas da madrugada, quando o autocarro expresso saiu dos Clérigos, no Porto. Haviam decidido não ir de carro para estarem mais livres. A Helena estava especialmente contente por voltar ao Algarve, depois de alguns anos, ainda que o de este ano não fosse o seu Algarve. Passara férias em criança, nos verões de setenta e quatro a setenta e nove, em Tavira e em Lagos. Recordava as longas e demoradas viagens de carro, umas vezes pelo litoral, outras pelo interior, e as primeiras impressões sobre as diferentes características de cada paisagem rural e urbana ao longo percurso. Desce cedo, pode reparar quão diverso é Portugal, apesar da pequenez. O que mais a impressionava, as longas rectas do Alentejo, as planícies douradas a perder de vista e as casas alentejanas e algarvias caiadas de branco, tão descomplicadas e diferentes do que estava habituada no Norte.


       À mesa do Assador Típico, sem perder muito tempo no assunto da despedida de solteira, os amigos debruçaram-se sobre o que a protagonista disse sobre o período da ditadura e mais tarde, sobre o primeiro casamento. Se os outros se contiveram, o Luís não deixou passar em claro o fingimento e gracejou do caricato de ser a ditadorazita do liceu a usar agora o chavão da falta de liberdade de expressão no tempo em que, crianças pequenas, ainda não se conheciam, e também da sempre determinada e focada mulher, se revelar ingénua donzela caída na armadilha do casamento. Entusiasmado, como de resto estavam os quatro amigos com o pretexto de má-língua, sugeriu que marcassem outro jantar daí a quinze dias, de forma a fazerem o balanço das próximas prestações da Ana Paula.