Em Agosto de 98, estava algures num boteco no Grand Canyon, em grupo faminto ao fim de muitas horas de viagem e de excitação com aqueles desfiladeiros rugosos e ocre de cortar a respiração, junto da minha prima E., a principal responsável pela oportunidade de ter feito esta viagem, e em casa de cujo namorado aterrámos em grupo de sete. A E. tinha descoberto nessa altura, ao fim de muitos anos de mal-estares e incómodos de saúde, que sofria da doença celíaca, e tinha a singularidade de ficar com bastante mau feitio quando estava com fome. Particularidade de que mais tarde também comecei a enfermar - apenas do mau génio esfaimado, não da celíaca.
Decidimo-nos por cachorros. Chega a vez da E., o rapaz do outro lado do balcão pergunta o que é que quer, e ela responde: um cachorro, mas só a salsicha. O rapaz olha para ela hesitante, acha que não percebeu. Insiste na pergunta. A E., cheia de fome, cara de urgência e de poucos amigos, praticamente exigiu que ele lhe desse a salsicha. Eu, claro, já me desfazia em riso atrás dela. E perante o olhar meio incrédulo meio malandro do rapaz, lá vem um prato com uma salsicha no vazio. Imagino-o ao fim do dia a desabafar à namorada: nunca me tinham pedido salsicha com tamanha violência.
Os dramas da E. por causa da celíaca já vinham de trás. No mesmo ano, mas em Londres, hospedados num hotel em Covent Garden, a E. arranjou um estratagema para conseguir comer qualquer coisa que se visse ao pequeno-almoço: ovos mexidos, basicamente. A táctica passava por descermos em dois grupos distintos (duas levas, por assim dizer) e ela integrar os dois grupos, passando despercebida. Coisa perfeitamente compreensível para nós que mais tarde conseguimos iludir o staff do Imperial Palace, em Las Vegas, e juntar sete pessoas a dormir num só quarto.
Menos sorte tivemos com a nossa incursão pelo centro de Los Angeles, para satisfazer a curiosidade de conhecer as salas de audiência dos tribunais norte-americanos, que nos habituáramos a ver nos filmes e séries. Bom, até tivemos sorte. Nessa ocasião íamos apenas as duas. Ela a conduzir, que foi sempre muito mais desembaraçada do que eu. Tínhamos sido bem avisadas pelo namorado dela, actual marido, que jamais contrariássemos uma ordem da polícia e que se fossemos mandadas parar estivéssemos imóveis. Ora, sucede que a E. hesitante em virar na seguinte a direita, me perguntou se podíamos, e eu míope e calhau como sou fiquei na dúvida, não me ocorrendo perceber que aquele sinal para que olhei era um proibido voltar a direita. Ela virou. E nem um minuto depois tínhamos as sirenes do carro da polícia atrás a mandar-nos encostar. Saem dois matulões e o do lado dela a gritar num timbre histérico de voz, por a E. ter lançado a mão ao porta-luvas (e o que nos tinham avisado em casa: quietas, nada de mexer ou ir ao porta luvas). Eu tive mais sorte por várias razões: não ia a conduzir, o polícia do meu lado era muito mais giro e falava em tom sereno. Usei o velho argumento da turista burra: não compreendo, não somos de cá, não percebemos. Ao que o agente mulato me ia dizendo que aquele sinal era uma convenção internacional. E eu sorrindo com o melhor ar de parva que conseguia e dizendo que cada vez compreendia menos, até conseguir vislumbrar também no seu rosto um quase sorriso. Deram-nos ordem para seguir sem multa nem outra sanção que não fosse aquela esfrega.