
Sempre tiveste predilecção por gavetas mentais desarrumadas. À medida que o tempo passa e te vês já com meio caminho feito, confirmas o quão afortunada é essa inclinação. Os fora da caixa, os excêntricos, os estouvados sempre se mostram os melhores e mais ricos amigos. Não tendo as gavetas todas arrumadas, sabes que podes contar com o imprevisível. E há lá sensação melhor do que te trocarem as voltas às certezas e vice-versa? Numa mesa de jantar de amigos na meia idade celebras verdades inconfessáveis, descobertas ao fim de 30 anos. A surpresa e o insólito faz-se conversa liberta e compreensiva. E, agora, apenas com menos pudores, ris com a mesma vontade com que rias junto deles no final dos idos 80 e nos 90.
Em retrospectiva ninguém é imune a algum ataque de remorso ou arrependimento, ainda que episódico. Mas é reconfortante perceber sentido nas vidas desalinhadas e conforto na própria pele. Pode não durar sempre, nem podia. Mas faz-se tendência, e é tão bom.
Saboreias ainda com mais gosto a ideia quando a casa se enche por uns dias com a irreverência de duas miúdas a acabar de sair da adolescência. Apesar das certezas que sempre têm nestas idades, captas a desordem e celebras: ainda há esperança e o mundo ainda é mundo.
Assim tem decorrido este fim de Verão feito intervalo dos enfadonhos diálogos com argumentações maquinais a que te vais habituando, mas não resignando. E quão entediante pode ser ouvir ou ler pessoas a quem conheces todas as respostas de antemão. E quão entediante pode ser sentir todo o movimento ordenado de autómatos. E pior, alinhares nesse tédio. Ah, que se lixem os intransponíveis e inquestionáveis. Refrescante.
Aclara-se agora a razão para tantos seres humanos precisarem de complexa ficção apimentada, alternativa, violenta ou sórdida: necessidade de fugir da imensa solidão das gavetas arrumadas.