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06/09/2020

Ferreira de Castro

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Pensei investir hoje pela terceira vez na Feira do Livro, mas desisti. Fica para o ano. Em Setembro de 2021 lá estarei em busca d’ A Volta ao Mundo, de Ferreira de Castro. Até lá se precisar de a consultar, peço ao meu pai que a tem em grande intimidade. Os porquês de Ferreira de Castro nesta altura são vários. Era o autor de eleição do meu bisavô materno, homem que depois de ter andado por terras de Angola e do Brasil regressou à sua casa de Valinhas, por si desenhada e mandada construir nas terras que lhe couberam, no início do século XX. Voltou às tílias, à sombra do cantinho de pedra, ao cigarro eternamente apagado e driblado entre os dedos, às conversas de amigos e familiares da grande mesa de almoço, e aos livros. A Selva foi um dos primeiros livros lidos pela minha mãe, pouco mais do que criança, depois de conferenciar com a grande amiga do Colégio da Paz: teriam de aproveitar as férias para ler os livros constantes do Índex. E nada como ir para casa do avô para a eles ter acesso. Além de tudo, para quem pretende escrever sobre o início do século XX, Ferreira de Castro parece ser um sentido obrigatório.


Ontem foi dia de pássaros. Mas não houve tempo para ler na íntegra À Descoberta das Aves de Portugal. Fiquei-me a um terço por sobressaltos familiares. Ainda assim pude constatar a variedade de espécies de garças que povoam o estuário do Tejo e do Sado, e confirmar o nome das pêgas (rabudas e azuis), que nos dias correntes, talvez ao contrário do que indícia o livro (primeira edição de 1994), habitam as zonas arborizadas das cidades. Hoje talvez consiga dedicar-me com mais atenção e quem sabe descobrir qualquer coisa sobre as poupas, um dos únicos pássaros selvagens que peguei com a mão. Amigáveis, faziam colónia em Valinhas. E há pouco tive uma boa notícia. Há meses tinha pedido à minha mãe emprestado o Marías, ou seja, a História da Filosofia. Foi nestes termos: a mãe podia-me emprestar o Marías, o laranja. É pela cor das capas que reconheço a maior parte dos livros. Mas de tão precioso andava escondido. Hoje a minha mãe encontrou-o e vai emprestar-mo (em rigor, disse que seria dado). Juntamente com o Abbagnano, foram os autores que me ensinaram alguma coisa sobre a História da Filosofia no tempo do Liceu. A ver se tenho tempo para o folhear nas próximas semanas. Tudo parece ter-se passado noutra vida. Um nevoeiro espesso sobre a memória faz com que não consiga trazer à luz o que achei ter aprendido. Será que passando os olhos na diagonal as ideias se aclaram? Tenho enorme inveja das pessoas que lêem e retêm para todo o sempre o que lêem. Estou nas antípodas.