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14/09/2020

Cunho

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Prezo a ingenuidade e a franqueza. Sei que em excesso podem degenerar em estupidez e insolência, mas prefiro correr este risco do que cair em cinismos. Vem isto a propósito do modo como digerimos os livros.


Há quem leia e atente no que lê. Há quem veja um filme e atente no que vê e ouve. E há quem tresleia ou parta em viagem. Um pouco a despropósito (já volto ao tresler e viajar) digo que toda a vida ouvi e li com gosto pessoas que me descrevem livros, filmes ou quadros. Recordo a conversa de há muitos anos sobre leituras divergentes do mesmo filme. Duas senhoras viram um filme e acordaram no final numa leitura semelhante, a terceira viu um filme completamente ‘ao lado’. À época pareceu-me (mal) normal alinhar pela estranheza da terceira.


Felizmente, já tive oportunidade de tomar consciência de que dificilmente duas pessoas vêem um filme com os mesmos olhos e o razoável está mais na divergência do que na coincidência de sensibilidades. Por maior abertura de espírito que tenhamos, não há duas vidas iguais e é impossível despirmos o que somos – o nosso carácter e a soma da experiência de vida – assistindo a um filme, lendo um livro ou olhando para uma pintura. A menos que estejamos no plano das borradas exibidas e vendidas já com moldura e conclusões esquadrinhadas a régua e esquadro e oferecidas com laçarote no Natal por quem acha fashion comprar e dar livros a quem gosta de os ter alinhados na estante por tamanhos e cores ou coleccione as novidades mais badaladas do ano.


Ontem à tarde li dois contos de Eça e três das Ficções de Borges. E começo pela heresia: eu não gosto de Eça. Reformulo: não simpatizo com o homem nem os seus devotos actuais. Mas como é evidente admiro o escritor, a inteligência e perspicácia. E considero a possibilidade de vir a mudar de opinião (não seria a primeira nem a última vez) até por colocar a hipótese da falta de afinidade se dever a certa ignorância ou preconceito. Em todo o caso, só se fosse um calhau ambulante é que não reconheceria em Eça de Queirós enorme génio e talento literário. Basta pegar num simples conto para ficar reduzida à insignificância. Não digo isto para amenizar a antipatia pelo homem, mas por puro juízo objectivo. Ontem li o conto Tesouro, uma alegoria fácil e bem conseguida sobre a tragédia da miséria e da avareza. E o Um Poeta Lírico, uma bela e sábia narrativa sobre um poeta injustiçado – não são todos? Os verdadeiros sê-lo-ão sempre. Refiro apenas que na trama surge outro personagem que o autor retrata com curiosa simpatia e que, tratando-se de um pedófilo, ainda não deve ter sido descoberto pelos actuais censores.


Ao contrário, a afinidade com Borges é fácil, ainda que muitas vezes não me seja fácil lá chegar. Mas apetece, digamos assim. Li A morte e a bússula (com a curiosidade de aqui também relevar a importância do número 3 – como no Tesouro, de Eça), o Tema do traidor e do herói, e A forma da espada. E, agora sim, vou tresler. Depois do arrepio da última página - e como é bom sentir um calafrio ao ler – dei comigo, como de costume, a partir em viagem: da personagem que, com desassombro, se assume vil e cobarde decolei para o papel do autor – lato sensu e não Borges, em especial. Imagino que o pensamento de um leitor mais sensato, mais estruturado (digamos assim) derivaria, ao ler este conto, por exemplo, para toda a envolvente da Guerra da Independência da Irlanda e do Sinn Féin, ou para o papel do comunismo no primeiro quartel do século XX, e talvez para os traços fisionómicos e culturais dos ingleses e irlandeses. Já quem treslê, inculcando a sua vida na trama, pode começar, por exemplo, a conjecturar como é previsível e recorrente a postura pouco digna de um comunista numa frente de batalha ou tentar perscrutar algum catolicismo e afinidade nos traços culturais irlandeses. Ou seja, extravasar muito além do realmente escrito.


Voltando ao papel do autor: não é isso que compete ao autor? Expôr as suas dúvidas e misérias? Encontrar espelhadas em si ou nas personagens todas as questões da humanidade. Ah, mas oiço dizer: os autores devem ser grandes, maiores do que o seu umbigo, sair de si e relatar, contar histórias, enriquecer a humanidade com o mundo lá fora, o dos outros, e romper. Há uns anos li num jornal internacional que, depois de anos de exibições biográficas desinteressantes se aguardava por qualquer coisa de extraordinário, que rompa, que doa. Creio que os leitores dos meios intelectuais, os que dizem estas coisas, se comportam como adolescentes muito entediados consigo próprios e com o seu grupo de amigos. Têm bom remédio: cresçam.


Há poucos anos dizia-me um amigo que não se devia cair no erro de escrever sobre si próprio. Percebi o que queria dizer. Aliás, oiço amiúde a corrente contra narcisismos e egocentrismos. Mas pergunto a muitos dos que assim pensam: já repararam quantas histórias aparentemente depuradas de tais vícios são, pelo contrário, depósitos de lugares-comuns feitos máscaras de carácter e de ressabiamentos dissimulados em aborrecida e previsível intriga? 


Uma obra não é ou deixa de ser uma estucha em função de se debruçar sobre o próprio autor ou o resto da humanidade. Nas duas fórmulas pode-se conseguir um bom resultado. Estuchas são as obras em que o escrito não cola com o autor. Por não ter posto verdade no que se escreveu. Por tentar fazer crer ser aquilo que não é. Por falta de cunho.