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03/09/2020

Interlúdio

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Há quem diga até breve e regresse passado uns dias, semanas ou meses. Há quem diga até breve e não regresse. E há quem diga até breve e arranje um pretexto para passar por casa e elencar meia dúzia de temas a desenvolver mais tarde. É nisto que estamos.


 


Do contentamento


Estar na vida de mãos abertas. Não esperar nada dos outros e do mundo ou, pelo contrário, esperar tudo, mas com a exacta noção de que não se obtém por exigência ou cobrança o que deseja e se considera adequado. Não fazer depender a dádiva de qualquer retorno premeditado ou desconfiança antecipada. O que quer dizer que se dá sem esperar nada em troca, ainda que se possa vir a sentir que seria justo. Estar preparada para as boas surpresas como para as desilusões. Das duas fazer a amálgama de caminho de vida aos tropeções. Ver na busca do contentamento e da verdade das coisas - tão maltratada por sofisticados juízos de intenção, e que mais não é senão o sentimento e a razão despidos de conveniência -, um percurso sinuoso. De altos e baixos. E ter recompensa momentânea tão singela quanto ouvir de nós dizer que somos felizes, por nos apresentarmos meigos, cheios de perspectivas, descontraídos e risonhos.


 


Da consciência


Ter a perfeita noção de que estou apinhada de pequenos e grandes defeitos. Perder a vontade de usar o ‘magoómetro’, talvez por batota, por perceber que o cômputo do magoei/fui magoada deve andar ela por ela. Apesar de tudo nunca relativizar nem aceitar a pulhice.


 


Da delicadezaálbum infantil.jpg 


Às vezes, ser bruto é inevitável. Por sistema, é grosso defeito. A razão dirá que o vento sempre soprou favorável aos afirmativos, e no tempo moderno aos malcriados ou sobranceiros. As inúmeras bengalas linguísticas, posturas, gestos e tiques indiciam se o sujeito tem algum respeito pelo interlocutor ou, em geral, pelo outro. Toda a vida desconfiei dos cheios de certezas. Houve momentos em que a coisa mexia de tal forma comigo que considerei ser defeito meu. Julguei ter algum problema com a autoridade, patente na regressão ao passado: a permanente necessidade de contraditório, a rebeldia juvenil e a primeira palavra dita em bebé ter sido ‘não’. Mas confirmei que o defeito pode estar mesmo na grosseria da má-criação e sobranceria. Na Ana Paula e nas Comezinhas já deixei a ideia bem explícita. Custa-me estar sempre a bater na mesma tecla, mas não me contenho: educar deveria passar por um exercício de humildade. Termo absolutamente fora de moda. Tal como a delicadeza, a verdadeira. E não a simulada.


 


Das notícias


A festa do Avante, cujos portões de entrada da Quinta da Atalaia fotografei em Julho já perspectivando o grande acontecimento que aí vem. Nas últimas semanas todos os dias tivemos reportagens ou ditos sobre o assunto nos jornais. Pergunto: o que há de diferente? Só se for a caricatura. O Partido Comunista e os seus militantes gozaram de um estatuto de absoluto privilégio, sem serem questionados, durante os últimos 46 anos. Esta festa de favorecidos em tempo de pandemia é apenas o retrato ampliado do PC. Será preciso um surto de contaminação com vários mortos para a caricatura ficar ainda mais realista? Veremos. Digo isto ciente do Partido Comunista ser um dos dois partidos em que votei. E sendo partido conservador não ponho de parte a hipótese de voltar a votar. Num País de patetas deslumbrados com novidades inconsequentes é – ao lado do PSD –, uma das poucas escolhas credíveis que temos. Apesar de todos os (milhões de vidas) pesares.


É de mim, ou Trump anda com melhor imprensa em Portugal? Bem, é certo que há muito não oiço a catequese do Luís Costa Ribas e seus congéneres dos outros canais. Terá sido o pacto entre os Emirados Árabes Unidos e Israel que os calou? Parece-me pouco. Devem estar de férias ou, como eu, ficaram ocos durante duas semanas. Dentro de dias já estarão prontos a combater o diabo da pele laranja. Muito mais fácil do que estudar as interferências electrónicas no Mar do Sul da China.


A segunda vaga da Covid-19 vem ou não entre o Outono e Inverno? Uma coisa é certa: apesar da comunicação social se ter limitado a passar verniz sobre o tema, não tendo valorizado e esquadrinhado as graves deficiências nos hospitais e centros de saúde portugueses no acompanhamento dos doentes não ‘covídicos’, o problema é crítico e vai-se colocar com maior perigosidade quando vierem as pneumonias, gripes e constipações. A este propósito seria muito interessante estudar os casos das vítimas de pneumonias, outros problemas respiratórios e demais maleitas, que sucumbiram (e das que sobreviveram) nos últimos 9 meses. Pressente-se muito sub-diagnóstico e, ao que parece, também haverá falta de álcool. Este tipo de comentário está sujeito à rigorosa revisão do polígrafo, claro.


Costa diz que os médicos são cobardes? Recordo apenas a que o gráfico representativo das investidas dos políticos sobre classes profissionais com peso em Portugal apresentar uma linha côncava. Lembrem-se do eng. Sócrates: as diatribes contra professores (menos cotados), médicos (bem cotados), juízes (cotadíssimos) começam com alguma adesão popular baseada mais nas raivinhas do que em séria e desejável exigência de qualidade, mas logo se chega a um ponto de inversão até ao descalabro. Se na política e nos meios culturais e intelectuais a endogamia é rainha, na função pública do ensino, saúde e justiça vale o corporativismo atávico.


 


Dos mimos


Os céus ouviram-me. Desejei mais presença física de amigos e família e chegar com ânimo às férias. A uma semana e picos das ditas, a casa tem estado e vai estar no futuro próximo mais movimentada e o ânimo parece ter voltado. São pequenas vitórias, as mais saborosas.


 


PechinchasDia1FeiraDoLivro2020.jpgDa Feira do Livro


No passado Domingo fui à Feira do Livro sem incumbências, limitei-me às pechinchas. No próximo fim-de-semana irei procurar o resto do que quero. Gosto daquelas tílias. Os Jardins do Palácio são um dos locais mais emblemáticos da minha vida. É bonito que seja em Setembro a Feira do Livro. Em criança ia todos os anos, por esta altura, passar um dia inteiro na Feira Popular. Eram grandes, grandes dias. Em novita trepei e saltei em noites festivas os seus mui altos muros - a primeira aos 14, a segunda ao 19 anos, creio -, para entrar sem pagar nos festejos de São João e Académicos. Em adulta estive ligada por breve tempo (e por fios, vá) à obra da Biblioteca Almeida Garrett. Mas isso agora não interessa nada, fica para depois.


*


As fotografias do topo são de um mehari estacionado durante o dia de hoje mesmo em frente à porta de casa. É daquelas coisas: se me voltam a pôr um mehari à porta, ainda revejo todo o meu enguiço com os carros, e volto a conduzir. Coisa que não faço desde (deixa cá ver...) os 11 ou 12 anos.