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19/09/2020

Chuva

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Tenho particular jeito para marcar férias para semanas em que chove copiosamente, ou mesmo para dias de tempestade, como já foi acontecendo. E não é por marcar para alturas do ano em que é habitual chover. Desta vez é normal atenta a data escolhida, mas se calhar em Julho ou Agosto corro os mesmos riscos. Suponho que seja praga lançada pelos amantes do sol e do calor a quem durante o ano vou dizendo que as minhas estações são o Outono e o Inverno. Gosto de chuva, vento e frio. E gosto, mesmo. Sinto particular prazer em andar a pé com vento frio cortante, chegar a casa com a cara e as mãos geladas. Acho que no Porto nunca está frio demais, por estar temperado pelo mar.


Cinquenta quilómetros podem fazer toda a diferença. Lembro dos invernos de Valinhas, do ganhar coragem à noite para sair da sala e atravessar o corredor encolhida e a passo de corrida, do arrepio ao deitar nos lençóis gelados e da água das torneiras de manhã, que parecia quebrar os ossos das mãos. Isso era frio. Mas lá fora não interessava quão gelado fosse o ar, havia sempre o que fazer, mexer. Não há frio para quem se agita. Sempre me fez confusão ouvir gente muito quieta a queixar-se de frio. Com o rabo agarrado à cadeira é natural que se arrefeça. Se se mexessem não sofriam nem se choravam tanto. Mas concedo, sei que sou muito acalorada e desde que dupliquei o meu peso muito mais. Afinal para mim frio à séria é o da Serra da Estrela. A última vez que senti os ossos doerem foi ao enfiar as mãos num rego de água de chuva que corria na berma da estrada: lá, na última despedida da Eca, espalhada em cinzas sobre o chão da sua Serra, com vista para a lagoa. E também sobre nós, que a trouxemos agarrada não só à memória, como à pele e à roupa, por estarmos contravento. Naquela terra de gente rija, sim, há frio. Frio à séria.


O certo é que relaxei em Julho e esqueci-me de fazer os aconselháveis dias de praia. Não me apeteceu ir para o meio da marabunta da máscara e acabei por estar mais pelo Parque da Cidade, meu habitual refúgio verde. Lixei-me. Sem sol não há praia nem piscina exterior e lá virá uma ou outra constipação - espero que não chegue a gripe -, nos próximos meses, o que não convém nada por se confundir com essa coisa que para aí anda a martirizar-nos o juízo.


Os céus e os amantes de dias abrasadores congeminaram: ah, gostas de chuva? Então, toma lá nas tuas férias, a ver se gostas. E pronto, lá vou eu acabar outra vez fechada quatro dias num quarto de hotel, de onde vou sair para tomar as refeições, nadar na piscina interior e dar uns giros. E isto se houver vaga. Como isto está qualquer dia é preciso tirar senha para nadar.


Daqui do sofá estou naquela: ficava melhor em casa, no meu cantinho, a saborear o conforto do sofá, à luz do globo terrestre e ao som da smooth. De janelas abertas a fazer corrente - detesto sentir-me calafetada -. e temperatura amena. A ouvir a chuva, o rodar constante dos carros no asfalto e roncar dos esparsos aviões no céu. Mas não, amanhã vou pegar em três livritos e pôr-me na alheta.