Há mais de trinta anos, quando rondavas os quinze, costumavas passar mais tempo no café Glass do que nas aulas do liceu. Junto ao café havia uma escola primária e nas horas mais sossegadas gostavas de ouvir o burburinho vindo do recreio: os gritinhos de entusiasmo, as gargalhadas, as discussões e birras das crianças. Comovia-te o que afinal estava a tão pouca distância temporal do que foras. Anos mais tarde, quando procuravas casa para viver, imaginavas que o melhor dos sítios seria junto a uma escola primária. E agora dás por ela: a primeira casa que compraste ficava junto ao pequeno arvoredo do recreio da escola primária do Cedro, em Gaia. Pena que não a tenhas gozado à semana, quando havia vida da vizinhança infantil.
Entre ontem e hoje já ouviste n vezes a Zaz cantar Je veux. É contagiante a alegria que transborda da voz rouca e divertida da francesa ao trautear a letra naïf deste sucesso de há doze anos. Há nela uma pureza semelhante àquela que encontramos nas gargalhadas das crianças. Aliás, no fim da música solta uma risadinha que faz sorrir por contágio.
São pormenores que te fazem regressar ao que é importante, procurando não perderes o pé na imensidão de rebuscadas convenções e aparências, na presunção e na vontade de impressionar, de perturbar. Nada te comove tanto quanto a beleza da vida. Não tens grande vontade de chocar nem aprecias o sensacionalismo nos jornais, na literatura, na arte, na existência. Dá-te sempre a ideia que é preciso ser muito afortunado e soberbo para poder dar-se ao luxo de achincalhar e desprezar o que importa.