Publiquei este postal há mais de dois anos a propósito dos eternos conselhos sobre escrita e continuo a pensar nestas matérias com recorrência. Neste deixei transparecer a importância que ela tem nos meus dias presentes. Também já aqui admiti que o blogue é uma forma de exercitá-la. Antes de dar por terminada a Ana Paula (forma íntima com que trato o Livro dos Três Princípios que publiquei neste blogue no final de 2019) tinha consciência que não tinha criado grande (nem pequena) obra, mas ainda assim tentei na medida do possível que não me envergonhasse. Pelo que comprei dois livros de revisores linguísticos, li-os de fio a pavio e tentei expurgar de erros grosseiros os trinta e sete capítulos. Além dos conselhos impressos nestes livros tenho as antenas bastante ligadas para estes temas, pelo que sempre vou na medida das minhas limitações ouvindo ou lendo os zum-zuns a respeito.
Vem isto a propósito dos excessos de zelo e de como pode ser contraproducente a sugestão avulso. Todos gostámos de alvitrar e, claro, há quem tenha mais autoridade para o fazer, pela experiência e traquejo de que é possuidor. Mas não raro vejo condenações sumárias pela utilização das repetições, estrangeirismos, pleonasmos, gerúndios, advérbios de modo ou de qualquer outro expediente linguístico, como se fossem aberrações capazes de conspurcar qualquer texto digno de ser lido. Ora, ainda que não seja uma leitora compulsiva, não tenho memória de mim sem ocupar parte do dia a passar os olhos por palavras (não necessariamente livros), li de tudo um pouco e tenho a pretensão de saber distinguir um texto bem escrito de outro que não é. E reconhecendo a absoluta importância do acerto gramatical e do bom português - de que estou muito longe de ser possuidora -, creio que estes excessos opinativos (algumas vezes assentes em tendências do momento) não deixam espaço para a escrita com cunho. Não raro leio textos de diferentes autores e não fosse a substância ou opinião neles expressa, não descortinaria a autoria, de tal modo é indiferente quem escreve. Acredito que isto é resultado do excesso de zelo conjunto e mimetismo, que leva um leque alargado de pessoas a seguir as mesmíssimas regras e a escrever do mesmíssimo modo. É o que chamei neste postal linguagem psico-jornalística, que mais não é senão um misto de escrita mais vulgar nos dias presentes nos jornais e nas páginas lifesyle, mas também em blogues e nas crónicas. Pode tratar-se de uma escrita imaculada, sem erros a apontar por qualquer revisor linguista, mas é tantas vezes pura e simplesmente (cá está um adverbio de modo) desenxabida. De uma pobreza franciscana total, por falta do sal e do mel que referi na primeira entrada a que fiz ligação. O sabor do texto pode estar no arrojo e sensibilidade de saber entrar nos tais sentidos proibidos dos puristas, fazendo ouvidos de mercador à técnica.
Claro que corro riscos dizendo isto, ao não escrever uma entrada para as Comezinhas sem dois erros gramaticais e três ou quatro gralhas (este é mais longo, deve ter mais). A consciência plena das minhas fragilidades na escrita deixou de me impedir ter sentido crítico sobre o que é dito pelos outros nesta matéria, até por ser raro, para meu espanto, genuína consciência sobre os próprios erros em quem dá conselhos - requisito essencial para ser tomado capaz de juízo válido. Tenho aprendido muito ao ouvir (e ler) outros falar desta matéria, mas fico com pena que tantos deles não demonstrem um pingo de honestidade ao assumir as próprias falhas. Pasmo sempre ao ver gente referir-se ao tema dando-se como exemplo de bom português à medida que vai apontando erros alheios. Mais do que tudo, ensinar não deve passar por enxovalhar - o expediente mais tentador para gente pequena. Estarei sempre aberta a aprender, mas não a fazer as vezes de urso à conta da prosápia alheia - orgulho em conhecimento amiúde sem fundamento.
Para terminar deixo apenas uma nota de rodapé: há quem considere a publicação de um texto com gralhas ou erros falta de respeito pelo leitor - um insulto a quem lê. Recordaria as pessoas tão perfeitas e tão capazes da perfeição quanto as que vêem nesta afirmação uma irrefutável evidência que saíssem do pedestal, percebessem a soberba infundada e se permitissem reparar que há gente com dificuldade e falhas - bem menores do que as que suportam as peanhas do orgulho e os louros fáceis e imerecidos.
É por isso que aos leitores das Comezinhas em vez de pedir desculpa pelos erros e gralhas, admito que não sei escrever sem eles, por muito que me esforce. Tão só. Pedir desculpa por desrespeitar os leitores com as gralhas e erros dos meus textos seria como pedir desculpa por ser muito míope, muito disléxica ou por qualquer outra deficiência. Sei lá, por existir.