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26/06/2022

Diário

É bem possível que este venha a ser um postal com vários interditos, já que não faço a mais pequena ideia que vogais vou apôr às consoantes ou palavras irei formar, quanto mais frases ou ideias. Não será certamente sobre o que marca os dias na comunicação social uma vez que desde Domingo último no hotel ligámos a televisão apenas duas vezes. Uma para ouvir parte do Jornal da Noite, sim aquela em que pontuam Nuno Rogeiro e José Milhazes a debruçarem-se sobre a tragédia da Ucrânia, outra para deixar a RTP 1 seguida da SIC Notícias a fazerem ruído de fundo à conversa. Ao todo cerca de duas horas de televisão ligada numa semana. Não é mau. Também quase não abri os jornais online, nem comprei qualquer versão em papel. Estou alegremente alheada do mundo. Tudo quanto diga não estará em linha (como agora se usa dizer) com o momento. Ah, essa coisa de estar sempre alinhado com a actualidade, sentir-se na obrigação de acompanhar a realidade tal qual ela é apresentada pela voz dominante. Fazer parte da zoeira influente, daquela que risca e é ouvida, é próprio dos vencedores. Ora, se bem me lembro ganhar corridas de bicicleta e partidas de badminton amadoras em criança foram as minhas únicas conquistas como vencedora. Com o orgulho adicional dos adversários serem rapazes - o que me dava um gostinho especial. Daí para cá são as derrotas que me caracterizam. Estar do lado dos vencidos dá-me certa liberdade de não correr pela ambição nem padecer do mal permanente da competição e ódio. É mais tranquila a vida dos vencidos e é com pretensão que acredito na maior lucidez e tranquilidade conferida por este estatuto de condenada ao insucesso. Claro que há o perigo de ressabiamento. Às vezes, lá aflora. É como tudo. Não há bela sem senão. (gostava de saber quantas pessoas admitem em voz alta ressabiamentos, sendo uma característica tão portuguesa; estou a tentar lembrar-me de alguma, mas lá está, é difícil.)


Hoje estou bem disposta, ao contrário de ontem. Estando cansada da viagem (que adorei) e tendo dormido pouco na noite de chegada, ontem fiquei com uma disposição deplorável. Tentei interagir (ãh, que raio de palavra escrevi?) o menos possível por estar com a neura e querer proteger quem me cerca. Há anos tenho o cuidado de dormir o suficiente por saber ser essencial aos humores. Nos últimos tempos sinto a coisa mais palpável: se não durmo fico rigorosamente igual às crianças: amuo à toa, tudo me parece pela negativa, quase faço birra (bom, na verdade, dizem-me que faço mesmo). Vai daí, após o jantar de ontem adormeci no sofá, no qual acordei às duas da manhã. O Ritz exigiu que repusesse o mimo em falha durante a semana anterior. Lá lhe fiz a vontade. (cheguei à conclusão que sou mais calma e terna do que julgava; já mo tinham dito, mas não acreditava; os meus animais de estimação além de brincalhões e tranquilos, demonstram uma dose de meiguice fora de comum.) E dormi até às nove da manhã. Acordei bem disposta e a pensar por que carga de água estraguei um Sábado após dias tão bem passados de conversa pacata, passeio, nado e comidinha boa. Enfim, manias. 


Durante as férias pensei no desperdício de tempo das picardias que me são tão familiares. Se é certo que muitas são sinal de proximidade, até mesmo de intimidade e cumplicidade, a verdade é que o constante interromper de parte a parte a ideia do outro, para fazer uma piada, apontar um defeito, ou brincar quebra em muitos casos a possibilidade de o ouvir e deixá-lo exprimir-se. Fazemos isso amiúde, às vezes sem sequer maldade, não deixámos que o outro pense em voz alta. Converse abertamente. Pequenos preconceitos e pré-juízos do que é, pensa ou sente o outro, impedem que o ouçamos de coração aberto. O que dificulta conhecer bem o que vai na alma de cada um. Ter tempo e disponibilidade para ouvir é uma graça que nos premeia com a surpresa e o melhor do outro.


Estendendo a ideia às pessoas menos próximas a situação é ainda mais premente. Nos dias que correm em que todos falam com todos online - palpitando, criticando, elogiando - é fundamental dar espaço (é diferente de concordar ou discordar), sob pena de não se ouvir nada do que interessa e tudo se reduzir a lugares-comuns e rótulos replicados à exaustão. Ou então a despiques vazios para formar plateia. Quantas vezes prevemos o que vai ser dito ou escrito? Quantas vezes é possível adivinhar com quase inteira exactidão a reacção a uma linha que escrevemos ou de notícia do jornal? Por sabermos que chegará alguém que atirará com o tal chavão ou rótulo. Quantas vezes ao escrevermos, pensámos duas vezes se acrescentámos mais um período só para precaver essa situação? Ou pelo contrário, quantas vezes deixámos a questão em aberto e aguardámos a reacção que virá sem nenhuma surpresa? Ideias repetidas vezes sem conta. Bem sei que pertenço à raça das pessoas que gosta do imprevisível, da mudança e, sobretudo, de ver os dois lados da questão, e que nem todos somos iguais. Seria a desgraça se fossemos. (mas na verdade que adianta isso se aos olhos dos outros pareço banal, pretensiosa e intolerante querendo sempre impôr a minha opinião?) Caramba, é tão bom haver espaço para respirar. É verdade que todos nos tornámos repetitivos e todos nos achámos especiais de corrida, também por isso é importante ouvir e ler os outros sem preconceitos (ouvir e ler não necessariamente o recomendado, o está em voga ou o que amigos recomendam entre si), apesar de tantos nos irritarem pela forma mesquinha ou desleal como têm atitudes ou opiniões que detestamos por sem qualquer consideração pela verdade e por ódios pessoais e pela ganância de facção ferirem valores e pessoas que respeitámos.


Cada um transporta um mundo. Mesmo que alguns tentem reservar a intimidade tendo um discurso o mais asséptico e perfeito possível, a verdade é que à medida que escrevemos, falámos, conhecemos, vamos expondo o que somos e muito do que queremos ocultar. Mostrando esse mundo que carregámos aos ombros cada vez mais pesado, representando as nossas experiências passadas, a especial visão da realidade e a particular projecção dos dias vindouros. (é-me impossível fugir à imagem de São Cristóvão depois de ter escrito a primeira parte desta frase.) Na melhor das hipóteses, e na reduzida dimensão e importância de cada um, tocámos um punhado de outros pelo que vivemos e somos. Na pior, tudo é deturpado pela intolerância e tomado pela negativa. Na mais vulgar das hipóteses tudo é indiferente ou esquecido rapidamente na voragem dos dias, já que há pouco tempo e vontade a perder com os outros (e vá, somos quase oito mil milhões, é natural.) 


E agora, coisinhas boas. O melhor de deixar mais dias de férias para o final do Verão é pensar que o melhor ainda está por vir. Ando a conjecturar ir a Amesterdão ainda este ano. Para o Nuno é um destino onde mais novo foi vezes sem conta por motivos profissionais. Para mim uma das muitas viagens sempre adiadas. É por isso mesmo que o melhor será não protelar muito mais, não se vá dar o caso de voltar a estar alguns anos sem sair do país. Aproveitar a disponibilidade actual antes que a vida nos pregue partidas. Logo se vê. Para já congratulo-me por ter retomado (espero) as idas ao Algarve e vou começar a viajar até à piscina municipal mais perto de casa, que é uma forma como outra qualquer de devanear. Nada mau. Assim como ainda pairo nas paisagens alentejanas e algarvias das quais tantas saudades tinha. As fotografias pouco cuidadas foram captadas na maioria em andamento não fazendo jus à beleza do sul do país; na verdade a ideia não é fazer boas fotografias mas sim ficar com registo. Esta coisa de agora toda a gente querer ser profissional e perito em todas as matérias encanita-me um tanto. A este propósito lembro-me de uma crítica de um primo meu quando viu a fotografia ampliada que tenho em casa, desdenhando da falta de qualidade; farta de saber que não tem qualidade sei eu: a base já era pouco nítida, quanto mais a ampliação em fotocópia; quero lá saber, o que me interessa é que aquela imagem sem qualidade é uma das memórias do meu paraíso (casa e tílias), na minha perspectiva bastante mais bela do que um mar azul tropical e artificial sem vida e parado no tempo a parecer photoshop que ele tanto aprecia (esta foi maldade, admito).


Quanto às mudanças que tencionava ponderar nas férias ficaram em águas de bacalhau. Uma relativa ao blogue e à ideia de escrever um postal periódico sobre notícias da semana. Depois de alguns segundos de aturada reflexão cheguei à conclusão: não estou para aí virada. E assim ficou decidida tão importante questão. Das outras alterações já nem me lembro, de tal modo seriam essenciais. Possivelmente tratava-se de obras em casa, varanda, e assuntos indizíveis. Tudo decisões de suma importância no primeiro dia de férias. Acontece-me sempre, ao parar de trabalhar o cérebro enche-se de seiscentas mil ideias tão geniais que ao fim de poucos dias se esfumam da cabeça.


Pronto, relatório completo. Mioleira exposta q.b.. Ufa.