Acordo de madrugada após cinco horas de sono a rematar um dia cheio. Penso que preciso de dormir mais uma hora para aguentar o ritmo do descanso - parecendo que não isto de relaxar fatiga. Antes de o fazer escrevo este postal e tiro duas fotografias rápidas ao amanhecer com meia hora de diferença entre si.


Ontem de manhã fiz duas horas de praia, como de costume em férias. Uma hora a caminhar na areia junto ao mar, outra a dar poucas braçadas e estender-me ao sol distraída com as conversas dos vizinhos de toalha estendida, que pelas pronúncias e temas de tagarelice me pareceram na maioria do Minho e Grande Porto. Vista do mar a costa urbana de Portimão é francamente feia. Feita de construção desordenada como é característica nacional das últimas quatro décadas. Vale o areal de consistência fina e a temperatura agradável do mar, que faz da caminhada a chapinhar na água um prazeroso passeio.
Seguiu-se o fingir de sesta após pretenso e mui ligeiro almoço e ao final da tarde o travar de conhecimento com a piscina do hotel - sempre ponto fulcral nas minhas férias. À partida foi o susto: entre prédios nem uma nesga de sol no espaço exíguo onde está instalada, rodeada de espreguiçadeiras a poucos centímetros umas das outras. Contudo, pouco na vida é realmente o que parece. Entrada na água, a temperatura estava excelente pelo que se seguiram trinta e cinco minutos a nadar calma e compassadamente por puro prazer deixando-me levar pelas divagações - o efeito da água em mim assemelha-se ao de seguir num carro ou comboio entre paisagem desafogada: parto em viagem. Nadar é um dos maiores prazeres que sinto na vida. Saí de lá mais uma vez a pensar que devo ir regularmente à piscina municipal junto a casa.

Antes do jantar terminei de ler o livro que comecei na véspera: A História de um Sonho, de Arthur Schnizler. Um dos três que trouxe. Mais um romance escolhido entre a Colecção Mil Folhas pelo reduzido tamanho. O que no caso é enganador atenta a densidade freudiana da narrativa. Se entrei no romance com a sensação de desconfiança face aos estereótipos e excessos da psicanálise, terminei agradada. Não foi leitura em vão.