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16/02/2021

Voar

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É muito difícil ao judeu errante, emigrante ou qualquer expatriado e ainda a quem tenha experiência própria ou próxima de viajante, fazer perceber como é obtuso aquele que não saindo do seu espaço, o considera centro único do universo. Não é que a emigração dê garantias de maior amplitude de compreensão do mundo, mas potencia-a. É evidente que havendo falta de inteligência e sensibilidade, o matarruano não passará a ser, por ter emigrado, homem com mundo. Mas é ainda mais difícil colocar no coração e cabeça de alguém que não vê além do seu curto quintal, genuína tolerância pela diferença.


Para lá da manipulação dos sentimentos nacionalistas e outras questões graves e sérias de guerras, disputas de território, recursos naturais e, lato sensu, hegemonia económica, que determinam em grande medida tudo quanto diga respeito ao cidadão estrangeiro, ao longo dos anos tenho reparado que entre os maiores intolerantes, para além do grosso da população que vai com a maré, estão os não declarados. Os que apesar de tantas vezes gritarem slogans e levantarem bandeiras da igualdade e da não discriminação, são muito ciosos do seu quintal e incapazes de estabelecerem laços cordiais com os estrangeiros ou, então, os que estando fora da sua pátria, não conseguem sã convivência nem impor respeito aos cidadãos do país de residência. Sei, parece forma muito leve de colocar a questão, mas o facto é que uns querem preservar o chão que consideram só seu, outros reagem à desconfiança ou animosidade com que são recebidos. Funciona em pleno a lei da disputa do poder.


Muitos pregam a igualdade e a não discriminação com paternalismo e desconhecimento tal das vivências dos visados, que se tornam mais ofensivos do que os intolerantes descarados. Como quase sempre a realidade não é a preto e branco e há intolerantes para todos os gostos, entre eles:



  • os grandes patriotas do seu quintal aproveitam a prosápia, ignorância e o turismo para insultar tudo quanto é estrangeiro;

  • os deslumbrados com o lá fora aproveitam a saloiice para desdenhar de tudo quanto é português, enjeitando ou deturpando cobardemente a nossa História;

  • as tribos de literatos alheados só conhecem o mundo dos livros e do ouvir dizer e aproveitam a sobranceria tão erudita quanto provinciana para desdenhar do judeu errante, emigrante, expatriado ou viajante.


Há planos de ignorância. O da vivência, que reflecte o bronco que não respeita aquilo que considera diferente. E o intelectual, que presume que estudando e lendo, fica a saber o que é melhor ou pior para os homens e país. Sucede que não há garantia que isso aconteça. Por muitos manuais de vôo que leia, só mesmo com as asas fora da gaiola a ave saberá o que é a liberdade e deixará de desdenhar por inveja dos pássaros que vê voar.