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03/02/2021

Conversa com os meus botões

Ontem andava à procura de tema e escrevi: não, não é isto que quero publicar (referia-me a um qualquer aglomerado de palavras à volta do umbigo). Voltar a falar sobre vacinas nem pensar, sendo portuguesa só quero um pano para tapar a cara de vergonha pelo que vejo passar-se em todo o país. Falar sobre o quê? Incompetência? Não vale a pena, estamos todos fartos de saber. Não vou acrescentar nada digno de ser lido. Política internacional? Tema a que presto atenção desde miúda, mas sinto precisar continuar a ouvir, ler e estudar eternamente. Fica para os fins-de-semana. Mortes? O silêncio de respeito, olhos bem abertos para perceber como estamos entregues mais às leis da natureza (entre elas a humana) do que à eficiência humana, e palavras medidas para não cair nem na letargia nem no pânico. Escrever sobre o futuro. Não tem interesse: virá amainar a tempestade e com ele virá a dor de perceber que os vícios permanecem e que daqui a dez ou vinte anos continuaremos a falar disso, com a única diferença de sermos menos. E contra isso não posso nada.


Como tal, passo para o plano do que posso fazer. Mal, muito possivelmente, mas posso. E se de repente à moda de Camilo me sentasse e escrevesse por dias ininterruptos. Já o fiz em 2007; nem causa nem resultado foram brilhantes. Era patente o desajuste a ser corrigido, pelo que o resultado não poderia ser outro senão ser muito bem enfiado no contentor do lixo em finas tiras. Seria fantástico se tivesse talento para criar personagens credíveis e enredo cativante. Não tenho. Por enquanto? A amostra Ana Paula saiu pobre. Mas suponhamos que o voltaria a fazer e a tentação é grande. Folha branca e escrever sem rumo, sem intenções de criticar fulana ou sicrano, sem vontade de defender qualquer causa ou ideia, sem pejo em melindrar quem está do outro lado. Pondo de lado a sensibilidade bloqueadora, que ao pressentir cada reacção, cada dano, cada benfeitoria na pele dos outros, me impede de avançar. Seria bom. Antes de mais, a ideia de ter dias seguidos para me espraiar, depois a disciplina para me obrigar a não largar as teclas nas páginas certas.


Resta agora a dúvida se devo usar o ímpeto na Quinta, ou abrir novo rumo, já que parece enguiçada. Se a lógica for a do bom senso: primeiro trataria do que já está começado e dá mais trabalho, depois viriam os rompantes. Aliás, razões práticas aconselhariam a não adiá-la por muito mais tempo. Pois. Mas não sairia do umbigo. Talvez dele desenjoe com vaipes de dias ininterruptos para tentativas de contos. Não sei, logo se vê.