
*
Volto ao exercício de escrever sem ter rigorosamente nada predefinido. Acabo de pousar os dedos no teclado num rasgo de iniciativa vago, inútil e não determinado. A ouvir River Flows in You, de Yiruma, que me faz lembrar os jardins do hotel de apoio à Disney, de Paris, e as gargalhadas soltas dos mais novos naquele ano de 2014. Ele e ela, nas idades em que ainda faz sentido rir a bandeiras despregadas com asneiras cúmplices, palermices e do formigueiro na barriga na montanha russa. Quando ainda se goza ao afinar o olho na mira da espingarda do faroeste. E se tem paciência empolgada para esperar horas na fila para o foguetão da Star Wars. De manhã e ao final do dia os sorrisos, alegrias e o piano levezinho a entoar esta e outras melodias de Yiruma, entre caminhos e o roçar assobiado do vento nos ramos das árvores. Músicas que mais tarde aprenderam no piano.
Recuo a 1998 e lembro com saudade satisfeita o dia bem passado na Disneyland, de Los Angeles, já com idade para ter juízo, mas felizmente sem ponta dele, gozando cada diversão, com gargalhadas no meio de calor abafado. Bem fazia apetecer as mui regadas montanhas russas e os aspersores de água, tão na moda à época. A desproposito cai-me na ideia a estante da casa que me albergou nesse Verão do ano de 1998; nela estava pousada uma garrafa de vinho do Porto que levara na mala junto dos pacotes do café Sical, bem essencial ao pequeno-almoço em qualquer parte do mundo, e entre outros livros na prateleira estava o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. Alguém o leu naqueles dias, não eu. E só vi o filme de Fernando Meirelles em Dezembro de 2019.
Parecem dois mundos: tempos e espaços distintos. Como pode ser rachado o mundo leve e descomprometido do contentamento e apartado de todas as privações e estragos humanos. Não fosse a memória e não saberíamos que as ondas do tempo desfazem e refazem momentos, como os antigos filamentos das lâmpadas, em aparente ininterrupto de corrente eléctrica, mas afinal intermitente. Será tempo e espaço inexistente? O dos risos alegres que contaminam o espírito, impedindo que jamais desanime por mais do que horas ou dias? Ou o do espelho das misérias e degradações humanas? Se já não se acredita na memória como elo de vida e sentido último, sobra acreditar em quê?
Vou ao álbum, fotografo a imagem sem qualidade do Walt Disney e remoo o desdém de muitos com estas manifestações simples e alegres da vida. Como se ser cínico ou perverso fosse o único atestado digno da inteligência e da erudição.