Ao longo do percurso estudantil tive três professores Júlios. Em rigor, uma Maria Júlia e dois Júlios. De nenhum recordo o apelido, apesar de à época sempre me referir aos ditos pelo nome e apelido (assim é a minha maldita memória, não há o que lhe fazer). Da irmã Maria Júlia guardo o riso tímido e fino no rosto de anjo papudo, pele muito alva e rosada nas bochechas, o nosso gosto pelas contas, a sua paciência pelos meus erros e enorme doçura e tolerância. Tenho esperança que o facto de ter feito a escola primária numa misericórdia de irmãs Vicentinas (longe do pedrigree das Doroteias, onde temia ir parar como aluna) me tenha dado alguma sensibilidade para os menos bafejados pela sorte. Não tenho dúvida que o feitio benevolente das irmãs de São Vicente de Paulo, muito especialmente da irmã Maria Júlia, me fez ter relação pacífica com o lado espiritual. Ainda que durante muitos anos me tenha dito ateia, por preguiça de perceber o que era ser agnóstico, em momento algum senti necessidade de guerrear Deus e igreja. A educação em casa, intencionalmente pouco rigorosa em termos espirituais, permitia-me perceber como os homens e instituições são falíveis. A educação naquela escola permitiu-me entender que devemos ser atentos e cuidadosos com os outros. Não tive o mais pequeno trauma pelos rigores da religião tão apregoados na minha geração e nas gerações imediatamente anteriores. O afastamento e regresso à fé foi um movimento íntimo que nada teve a ver com descrença ou mágoa nas pessoas e instituição. A igreja é para mim um espaço longínquo de que guardo sobretudo boas memórias e ao qual não quero voltar para que assim se preservem.
Tendemos sempre a admirar para lá dos que têm bom ar, os que usam e abusam do sentido de humor e da ironia, quando não do sarcasmo ou pura maldade. Também eu tinha – e vou tendo - como eleitos os que me instruíam com recurso à graça e ironia. Mas talvez poucos tenham educado melhor do que o professor de Filosofia do Direito, Júlio, de fraca figura e presença. Não fui a muitas aulas, mas admirei-o pelo modo generoso como chegava aos alunos. Lembro a forma despojada como refazia as perguntas sempre mal formuladas pelos alunos. A cada questão levantada, dava-se ao trabalho de traduzir para português correcto dando corpo às ideias mal-amanhadas com que a plateia o ia brindando, devolvendo a cada interlocutor antes da resposta, uma questão lisa, bem colocada e plena de sentido. Só depois vinha a resposta. Ali não havia lugar a grande fogo-de-artifício nem pasmo de admiração, nem riso desenfreado, apenas inteligência e bondade.
Mais tarde, numa pós-graduação, tropecei no último Júlio. Lá do cimo da sua boa altura e cabelo crespo muito negro, também ele falava português escorreito, ao contrário de muitos dos seus colegas. Creio que tive duas ou três aulas. O suficiente para concordarmos que pouco estraga tanto este país como a incontinência legislativa e as reformas dos diversos códigos. Tremo sempre quando oiço alguém dizer: esta situação não está contemplada na lei, esta realidade é nova, é preciso legislar. Tomara soubessem ler e interpretar o que lêem, como os Júlios. Tomara conhecessem a lei e o sentido das palavras.